Vazamento de vídeos e do mapa do aguardado GTA VI gera perdas bilionárias para a Take-Two Interactive, dona da Rockstar Games. (Divulgação)
Editor de Inteligência Artificial e Tecnologia
Publicado em 20 de agosto de 2026 às 17h26.
Última atualização em 20 de agosto de 2026 às 17h27.
A Take-Two Interactive, dona da Rockstar Games, perdeu mais de US$ 2 bilhões em valor de mercado em menos de dois dias depois que um hacker autointitulado CyberLeek começou a divulgar, na terça-feira, 18, vídeos de jogabilidade e o mapa completo de GTA VI.
A ação, negociada a US$ 248,13 antes do episódio, chegou a cair para US$ 231,60, queda de mais de US$ 15 por papel que, multiplicada pelas cerca de 187 milhões de ações em circulação, apaga bilhões do valor da empresa quase da noite para o dia.
O detalhe que intriga analistas é que, quatro meses antes, um vazamento parecido teve efeito oposto: fez a ação subir.
Em abril, o grupo de hackers ShinyHunters invadiu sistemas ligados à Rockstar, por meio de uma plataforma terceirizada de análise de dados, e exigiu US$ 200 mil para não divulgar o material roubado. A Take-Two não pagou. Os hackers cumpriram a ameaça e publicaram tudo.
O problema, para os criminosos, é que o conteúdo vazado era majoritariamente financeiro: dados de desempenho do GTA Online, incluindo a receita das Shark Cards, as microtransações do modo multijogador, algo próximo de US$ 500 milhões por ano, segundo estimativas divulgadas na época, com o serviço faturando cerca de US$ 8 milhões por semana. Nada sobre o conteúdo de GTA VI vazou.
Para o mercado, isso não foi um escândalo. Foi uma prova de solidez financeira que a própria empresa jamais divulgaria voluntariamente com esse nível de detalhe. A ação, que fechara a US$ 201,36 no dia anterior, terminou o pregão seguinte em US$ 205,10, adicionando mais de US$ 1 bilhão ao valor de mercado da companhia em questão de horas.
O episódio atual é de outra natureza. O CyberLeek não vazou planilha nenhuma: vazou o próprio jogo. Segundo reportagens do setor, o hacker afirma ter em mãos um build completo e não lançado de GTA VI, com clipes mostrando o protagonista Jason Duval jogando basquete, roubando veículos e em cenas de combate, inclusive um vídeo em que o personagem escreve a palavra "LEEK" atirando contra uma parede, prova, segundo o hacker, de que ele mesmo jogou a build, e não apenas acessou gravações internas.
A diferença de risco é qualitativa. Um vazamento financeiro embaraça; um vazamento de jogabilidade e mapa pode estragar a experiência de compra do maior lançamento da história dos videogames, previsto para 19 de novembro.
A casa de análise Jefferies foi direta em nota a clientes: chamou o episódio de "desastre" com potencial de prejudicar a produção e o moral da equipe, e alertou que o risco maior seria o vazamento do próprio código-fonte do jogo, o que poderia forçar mudanças na arquitetura antes do lançamento para preservar a integridade dos servidores do GTA Online.
CyberLeek publicou um manifesto justificando a ação como protesto contra práticas da indústria: pré-vendas de cópias digitais (que, segundo o hacker, "não podem esgotar", tornando o conceito de pré-venda obsoleto fora do mundo físico), DLCs de personagem único vendidos como enganosos, e a prática de bloquear o conteúdo single-player quando servidores online são desligados.
As exigências incluem um pedido de desculpas público da Rockstar com "compromisso concreto" de mudança — sem isso, o hacker promete continuar liberando material, inclusive, em tese, o final do jogo.
Há uma inconsistência que reduz a credibilidade do discurso: o próprio CyberLeek usou os vazamentos para promover uma criptomoeda própria, inserindo marca d'água publicitária nos vídeos mais recentes. Isso levanta dúvida sobre se o motivo real é ativismo de consumidor ou geração de audiência para um esquema financeiro paralelo, o que não muda o dano à Take-Two, mas muda a leitura sobre quem está do outro lado.
Do ponto de vista de gestão de crise, a Rockstar tem uma alternativa simples: adiantar a divulgação oficial de jogabilidade estendida para "tirar o fogo" dos vazamentos. Mas provavelmente não pode fazer isso agora, porque já tem um compromisso comercial fechado: o terceiro trailer do jogo estreia em parceria com a Netflix em 27 de agosto, dentro de poucos dias. Antecipar a exposição destruiria o valor daquele acordo de exclusividade.
Por ora, a resposta da empresa se limita a notificações de remoção por direitos autorais (DMCA), especialmente eficazes no YouTube, mas incapazes de conter a disseminação no X, onde clipes continuam circulando. O próprio site do hacker chegou a ficar instável, retornando erro 502 em momentos de pico de acesso, sinal do volume de tráfego que o caso gerou.
Mas, mesmo com a queda, nada indica impacto nas vendas de fato. Analistas seguem projetando GTA VI como um dos maiores lançamentos da história do entretenimento, e a expectativa represada por anos de espera dificilmente esfria por causa de clipes vazados, a maioria dos jogadores tende a comprar o jogo de qualquer forma. O mercado, neste momento, está precificando incerteza de curto prazo, não uma mudança de tese sobre o produto.