Tecnologia

Por que o mundo vê a China mais positivamente que os EUA

Levantamento da Gallup em mais de 130 países mostra vantagem de Pequim no quesito aprovação de liderança, enquanto posição americana recua até entre aliados da OTAN

Vista do skyline de Xangai, na China: tecnologia e inovação impulsiona soft power do gigante asiático (Leandro Fonseca/Exame)

Vista do skyline de Xangai, na China: tecnologia e inovação impulsiona soft power do gigante asiático (Leandro Fonseca/Exame)

André Lopes
André Lopes

Repórter

Publicado em 6 de abril de 2026 às 11h17.

Última atualização em 6 de abril de 2026 às 13h08.

Uma nova pesquisa da Gallup, uma importante consultoria de tendências globais, sugere uma virada simbólica na disputa global por influência. Segundo o levantamento, a China passou a ter uma taxa de aprovação internacional superior à dos Estados Unidos: uma mediana de 36% dos entrevistados em mais de 130 países aprovam a liderança chinesa, contra 31% no caso americano. É a maior vantagem de Pequim sobre Washington em quase duas décadas. A queda dos EUA foi acelerada entre 2024 e 2025, período em que a aprovação global da liderança americana recuou de 39% para 31%. Em países da OTAN, o índice de aprovação da liderança dos EUA caiu para 21% em 2025, reforçando a percepção de desgaste entre aliados históricos.

Lida isoladamente, a pesquisa poderia ser apenas um retrato político do segundo mandato de Donald Trump. Mas ela aponta para uma mudança mais profunda. A China vem melhorando sua imagem global não apenas por diplomacia ou comércio, mas por ter transformado tecnologia, infraestrutura e inovação aplicada em instrumentos concretos de soft power.

Durante décadas, os Estados Unidos dominaram o terreno do softpower. O país exportou não apenas poder militar ou influência política, mas também o imaginário tecnológico do mundo: Microsoft, Apple, Google, Amazon, Meta, Netflix, Tesla. A vida digital moderna foi desenhada, em grande medida, a partir da Califórnia. A internet comercial ganhou sotaque americano. O mesmo valeu para o software corporativo, a computação em nuvem, os smartphones premium e boa parte da inteligência artificial.

A China não repetiu esse roteiro. Hoje, a tecnologia chinesa está menos associada a um ideal de futuro elegante e mais a uma promessa de eficiência tangível. Ela aparece em torres de 5G, em carros elétricos mais baratos, em painéis solares, em drones, em marketplaces ultracompetitivos, em smartphones de entrada, em sistemas de pagamento, em plataformas de vídeo e em cadeias industriais que abastecem o cotidiano de países ricos e pobres. A influência vem menos do encanto e mais da utilidade.

Esse deslocamento ajuda a explicar por que a imagem da China melhorou justamente num momento em que a dos EUA se desgasta em parte do mundo, inclusive entre aliados históricos. Em países como a Alemanha, a aprovação da liderança americana registrou queda de 39 pontos percentuais, segundo a Gallup. O dado não pode ser explicado apenas por decisões de política externa. Ele também reflete a percepção de que os Estados Unidos se tornaram mais erráticos, mais voltados para dentro e menos previsíveis como parceiro econômico e tecnológico.

O caso dos veículos elétricos é ilustrativo. Se a Tesla ajudou a transformar o carro elétrico em objeto de desejo no Ocidente, a BYD e outras montadoras chinesas fizeram algo diferente: transformaram a categoria em produto de escala global. Em 2024, a China respondeu por quase dois terços das vendas mundiais de carros elétricos, e o país vendeu mais de 11 milhões de unidades, consolidando sua liderança nesse mercado. Em 2025, a BYD ultrapassou a Tesla nas vendas globais de veículos elétricos, com cerca de 2,257 milhões de unidades vendidas no ano, enquanto a fabricante americana enfrentou queda de desempenho em seus números mais recentes.

Com preços mais baixos, produção agressiva e integração vertical, a China passou a exportar não só veículos, mas uma cadeia tecnológica completa de baterias, software embarcado e manufatura. O mesmo vale para a energia solar. Estimativas da Wood Mackenzie apontam que a China deve concentrar mais de 80% da capacidade global de manufatura solar até 2026, reforçando uma posição que já lhe permite influenciar preços, cadeias de suprimento e a velocidade de adoção da energia limpa em diferentes mercados.

A disputa entre China e Estados Unidos agora avança sobre as industriais, tecnológica e nas posiçnoes simbólicas. Os EUA ainda lideram em várias fronteiras da inovação, mas já não detêm com a mesma folga o poder de definir o imaginário do progresso, como mostra a Gallup. A China, por sua vez, vem ocupando esse espaço com menos glamour e mais escala — que ajuda a propagandear qualquer boa imagem.

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