Exclusão digital deixa 23% das classes D e E sem auxílio emergencial

Estudo da FGVcemif mostra que porção de brasileiros de baixa renda não conseguiu receber benefício; dentre os motivos, estão falta de acesso a celular e internet
Auxílio emergencial: benefício voltou a ser pago no mês de abril de 2021, após interrupção de três meses, com valor variando de 150 a 375 reais (Marcello Casal Jr/Agência Brasil)
Auxílio emergencial: benefício voltou a ser pago no mês de abril de 2021, após interrupção de três meses, com valor variando de 150 a 375 reais (Marcello Casal Jr/Agência Brasil)
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Laura PanciniPublicado em 27/05/2021 às 06:00.

23% dos brasileiros das classes D e E não conseguiram receber o auxílio emergencial oferecido durante a pandemia da covid-19 devido à exclusão digital. Dentre os motivos, estão a falta de habilidade para lidar com dispositivos digitais e as limitações de acesso à internet.

Após interrupção de três meses, o auxílio emergencial voltou a ser pago no mês de abril de 2021, com valor variando de 150 reais a 375 reais, a depender do perfil do beneficiário e da composição de cada família. O valor total, conforme orçado pelo governo, é de 44 bilhões de reais, o que corresponde a menos de 15% do que foi pago em 2020 (293 bilhões de reais). 

As informações são de estudo do Centro de Estudos de Microfinanças e Inclusão Financeira da Fundação Getulio Vargas (FGVcemif) e da Agência Bori.

Tendo como base dados do painel TIC Covid-19, do Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), os pesquisadores aplicaram um questionário com usuários de internet com mais de 16 anos de todas as regiões do país, entre junho e setembro de 2020.

Dentre estes entrevistados, 38% afirmaram ter conseguido receber o auxílio emergencial. Outros 20% tiveram suas solicitações negadas, ou seja, não receberam o auxílio emergencial.

Considerando apenas a porção de pessoas das classes D e E, a porcentagem dos que tentaram solicitar mas não conseguiram sobe para 23%.

Lauro Gonzalez, coordenador do FGVcemif, lembra que um em cada quatro brasileiros ainda não utiliza a internet, proporção que representa aproximadamente 47 milhões de pessoas, em sua maioria nas classes D e E.

“Isso acaba sendo um problema, já que as pessoas dessas classes são justamente aquelas que estão em maior condição de vulnerabilidade social e precisam de políticas de transferência de renda”, destaca González, que é um dos autores do estudo.

Exclusão digital é mais forte nas classes D e E

De acordo com o estudo:

  • Cerca de 20% dos usuários das classes D e E falaram que a falta de acesso a um celular os impediram de conseguir o benefício;
  • A limitação no acesso à internet impacta 22% dos solicitantes das classes D e E, mas apenas 9% do total de entrevistados;
  • Dificuldades para baixar o aplicativo da Caixa tiveram porcentagem duas vezes maior nas classes D e E (18%) do que o informado pelo total (9%) e
  • 28% dos usuários destas classes relataram falta de habilidade em utilizar o app, contra 12% do total dos entrevistados.

Diante destes dados, os autores frisam que é fundamental que a disponibilização do auxílio emergencial, que é voltado para a população mais afetada pela pandemia da covid-19, seja realizada em interfaces amigáveis, intuitivas e alinhadas às especificidades dos dispositivos móveis destes usuários.

“A formulação e implementação de políticas públicas precisa levar em consideração a realidade da baixa renda no uso de tecnologias”, alertam os autores do estudo, que ressaltam a importância do papel das prefeituras e profissionais que atuam em nível local para ajudar quem tem dificuldade a manusear o aplicativo.