China: país tem passado por um envelhecimento rápido nos últimos anos (Qilai Shen/Bloomberg)
Repórter de Inteligência Artificial e Tecnologia
Publicado em 21 de setembro de 2026 às 12h01.
Em janeiro deste ano, um aplicativo chinês viralizou — não exatamente por suas funções, mas por uma polêmica com o seu nome. Batizado de Sileme, ou "Você está morto?", à época, ele não foi visto com bons olhos. Mesmo assim, chegou ao topo do ranking de aplicativos pagos das principais lojas de aplicativos de smartphone na China, antes de sumir abruptamente poucos dias depois. O nome debochado foi o que ajudou a viralizar o produto — e também o que provavelmente o derrubou.
Agora, quatro meses depois, a ferramenta voltou com um nome mais ameno, Zaime Zaime — algo como "Você está aí?", na tradução literal —, e um público-alvo bem mais específico: idosos que moram sozinhos.
A premissa faz sentido em um país que envelhece cada vez mais rápido. No fim de 2025, a China tinha mais de 323 milhões de pessoas com 60 anos ou mais, o equivalente a 23% da população do país. Desse grupo, uma fatia relevante mora sozinha, longe dos filhos.
EUA e China não podem vencer a corrida da IA sozinhos, diz analista do BofANa nova versão do aplicativo, o usuário consegue registrar o uso comum do celular como uma forma automática de check-in, que alerta parentes ou agentes comunitários se o usuário não confirmar que está bem por dois dias consecutivos.
Há ainda um botão de emergência de acionamento único. Para idosos sem smartphone, autoridades locais e a empresa desenvolveram uma versão física do dispositivo, que pode ser usada junto ao corpo ou mantida em um local de fácil acesso. Quando acionado, o botão alerta simultaneamente familiares e funcionários comunitários responsáveis pelo atendimento.
O fundador do aplicativo, Lü Gongchen, contou ao Barron's que a empresa levantou cerca de US$ 1,4 milhão em uma rodada de investimento fechada em abril, em troca de uma fatia de aproximadamente 10% do negócio, e buscava, em junho, uma nova rodada que avaliaria a companhia em algo próximo a 200 milhões de yuans. O plano é cobrar por volta de 20 yuans por pessoa ao ano por serviços básicos de monitoramento, com o modelo comunitário apoiado pelo poder público como principal via de expansão.
Inicialmente, o foco do aplicativo era ser uma ferramenta de segurança para quem mora sozinho. O usuário cadastrava contatos de emergência e precisava fazer check-ins diários. Depois de faltas consecutivas, o sistema enviava um alerta por e-mail aos contatos cadastrados.
A primeira versão também nasceu com poucos recursos. Os três fundadores desenvolveram o produto em um mês, com um custo de 1.500 yuans, segundo o China Science and Technology Daily. A transformação em Zaime Zaime levou essa mesma lógica de monitoramento ao acompanhamento de idosos.
A chamada "economia prateada" chinesa, o conjunto de setores voltados a atender às necessidades da população idosa, deve movimentar mais de US$ 4,3 trilhões até 2035, segundo estimativas oficiais. Só o mercado de robôs de serviço para idosos, uma fatia bem mais estreita dessa economia, já deve superar US$ 1,47 bilhão neste ano, segundo o Centro de Testes de Software da China.
O governo chinês tem tratado essa transição como prioridade de Estado. Autoridades já publicaram diretrizes pedindo o uso de tecnologias como interfaces cérebro-computador, robôs exoesqueléticos e trajes musculares para ajudar idosos com funções físicas em declínio, além de planos para incentivar casas inteligentes adaptadas a essa faixa etária.