Mais caros: smartphones e videogames registram altas de preço muito acima do IPCA no Brasil (Imagem gerada por IA/Exame)
Repórter de Inteligência Artificial e Tecnologia
Publicado em 7 de setembro de 2026 às 08h51.
Compare o extrato do cartão de crédito de quem trocou de smartphone em 2024 com o de quem fez a mesma troca em 2025, e a conta não fecha com a explicação de sempre.
Nesses doze meses, a inflação brasileira desacelerou, fechando 2025 em 4,26% — a menor taxa em seis anos, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Mas o preço de lançamento de um Galaxy Ultra, no mesmo período, subiu 33%.
Levantamento da EXAME, com base em preços oficiais de lançamento de smartphones, consoles de videogame, e-readers e notebooks no Brasil, mostra reajustes de até sete vezes o índice oficial de preços do país — e aponta a crise global de memória RAM como um dos fatores que devem manter essa distância entre o preço da tecnologia e o custo de vida do brasileiro comum.
| Produto | Preço anterior | Preço atual | Alta nominal |
| iPhone (128 GB), 2023 → 2024 | R$ 7.299 | R$ 7.799 | +6,9% |
| iPhone, 2024 → 2025* | R$ 7.799 | R$ 7.999 | +2,6% |
| Galaxy Ultra (256 GB), 2024 → 2025 | R$ 8.999 | R$ 11.999 | +33,3% |
| PS5 com disco, 2025 → 2026 | R$ 4.499,90 | R$ 5.099,90 | +13,3% |
| Kindle básico, 2022 → 2024 | R$ 499 | R$ 599 | +20,0% |
| MacBook Neo (256 GB), reajuste em 2026 | R$ 7.299 | R$ 8.499 | +16,4% |
*O iPhone 17 (2025) dobrou o armazenamento de entrada, de 128 GB para 256 GB, no mesmo preço praticamente igual — o que, em termos de "preço por GB", representa na prática uma queda de custo para o consumidor, mascarada pelo preço nominal quase estável.
O caso mais chamativo é o do Galaxy Ultra. A Samsung cobrava R$ 8.999 pela versão de 256 GB do S24 Ultra, lançado em janeiro de 2024. Um ano depois, o S25 Ultra chegou custando R$ 11.999 na mesma configuração — uma alta de 33,3%.
Para efeito de comparação, a inflação oficial acumulada em 2024, ano imediatamente anterior ao lançamento, foi de 4,83%: o reajuste do aparelho foi quase sete vezes maior do que a alta de preços que atingiu o restante da economia brasileira no período.
O PlayStation 5 também subiu bem acima do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). Em abril deste ano, a Sony reajustou o preço sugerido do console com leitor de disco no Brasil, de R$ 4.499,90 para R$ 5.099,90 — alta de 13,3%.
O movimento aconteceu justamente no ano em que a inflação brasileira desacelerou, fechando 2025 em 4,26%, a menor taxa desde 2018.
A justificativa oficial da Sony foi a escassez global de chips de memória, que elevou o custo de produção do console em todo o mundo — mas o reajuste no Brasil, em termos percentuais, superou quase três vezes a inflação média anual do país nos últimos dois anos.
Entre os casos de smartphones, o iPhone teve o reajuste percentual mais comedido: 6,9% entre 2023 e 2024, e 2,6% entre 2024 e 2025 — este último acompanhado, vale reforçar, de um upgrade de armazenamento que compensa boa parte do aumento nominal.
Ainda assim, a alta entre 2023 e 2024 (6,9%) ficou acima da inflação de todo o ano de 2024 (4,83%).
O Kindle básico, e-reader de entrada da Amazon, também subiu bem acima da inflação.
O modelo lançado em 2022 (11ª geração) custava R$ 499 no Brasil; a versão seguinte, lançada em outubro de 2024, chegou a R$ 599 — alta de 20% em dois anos, período em que a inflação acumulada oficial (somando 2023 e 2024) ficou perto de 9,5%.
Ainda assim, o Kindle segue como a opção mais barata entre marcas populares de e-reader no país, à frente de concorrentes como Kobo e PocketBook.
Se existe um caso que ilustra a crise de memória em tempo real, é o do MacBook Neo, notebook de entrada da Apple. Em junho deste ano, a empresa reajustou o preço do modelo de 256 GB no Brasil de R$ 7.299 para R$ 8.499 — alta de 16,4%.
A diferença em relação aos outros casos desta reportagem é que essa não foi uma troca de geração: foi um reajuste no meio do ciclo de vida do mesmo produto, sem nenhuma mudança de hardware, motivado única e exclusivamente pelo custo de componentes.
A Apple assumiu a causa em comunicado oficial. "Nunca vimos um aumento no preço de componentes tão grande e tão rápido. Até agora conseguimos proteger nossos clientes desses aumentos, mas chegamos a um ponto em que precisamos começar a reajustar os preços de vários produtos."
