(Imagem gerada por IA/Exame)
Repórter de Inteligência Artificial e Tecnologia
Publicado em 15 de setembro de 2026 às 09h01.
RESUMO | Em 2026, moradores de cidades dos Estados Unidos passaram a derrubar, vandalizar e protestar contra câmeras da Flock Safety, sistema de leitura automática de placas com mais de 120 mil unidades em 49 estados. Segundo a empresa, a tecnologia apoiou mais de 1 milhão de investigações em 2025. A reação chegou às eleições de meio de mandato e ao Congresso.
Nos Estados Unidos, moradores de cidades como Boston, San Diego e várias no interior de Nova York têm feito algo pouco comum: derrubado, vandalizado e protestado fisicamente contra câmeras de rua.
O alvo é a Flock Safety, empresa de Atlanta avaliada em US$ 7,5 bilhões, cujas câmeras de leitura automática de placas (ALPR, na sigla em inglês) já somam mais de 120 mil unidades espalhadas por 49 estados americanos — presentes em mais de 6 mil cidades e usadas por departamentos de polícia, associações de moradores e empresas privadas.
Usando inteligência artificial (IA), as câmeras da Flock capturam entre seis e 12 fotos de cada veículo que passa, identificando placa, marca, modelo, cor e até detalhes como adesivos e arranhões — tudo isso em poucos segundos, sem necessidade de intervenção humana.
Segundo a empresa, essas informações ajudaram a polícia americana em mais de 1 milhão de investigações criminais em 2025, incluindo a localização de quase 10 mil pessoas desaparecidas.
Toda essa captura de imagem não fica armazenada localmente — e é processada e guardada em infraestrutura de nuvem operada pela Amazon Web Services (AWS), parceira oficial da Flock.
Segundo a documentação técnica da própria empresa, dados sensíveis ligados a agências governamentais e de segurança pública ficam hospedados especificamente no AWS GovCloud, ambiente de nuvem separado e mais restrito, com data centers físicos na Virgínia, em Oregon e em Ohio — e acessível apenas a agências de aplicação da lei.
Trégua dos titãs: por que Musk, Altman e Amodei pedem freio na IAInvestigações jornalísticas recentes, como a do site Dissent in Bloom, apontam que essa escolha arquitetural — integrar dados de vigilância civil à mesma infraestrutura de nuvem usada por agências de inteligência americanas — é uma decisão deliberada, e não um mero detalhe técnico.
Segundo o Axios, as câmeras da Flock se juntaram aos data centers como os dois principais alvos da retórica anti-IA nas eleições de meio de mandato de 2026 nos Estados Unidos, com parlamentares e candidatos ao Congresso tentando capitalizar politicamente sobre a onda repentina de indignação popular contra essa ferramenta de vigilância.
Abdul El-Sayed, candidato democrata ao Senado por Michigan, publicou vídeo associando seu adversário republicano, o ex-deputado Mike Rogers, às câmeras da Flock — usando a música "Somebody's Watching Me" (Alguém está me observando) como trilha sonora.
Outros candidatos democratas, como Chaz Molder, no Tennessee, e William Lawrence, também em Michigan, adotaram discurso parecido contra a "invasão do governo" representada pelas câmeras.
O tema também uniu espectros políticos opostos: um grupo de deputados republicanos, liderado por Tim Burchett, apresentou projeto de lei proibindo o governo federal de comprar câmeras da Flock ou tecnologia semelhante, enquanto o senador independente Bernie Sanders publicou nas redes sociais: "A Flock instalou quase 100 mil câmeras pelos Estados Unidos para rastrear cada movimento seu [...] Parem a vigilância em massa por IA. Parem a Flock."
Segundo Jake Johnson, candidato democrata à Câmara por Minnesota, a conexão entre os dois temas não é coincidência: "Em todo lugar que vou, recebo perguntas sobre data centers. Então, o fato de essas duas coisas estarem potencialmente ligadas, eu acho que realmente incomoda muito as pessoas", disse ele ao Axios.
A escala do sistema já provocou reação bipartidária nos Estados Unidos. Mais de 50 cidades e condados já cancelaram ou desativaram contratos com câmeras de leitura de placas neste ano, segundo o site Politico.
O senador republicano Josh Hawley abriu investigação formal sobre a coleta, retenção e disseminação de dados pela Flock, enquanto governadores de partidos opostos — o democrata Josh Shapiro, da Pensilvânia, e o republicano Ron DeSantis, da Flórida — pediram, cada um à sua maneira, mais restrições ao uso das câmeras em seus estados.
Segundo o TechCrunch, moradores em diversas cidades americanas já passaram a desmontar fisicamente os equipamentos, em meio a temores de que os dados estejam sendo usados por autoridades de imigração para localizar e deportar pessoas.
O Brasil já opera um sistema com lógica semelhante — só que em expansão, não sob ataque público. O Muralha Paulista, programa do governo de São Paulo, já integra 94 mil câmeras em mais de 600 municípios paulistas, incluindo 20 mil leitoras de placas e 7 mil equipamentos de reconhecimento facial.
As imagens são cruzadas em tempo real com o Banco Nacional de Mandados de Prisão, permitindo identificar automaticamente foragidos da Justiça, veículos roubados e pessoas desaparecidas — qualquer cidadão ou empresa também pode cadastrar câmeras particulares voltadas para vias públicas, ampliando a cobertura do sistema sem custo adicional ao governo.
As câmeras da Flock Safety são equipamentos de leitura automática de placas que usam inteligência artificial para registrar entre seis e 12 imagens de cada veículo. O sistema identifica placa, marca, modelo, cor, adesivos e arranhões em poucos segundos.
A Flock Safety tem mais de 120 mil câmeras distribuídas por 49 estados e mais de 6 mil cidades americanas. Os equipamentos são usados por departamentos de polícia, associações de moradores e empresas privadas.
Os protestos refletem preocupações com vigilância e uso dos dados pessoais. Segundo o TechCrunch, moradores também temem que autoridades de imigração utilizem as informações para localizar e deportar pessoas.
Os dados são processados e armazenados na infraestrutura de nuvem da Amazon Web Services. Segundo a documentação técnica da Flock Safety, informações sensíveis de órgãos governamentais e de segurança pública ficam no AWS GovCloud, ambiente restrito com data centers na Virgínia, em Oregon e em Ohio.
Segundo o Axios, as câmeras da Flock Safety e os data centers se tornaram os principais alvos da retórica anti-IA nas eleições de meio de mandato de 2026. Candidatos democratas criticaram a tecnologia, enquanto deputados republicanos liderados por Tim Burchett apresentaram um projeto para proibir sua compra pelo governo federal.
Sim. O Muralha Paulista reúne 94 mil câmeras em mais de 600 municípios de São Paulo, incluindo 20 mil leitoras de placas e 7 mil unidades de reconhecimento facial, com imagens cruzadas em tempo real com o Banco Nacional de Mandados de Prisão.