Ivo Ivanov, CEO da DE-CIX, durante apresentação sobre a infraestrutura global de dados e a expansão de cabos submarinos impulsionada pela inteligência artificial. (Getty Images)
Editor de Inteligência Artificial e Tecnologia
Publicado em 30 de setembro de 2026 às 07h28.
Última atualização em 30 de setembro de 2026 às 10h33.
Quando alguém em São Paulo pede uma resposta a um chatbot hospedado num data center europeu, a pergunta não sobe para o espaço. Desce para o fundo do mar. Segundo Ivo Ivanov, CEO da DE-CIX, praticamente todos os dados que cruzam oceanos, 99,99% deles viajam por cabos submarinos.
Os satélites, apesar do barulho em torno de constelações como a Starlink, ficam com uma fração residual. E nenhuma rota pesa tanto quanto o Atlântico, que tem, por alto, capacidade 2,5 vezes maior do que a do Pacífico.
É essa geografia que explica por que Lisboa recebe, até 1º de outubro, a terceira edição do Atlantic Convergence. Organizado pela DE-CIX, uma das maiores operadoras de pontos de troca de tráfego de internet (Internet Exchange, ou IX) do mundo, o encontro reúne no Pátio da Galé representantes de mais de 700 empresas de 80 países, com cerca de 1.400 inscritos. Entre os parceiros estão AtlasEdge, EllaLink, Interfiber Networks, MEO Wholesale Solutions e Nokia.
A tese central da abertura é que a inteligência artificial não apenas aumenta o tráfego de dados. Ela muda onde o processamento acontece e onde o dinheiro é gerado. Agentes autônomos e aplicações distribuídas por vários continentes exigem redes com latência baixa, capacidade alta e pouca tolerância a falhas.
Isso redesenha a localização de data centers e desloca valor ao longo da cadeia, das operadoras tradicionais para quem controla cabos, pontos de interconexão e capacidade de computação próxima ao usuário.
Por isso, na visão de Ivanov, a pergunta deixou de ser apenas quanto construir. Passou a ser quem constrói, quem é dono dos ativos e quem os protege. É um problema que, segundo ele, nenhuma empresa ou governo resolve sozinho.
Para Portugal, o evento é também vitrine. Ana Figueiredo, CEO da MEO, uma das fundadoras da conferência, defendeu usar a posição geográfica do país como alavanca para transformá-lo num hub digital europeu e internacional. A operadora vem investindo em conectividade internacional, incluindo projetos de cabos submarinos e novas ligações terrestres entre Lisboa e Madri, que levam o tráfego que chega pelo mar até o centro do continente.
A ambição tem lastro. Portugal é o ponto de chegada na Europa do EllaLink, cabo que liga Fortaleza a Sines e dá ao Brasil uma rota direta à Europa, sem passar pelos Estados Unidos. Para empresas brasileiras que dependem de nuvem e de modelos de IA hospedados fora do país, a qualidade dessa ponte deixou de ser detalhe técnico e virou questão de competitividade.
Figueiredo ressaltou, porém, que capacidade sozinha não basta. Com a IA, resiliência e segurança passam a pesar tanto quanto velocidade.
Os dois temas completam a agenda. Data centers de IA consomem energia em escala crescente, e a sustentabilidade deixa de ser capítulo do relatório ESG para virar variável do plano de investimento: onde construir, com que fonte, a que custo. A segurança segue a mesma lógica. Quanto mais aplicações, plataformas e agentes autônomos dependem de poucas rotas físicas, maior o impacto de um cabo danificado ou de um ataque a uma infraestrutura crítica.