Publicado em 22 de julho de 2026 às 17h16.
Última atualização em 23 de julho de 2026 às 10h43.
A ação civil pública do Ministério Público de São Paulo contra a Tools for Humanity e a Amazon Web Services (AWS), com pedido de indenização mínima de R$ 240 milhões, recolocou no centro do debate um projeto que já vinha sendo questionado por reguladores em pelo menos seis países.
Para entender o tamanho do que está em jogo, e por que a Amazon foi arrastada para o processo, é preciso voltar ao que é, afinal, o World.
Fundada em 2019 por Sam Altman, CEO da OpenAI, e por Alex Blania, a Tools for Humanity desenvolve a tecnologia por trás do protocolo World.
A proposta: criar um diretório global de humanos únicos por meio do escaneamento da íris. A pessoa se posiciona diante da Orb, uma esfera metálica do tamanho de uma bola de futebol, o dispositivo mapeia suas íris e gera um código único, o World ID, uma espécie de "passaporte digital" que permite provar que se é humano, e não um robô, sem revelar dados pessoais adicionais.
A EXAME acompanhou de perto o lançamento do projeto nos Estados Unidos, em São Francisco. Ali, entre dezenas de Orbs sobre pedestais, Altman resumiu a tese: "Queríamos uma maneira de garantir que os humanos continuassem sendo especiais e centrais em um mundo onde a internet teria muito conteúdo gerado por IA".
Alex Blania, CEO da Tools for Humanity: “Queremos construir a maior infraestrutura confiável para transações digitais na era da IA” (Zach Hilty/BFA.com/Divulgação)
A empresa sustenta que a imagem da íris não é armazenada. "As íris são extraordinariamente estáveis ao longo da vida e virtualmente impossíveis de falsificar com a tecnologia atual", explicou Damien Kieran, diretor de privacidade da Tools for Humanity, à EXAME.
Segundo ele, o código gerado passa por fragmentação criptográfica e é dividido em partes guardadas por entidades legalmente distintas. "O código pode confirmar que você é humano, mas não pode recriar sua íris — assim como um código de barras em uma caixa de biscoito te diz o que tem dentro, mas não te dá o biscoito".
É justamente nesse ponto, onde e como esses dados são guardados, a AWS aparece. A subsidiária da Amazon foi incluída na ação por seu papel de fornecedora da infraestrutura de nuvem usada pelo projeto.
Para o MPSP, os participantes brasileiros não receberam informação clara sobre a transferência internacional de suas informações nem sobre o armazenamento nos servidores da empresa americana, o que compõe o argumento de vício de consentimento.
Procurada, a AWS afirmou em nota que possui termos de serviço claros, que exigem que seus clientes utilizem os serviços "em conformidade com as leis aplicáveis". A responsabilização de provedores de nuvem por uso indevido de dados de terceiros é um terreno pouco testado no Judiciário brasileiro, e esse é um dos aspectos mais inéditos da ação.
O World chegou ao Brasil em 2023, com três pontos de coleta, e suspendeu as atividades semanas depois. Voltou em novembro de 2024, com dez pontos de verificação em São Paulo, e a adesão foi imediata: em menos de um mês, o projeto ultrapassou 120 mil brasileiros com a "prova de humanidade". Em troca do escaneamento, os participantes recebiam recompensas na criptomoeda WLD, que variaram, segundo o Ministério Público, entre R$ 300 e R$ 700.
O freio veio em janeiro de 2025, quando a Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) proibiu a oferta de compensação financeira pela coleta, sob o argumento de que a vantagem econômica compromete o consentimento livre exigido pela Lei Geral de Proteção de Dados.
A empresa recorreu, perdeu e suspendeu a coleta em fevereiro. Mesmo depois disso, sustenta o MPSP, as recompensas seguiram sendo oferecidas pelo aplicativo World App.
O Brasil não foi exceção. Portugal, Espanha, França, Argentina e Coreia do Sul também questionaram o modelo — os sul-coreanos chegaram a multar a Tools for Humanity em cerca de R$ 4,5 milhões por falhas na gestão de dados sensíveis e por transferi-los para servidores no exterior.
O que a ação do MPSP não discute, mas ajuda a explicar o apetite da empresa, é o tamanho do plano. Em entrevista exclusiva à EXAME, Alex Blania, CEO da Tools for Humanity, foi direto sobre a ambição: "Ele deve se tornar o superaplicativo para a era da IA. Se criarmos um aplicativo que gerencie sua identidade, suas finanças e suas interações sociais em um só lugar, isso será uma combinação muito poderosa".
O argumento comercial nasce de um problema real. "Se 90% do tráfego da internet for impulsionado por IA, quase tudo que fazemos terá de mudar", disse Blania. "Em um ano, provavelmente não conseguiremos mais identificar robôs nas redes sociais." Ele cita os aplicativos de namoro como exemplo: "Gastam centenas de milhões por ano tentando excluir contas artificiais, mas isso está ficando impossível".
Daí as parcerias já anunciadas: com o Match Group, dono de Tinder e Hinge; com a Razer, para verificar jogadores em partidas online; e com a Visa, para um cartão de débito atrelado ao aplicativo. Questionado sobre concorrência, Blania foi enfático: "Não temos concorrentes, porque o que estamos fazendo era visto como algo tão maluco, mesmo um ou dois anos atrás, que ninguém nem sequer tentou". O World App já ganhou até um serviço de mensagens próprio, voltado a quem tem o World ID.
A ação, proposta pela promotora de Justiça Patrícia Leitão, tem origem no relatório final da CPI da Íris, instalada na Câmara Municipal de São Paulo em maio de 2025. Segundo a promotoria, a operação se concentrou em regiões periféricas e locais de grande circulação de trabalhadores, como estações de metrô e unidades do Poupatempo, o que configuraria exploração da vulnerabilidade socioeconômica dos participantes.
O MPSP pede que a Justiça declare as práticas abusivas, proíba definitivamente a coleta atrelada a pagamento, determine a eliminação irreversível dos dados já coletados e condene as empresas a, no mínimo, R$ 240 milhões por danos morais coletivos, além da reparação individual dos consumidores. Em caráter liminar, a promotora requer a preservação de registros e metadados para fins de investigação.
Resta a ironia que atravessa toda a história: enquanto acelera o desenvolvimento da inteligência artificial na OpenAI, Altman constrói a infraestrutura para distinguir humanos das máquinas que ele mesmo ajuda a criar. No Brasil, essa infraestrutura vai ter de se explicar diante de um juiz.