Tecnologia

Lucro da Huawei cai 36% enquanto empresa investe pesado em chips próprios para driblar sanções

Diante da alta global no preço de memória, a empresa escolheu não repassar o custo ao consumidor e investir pesado em chip próprio — mesmo isso derrubando o resultado

Huawei: empresa aposta em apoio de Pequim para reduzir dependência de chips dos EUA (Ying Tang/NurPhoto/Getty Images)

Huawei: empresa aposta em apoio de Pequim para reduzir dependência de chips dos EUA (Ying Tang/NurPhoto/Getty Images)

André Lopes
André Lopes

Editor de Inteligência Artificial e Tecnologia

Publicado em 31 de agosto de 2026 às 09h46.

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A Huawei reportou queda de 36% no lucro líquido do primeiro semestre de 2026, para 23,81 bilhões de yuans (cerca de US$ 3,54 bilhões), segundo balanço divulgado nesta segunda-feira, 31. A receita, por outro lado, cresceu 10%, para 468 bilhões de yuans, a combinação revela uma empresa que está faturando mais, mas gastando ainda mais rápido para sustentar sua aposta em autossuficiência em semicondutores.

O motivo da compressão de margem tem duas frentes. A primeira é o mesmo problema que atinge o setor de tecnologia inteiro: a escalada nos preços de memória, turbinada pela demanda de infraestrutura de inteligência artificial, encareceu os componentes de qualquer fabricante de eletrônicos, e a Huawei optou por não repassar boa parte desse custo ao consumidor, mesmo com os preços de chips de memória disparando.

A segunda é estratégica: a empresa elevou o investimento em pesquisa para 121 bilhões de yuans no semestre, e chegou a fazer uma corrida por estoque de matéria-prima para se proteger de novas altas, gerando um fluxo de caixa negativo de 39,9 bilhões de yuans.

A resposta às sanções tem nome: LogicFolding

A Huawei é hoje a ponta de lança da estratégia chinesa de reduzir a dependência de chips estrangeiros para inteligência artificial, tentando ocupar o espaço que a ausência da Nvidia no mercado chinês deixou livre. Em maio, a companhia revelou um caminho técnico para tentar superar as sanções lideradas pelos Estados Unidos, que cortaram seu acesso a semicondutores avançados e aos equipamentos de fabricação mais modernos.

Segundo He Tingbo, chefe de semicondutores da empresa, a Huawei acredita que pode eventualmente produzir chips de alto desempenho equivalentes aos processos mais avançados da taiwanesa TSMC usando a chamada tecnologia LogicFolding, uma arquitetura que ganha desempenho ao "dobrar" circuitos internos e encurtar o caminho dos sinais, sem depender das máquinas de litografia ultravioleta extrema da holandesa ASML, hoje bloqueadas para venda à China.

A meta declarada é chegar, até 2031, a um desempenho equivalente ao processo de 1,4 nanômetro, o mesmo patamar que a TSMC pretende alcançar em produção de massa já em 2028, uma diferença de três anos que a Huawei tenta encurtar sem as ferramentas que sustentam a liderança ocidental.

Em setembro, a empresa deve apresentar seu novo smartphone de ponta equipado com um chip Kirin fabricado usando o método LogicFolding pela primeira vez — um teste de conceito antes do salto mais ambicioso planejado para o início da próxima década.

Como a Huawei driblou a crise do consumo

Apesar da pressão nas margens, a estratégia de segurar preços rendeu resultado concreto no mercado doméstico. Segundo a consultoria Counterpoint, a Huawei registrou alta de 19% nas vendas de smartphones durante a campanha promocional de meio de ano na China, entre maio e junho, foi a única grande fabricante a crescer nesse período, num momento em que a demanda por eletrônicos de consumo esfria e pesa sobre rivais como Apple e Xiaomi.

Com isso, a Huawei se tornou a marca líder de smartphones na China, com fatia de mercado superior a 20% após o período promocional conhecido como "618".

O resultado ajuda a explicar por que a empresa aceita sacrificar margem no curto prazo: recuperar espaço de mercado e, ao mesmo tempo, financiar a corrida por chips próprios são, hoje, as duas faces da mesma aposta.

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