Repórter
Publicado em 11 de abril de 2026 às 09h40.
Última atualização em 11 de abril de 2026 às 09h56.
A promessa de usar o próprio corpo como senha digital ganhou uma nova camada com a chegada do PalmAI, tecnologia da Tencent Cloud, braço de computação em nuvem da gigante chinesa. Fontes ouvidas pela EXAME apontam que a solução, que transforma a palma da mão em identificador para pagamento, já tem um grande player do varejo na mira, com uma marca nacional de supermercados entre os primeiros a testar pagamentos com a tecnologia no final do semestre.
Diferentemente de sistemas como reconhecimento facial, leitura de íris ou impressão digital, o PalmAI combina dados visíveis com informações internas do corpo. A tecnologia lê desde textura e cor da pele até padrões vasculares, como veias, fluxo sanguíneo e calor, criando uma identidade difícil de replicar.
Essa diferença técnica dialoga com uma fragilidade conhecida do setor. Segundo dados apresentados pelas empresas, cerca de 60% das tentativas de fraude biométrica exploram a ausência de liveness detection, mecanismo que verifica se há uma pessoa real diante do sistema. Na prática, isso inclui ataques com fotos, vídeos ou moldes que conseguem enganar leitores tradicionais.
É nesse ponto que a Tencent posiciona o PalmAI como uma nova geração de autenticação. Ao utilizar dados internos e dinâmicos do corpo humano, a tecnologia consegue validar não apenas a identidade, mas a "vivacidade" do usuário, reduzindo a eficácia dessas tentativas de fraude.
O resultado é um sistema que permite transformar a palma da mão em uma espécie de carteira digital. Com um gesto, o usuário pode pagar compras, acessar serviços ou passar por catracas, sem cartão, celular ou senha.
A proposta já começou a sair do papel no Brasil. No ano passado, a Tencent procurou o metrô de Brasília para colocar essa tecnologia à prova em um teste de conceito. Desde setembro, o sistema opera em projeto piloto na capital federal.
A introdução do sistema no país é conduzida pela Treeal, parceira local da Tencent. Com essa aliança, o PalmAI entra em fase comercial, com busca ativa por clientes no mercado brasileiro.
As empresas já têm ao menos um cliente do varejo alimentício, um supermercado, em negociação ou implementação, o que coloca esse segmento como porta de entrada da tecnologia no país, além de conversas com uma instituição financeira.
Além da operação comercial, há também o início da montagem e fabricação do sistema no Brasil, movimento que pode reduzir custos e acelerar a expansão.
A identificação ocorre em menos de 300 milissegundos, segundo a empresa. A taxa de falsa aceitação é de 0,0000001%, enquanto a de rejeição indevida é de 0,01%, padrão do setor financeiro.
A Tencent afirma que o erro é menor do que o de tecnologias como reconhecimento facial. Ao mesmo tempo, o modelo elimina a necessidade de armazenar imagens dos usuários. Os dados são tokenizados e criptografados, reforçando o discurso de privacidade.
Na prática, o sistema opera no conceito "sem rosto, sem cartão, sem toque", alinhado a tendências como open finance, sistema de compartilhamento de dados financeiros, e à LGPD, Lei Geral de Proteção de Dados.
No Brasil, a Treeal será responsável por armazenar e proteger os dados cadastrais. A proposta é criar um ecossistema integrado em que o usuário faz um único cadastro e pode utilizá-lo em diferentes serviços, de varejo a transporte público.
A aposta da Tencent, já testada em mercados asiáticos, chega ao Brasil em um cenário de aumento das fraudes digitais. Ao priorizar o varejo alimentar como porta de entrada, a empresa tenta acelerar a adoção de pagamentos biométricos no cotidiano do consumidor.