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Os robôs humanoides agora enfrentam o mundo real — e a China saiu na frente

O mercado ainda é pequeno. O investimento, a velocidade de implantação e o histórico chinês sugerem que não vai ficar assim por muito tempo

Robôs humanoides: tecnologia deixa de ser promessa e vira negócio (Imagem gerada por IA)

Robôs humanoides: tecnologia deixa de ser promessa e vira negócio (Imagem gerada por IA)

Publicado em 11 de maio de 2026 às 05h01.

Durante anos, o robô humanoide parecia coisa de ficção científica. E por uma boa razão: era exatamente isso que as empresas do setor estavam vendendo.

As demonstrações eram cuidadosamente coreografadas. À época, robôs que caminhavam com perfeição em superfícies lisas e travavam ao encontrar um tapete. Comunicados de imprensa escritos em 2019 anunciavam uma "implantação comercial em 2024".

No setor, circulava uma piada interna que o robô capaz de fazer trabalho real estava sempre a dez anos de distância. Em 2005, estava a dez anos. Em 2015, continuava a dez anos. Em 2023, nada havia mudado.

Então o prazo diminuiu. Isso porque componentes ficaram baratos o suficiente, softwares de controle bons o suficiente, e algumas empresas decidiram parar de aperfeiçoar protótipos e começar a mandar robôs para fábricas reais — onde teriam que funcionar de verdade, sem câmera no ângulo certo e sem engenheiro segurando o cabo de emergência.

Os números que vieram depois disso são difíceis de ignorar. O Goldman Sachs projetava um mercado de US$ 6 bilhões para humanoides até 2035 e revisou para US$ 38 bilhões, mais de seis vezes a estimativa anterior, numa revisão que o próprio banco atribuiu à queda acelerada nos custos de componentes.

A BCC Research calcula US$ 11 bilhões até 2030, com crescimento anual de 42,8%. O investimento global no setor superou US$ 10 bilhões em 2025.

A Figure AI, startup americana que tem algumas centenas de unidades comercialmente implantadas no mundo, fechou uma rodada em setembro passado com valuation de US$ 39 bilhões, mais do que o dobro do valor de mercado da Embraer, estimado em US$ 12,17 bilhões.

Mas há um número mais revelador do que todos esses, e ele não vem de Wall Street.

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Em 2025, a China respondeu por mais de 80% de todas as instalações globais de robôs humanoides.

Num setor onde Boston Dynamics passou décadas sendo referência, onde Tesla entrou com toda a força de marketing de Elon Musk, onde startups americanas captaram bilhões com PowerPoints sobre o futuro do trabalho, foi uma empresa de Xangai chamada AgiBot que liderou o mercado real, com 31% das instalações globais. A Unitree, também chinesa, ficou com 27% e embarcou mais de 5.500 unidades em 2025.

A piada sobre os dez anos finalmente envelheceu. E, quando o prazo chegou, a China estava na frente.

A China percebeu antes

Enquanto o Ocidente ainda debatia se humanoides tinham futuro comercial, a China simplesmente começou a fabricá-los.

A estratégia não era nova. Segundo análise do Morgan Stanley citada pela Bloomberg, o país repetiu em robótica o que havia feito nos carros elétricos uma década antes: entrar cedo, controlar a cadeia de fornecimento de ponta a ponta, usar o mercado interno como campo de testes e escalar antes que os concorrentes percebessem o tamanho da vantagem acumulada.

No caso dos veículos elétricos (EVs, na sigla em inglês), o Ocidente levou anos para entender o que havia acontecido. Em robótica, o processo está mais visível — mas não necessariamente mais fácil de reverter.

Os números chegaram rápido. A AgiBot, de Xangai, assumiu a liderança global em instalações com cerca de 31% do mercado. A Unitree ficou com 27% e embarcou mais de 5.500 unidades em 2025. Juntas, empresas chinesas responderam por mais de 80% de todas as implantações globais de humanoides no ano passado — num setor onde Boston Dynamics passou décadas sendo a referência mundial.

Mas a vantagem mais duradoura talvez não esteja nos robôs em si, mas no que existe por trás deles. A China construiu, ao longo dos últimos anos, a infraestrutura industrial completa para sustentar o setor: atuadores, sensores, baterias, software de controle, capacidade de fabricação em escala.

É esse conjunto que coloca americanos, japoneses e sul-coreanos numa posição incômoda — competindo num mercado onde parte relevante da cadeia de que dependem já pertence ao adversário.

Os Estados Unidos ainda procuram um modelo

No Ocidente, praticamente todo mundo concorda que humanoides serão importantes.

O problema é que ninguém parece concordar sobre como chegar lá.

A Tesla aposta em escala massiva e redução agressiva de preço. Elon Musk continua tratando o Optimus como um futuro produto de massa, mesmo após admitir que os robôs da empresa ainda não realizam trabalho produtivo relevante. Já a Boston Dynamics segue a lógica de menos volume, mais sofisticação e foco em clientes corporativos dispostos a pagar caro.

O contraste mostra uma divisão importante no setor.

Parte das empresas acredita que humanoides precisam virar uma commodity rapidamente. Outra parte trata o mercado como algo parecido com máquinas industriais premium.

Enquanto isso, startups continuam levantando rodadas bilionárias sustentadas mais por expectativa do que por receita concreta.

O risco de crescer rápido demais

Curiosamente, o maior problema do setor talvez não seja fracassar, mas dar certo rápido demais.

O Morgan Stanley alertou que uma expansão acelerada da oferta pode derrubar preços em ritmo suficiente para destruir margens da própria indústria.

É uma dinâmica que a China conhece bem e aconteceu em energia solar, depois em veículos elétricos. Primeiro o setor experimenta o crescimento explosivo, depois excesso de capacidade, guerra de preços e consolidação forçada.

O próprio governo chinês já demonstrou preocupação com a possibilidade de uma bolha em robótica humanoide, o que faz sentido devido ao contexto atual.

Quanto mais barato um robô fica, mais empresas conseguem comprá-lo, o que, ao mesmo tempo, também reduz rapidamente a vantagem competitiva dos fabricantes.

O verdadeiro desafio começa fora da fábrica

Até agora, os robôs humanoides vivem principalmente em ambientes industriais, onde tudo é mais previsível e controlado.

Dentro de uma casa, o cenário muda completamente.

É justamente aí que aparece um dos maiores desafios da indústria: transformar máquinas treinadas para fábricas em assistentes capazes de lidar com a rotina imprevisível das pessoas.

A startup norueguesa 1X, apoiada pela OpenAI, já abriu a pré-venda do humanoide doméstico NEO. Outras empresas seguem o mesmo caminho, com projetos voltados para cuidados com idosos e assistência residencial.

O problema é que ainda existe uma distância grande entre funcionar bem numa linha de montagem e operar com segurança dentro de uma casa.

Na indústria, uma falha costuma gerar prejuízo financeiro, mas, na casa de alguém, o impacto pode ser muito maior.

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