Google citará rivais e privacidade em defesa de processo antitruste

Departamento de Justiça dos EUA investiga se a empresa usa sua dominância nas buscas para atrapalhar as companhias concorrentes

Nos próximos dias, a expectativa é que o Google seja alvo da maior ação antitruste da história dos Estados Unidos desde que o governo enfrentou a Microsoft duas décadas atrás. Oficialmente, a empresa ainda não apresentou sua argumentação legal. Porém, juntando-se as declarações apresentadas a outras autoridades antitruste, posts de blogs da empresa e depoimentos de seus executivos ao Congresso, pode-se fazer um esboço da estratégia do Google.

Investigadores do Departamento de Justiça estão apurando se a empresa de propriedade da Alphabet Inc. usa sua soberania em buscas online, navegadores e tecnologia de anúncios para atrapalhar concorrentes injustamente, pressionar empresas a comprar mais anúncios e beneficiar o resto de seu império digital, segundo disseram fontes que acompanham de perto a investigação.

O Google já vinha tentando desacreditar a base destes argumentos. “Nós não concordamos com a ideia de que somos dominantes. Nós discordamos da ideia de que não existe fartura de opções”, disse Don Harrison, diretor de desenvolvimento corporativo, durante uma audiência parlamentar em 15 de setembro. Ainda que o Google controle 90% do mercado de mecanismos de busca, os consumidores ainda obtêm suas informações online de outras maneiras: eles buscam notícias no Twitter, ideias de presentes no Pinterest e outros produtos na Amazon, tem dito a empresa de buscas. Esta é uma tática comum em casos antitruste. Órgãos reguladores tentam definir um mercado de modo mais restrito possível para ilustrar a ausência de competição, enquanto as empresas criam um universo de adversários tão amplo quanto possível.

O Google também vem se valendo de outro grande tema em regulamentação de empresas de tecnologia como argumento em sua defesa: privacidade. Em algumas ocasiões, a empresa está tendo de mudar seus serviços para restringir o compartilhamento de dados online de seus clientes ou para melhorar de alguma forma a privacidade do usuário. E isso pode prejudicar companhias rivais. Executivos do Google têm reclamado em privado que estão presos a uma situação em que “quem não faz toma, e quem faz, também”. Se a empresa compartilha menos dados, anunciantes rivais e parceiros gritam antitruste. Se abre a base de dados, defensores da privacidade pedem falta.

Em janeiro, o Google disse que seu navegador Chrome iria eliminar os rastreadores usados para medir a performance dos anúncios em um prazo de dois anos, uma vez que os consumidores não gostam de ser seguidos por toda a internet. O Chrome é o navegador mais usado nos Estados Unidos e no mundo, de modo que isso representaria um abalo sísmico para a indústria: não só isso, dúzias de rivais que oferecem tecnologia de anúncios teriam de correr para encontrar novos modos de operar, sob pena de se tornarem obsoletos.

A maioria dos negócios do Google já é menos dependente desses rastreadores, o que quer dizer que a expectativa é que a empresa ainda saia no lucro às custas de competidores menores com poucas formas de direcionar ou medir dados. A empresa também tem usado o argumento da privacidade para defender sua decisão de limitar que adversários fornecedores de tecnologia de rastreamento de anúncios tenham acesso à sua plataforma YouTube, maior serviço online de vídeo do mundo.

O braço de tecnologia de anúncios do Google cuida de quase todas as etapas do processo de compra e venda de publicidade exibida online. Rivais, anunciantes e empresas de mídia têm reclamado que as ferramentas oferecidas pelo Google nem sempre se conectam facilmente aos produtos vendidos por outras empresas, forçando todo o ecossistema na direção do Google.

Em um relatório de 2019 para o Comitê Australiano de Competição e Defesa do Consumidor, um advogado do Google usou 67 páginas repletas de notas de rodapé para argumentar que o segmento de tecnologia de anúncios da empresa estimula competição em vez de invalidá-la. Adversários individuais ou clientes podem achar certas atitudes injustas, mas isso acontece porque o Google tem de equilibrar tudo, diz o relatório. O papel de zelador benevolente da internet é um que o Google assume várias vezes em sua defesa. Mecanismos de busca, YouTube, Maps e Gmail são todos de graça para usuários comuns e beneficiam diretamente pequenas empresas, disse o executivo-chefe da empresa, Sundar Pichai, em depoimento ao Congresso americano em julho.

A pandemia que tem forçado mais empresas a migrar para o online também está virando parte do argumento do Google. “Quase um terço dos proprietários de pequenas empresas diz que, sem ferramentas digitais, teria de fechar totalmente ou parcialmente suas empresas durante a covid”, afirmou Pichai. Ele definiu seu império de tecnologia de anúncios quase como uma instituição de caridade criada pelo bem da internet de modo mais amplo. “É um negócio com pouca margem de lucro para nós”, disse o CEO. “Nós fazemos porque queremos ajudar as empresas de mídia.”

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