Segundo a empresa, o motivo foi a disparada no custo de memória RAM e armazenamento flash — os mesmos componentes no centro da crise batizada de RAMageddon.
Curiosamente, a Apple foi uma das últimas grandes fabricantes a repassar esse aumento ao consumidor: segundo o comunicado, o iPhone, a linha mais lucrativa da empresa, ficou de fora do reajuste — ao menos por enquanto.
Existe um vilão silencioso por trás de parte desses reajustes, e ele não mora em nenhuma fábrica de smartphones: mora dentro dos data centers que hoje treinam os modelos de inteligência artificial mais avançados do mundo.
A imprensa especializada batizou o fenômeno de RAMageddon — a escassez global de chips de memória (DRAM e NAND), provocada pela demanda voraz desses data centers, que passaram a consumir a capacidade de produção antes destinada a celulares, notebooks e consoles de uso comum. E, segundo especialistas ouvidos pelo g1, o efeito já chegou ao Brasil: "Os preços já subiram nas últimas semanas", disse Paulo Vizaco, executivo da fabricante de memórias Kingston, à reportagem, no fim de 2025.
A Samsung já projeta smartphones até 20% mais caros no Brasil somente por conta dessa crise em 2026, segundo a consultoria IDC.
Fabricantes de notebooks como Dell, Lenovo e HP já confirmaram à Bloomberg reajustes globais entre 15% e 20% neste ano — e a IDC estima que a crise deve se estender até 2027.
Um dado ilustra a escala do problema: um kit de memória RAM DDR5 de 32 GB, que custava cerca de US$ 80 em meados de 2025, passou de US$ 439 em junho de 2026, segundo dados citados pela Tom's Hardware — uma alta de mais de 400% em pouco mais de um ano.
O efeito também já aparece de forma indireta nos outros dados levantados nesta reportagem: parte da alta de 33% do Galaxy Ultra e de 13% do PS5 no Brasil coincide com o período em que a crise de memória já pressionava a cadeia global de componentes — o que sugere que o RAMageddon não é a única explicação para esses reajustes, mas certamente já é um dos fatores em jogo.
Segundo consultorias do setor, o problema deve se agravar antes de melhorar: a SK Hynix projetou à Reuters que a escassez de memória pode se estender até o fim de 2027, o que significa que o consumidor brasileiro provavelmente ainda vai sentir mais aumentos de preço nos próximos lançamentos de smartphones, notebooks e consoles.
Os valores de preço de lançamento usados nesta reportagem foram coletados exclusivamente em fontes oficiais e primárias: sites brasileiros das próprias fabricantes (apple.com/br, samsung.com/br e amazon.com.br) e comunicados oficiais da Sony sobre reajustes de preço no Brasil, divulgados pelo PlayStation Blog.
Para cada produto, comparou-se sempre a mesma configuração de armazenamento entre gerações consecutivas — 128 GB no caso do iPhone (2023-2024), 256 GB no caso do Galaxy Ultra e do MacBook Neo, e a versão básica no caso do Kindle —, exceto quando a própria fabricante mudou a configuração de entrada, como fez a Apple ao dobrar o armazenamento básico do iPhone de 128 GB para 256 GB em 2025, mantendo o preço nominal quase estável; essa mudança foi sinalizada separadamente na tabela, para não distorcer a leitura do reajuste real.
No caso do PS5, comparou-se o preço sugerido (MSRP) da versão com leitor de disco antes e depois do reajuste anunciado pela Sony em março de 2026, com entrada em vigor em abril do mesmo ano.
No caso do MacBook Neo, o comparativo não é entre gerações do produto, mas entre o preço original de lançamento e o reajuste anunciado pela própria Apple em junho de 2026, para o mesmo modelo, sem alteração de hardware.
Os dados de inflação oficial (IPCA) usados como parâmetro de comparação foram extraídos diretamente dos comunicados do IBGE, órgão responsável pelo índice no Brasil, referentes ao fechamento de cada ano-calendário. A comparação entre a alta de preço de cada produto e a inflação do período considera o ano em que o preço anterior esteve vigente — ou seja, o reajuste do Galaxy Ultra, anunciado em janeiro de 2025, foi comparado à inflação acumulada em 2024, ano em que o preço do modelo anterior esteve em vigor no mercado.
Esta reportagem não inclui preços de revenda, promoções pontuais de varejo ou variações posteriores de preço causadas por descontos comerciais — apenas o valor sugerido oficial de lançamento (ou de reajuste oficial) de cada produto, tal como anunciado pela própria fabricante ao mercado brasileiro.
Uma categoria adicional, assistentes de voz da linha Echo/Alexa, foi pesquisada, mas não incluída na tabela: a Amazon reposicionou a linha entre 2023 e 2025, substituindo o Echo Dot por um novo modelo de categoria superior (Echo Dot Max), o que impede uma comparação direta de preço entre "a mesma geração de produto" nesse caso específico.