Tecnologia

Aposta na saída de Maduro revela zona cinzenta dos mercados de previsão da Polymarket e Kalshi

Mercados de previsão ganham popularidade ao transformar política, economia e geopolítica em apostas, e levantam dúvidas sobre legalidade, ética e o uso de informações internas

Shayne Coplan, fundador da Polymarket; Luana Laura, fundadora da Kalshi: lataformas de mercados de previsão que estão no centro do debate sobre apostas em eventos políticos e o uso de informações privilegiadas

Shayne Coplan, fundador da Polymarket; Luana Laura, fundadora da Kalshi: lataformas de mercados de previsão que estão no centro do debate sobre apostas em eventos políticos e o uso de informações privilegiadas

André Lopes
André Lopes

Repórter

Publicado em 8 de janeiro de 2026 às 14h43.

Última atualização em 8 de janeiro de 2026 às 14h56.

Poderia ser só mais uma aposta entre milhares, feitas diariamente na Polymarket, uma plataforma de mercados de previsão, onde usuários colocam dinheiro em cenários sobre eventos do mundo real. Mas o momento e lance chamaram a atenção: horas antes da captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro, no primeiro fim de semana de janeiro. Junto disso, o registro feito oportunamente em uma conta recém-criada: foram US$ 30 mil apostando pela saída do ditador do poder. Dias depois, o pagamento ao apostador já ultrapassava US$ 400 mil.

Para entender por que isso gerou ruído, é preciso voltar um passo. Mercados de previsão, no qual opera a empresa fundada por Shayne Coplan, funcionam como uma mistura de bolsa de apostas e mercado financeiro: cada resultado possível tem um “preço”, que reflete a probabilidade atribuída pelos usuários. Se muita gente acredita que algo vai acontecer, o preço sobe. Se a percepção muda, o preço cai. Em tese, esse mecanismo transforma informações dispersas em um sinal coletivo sobre o futuro.

O problema começa quando alguém pode estar apostando não com base em análise, mas em informação privilegiada — dados relevantes que não são públicos, como planos de governo, decisões militares ou bastidores de grandes empresas. No mercado de ações, esse tipo de prática é crime clássico. Nos mercados de previsão, porém, a resposta é bem menos clara.

O caso de Maduro não é isolado. Em dezembro, outro usuário chamou atenção ao ganhar cerca de US$ 1 milhão ao acertar 22 dos 23 termos mais buscados do Google no ano. O desempenho quase perfeito levantou suspeitas semelhantes: seria apenas habilidade estatística ou acesso antecipado a dados internos?

A diferença fundamental em relação à Bolsa é regulatória. Nos Estados Unidos, os mercados de ações são fiscalizados pela SEC, a comissão de valores mobiliários, que tem décadas de jurisprudência e casos emblemáticos de insider trading. Já os mercados de previsão ficam sob a alçada da CFTC, o órgão que regula commodities, derivativos e contratos futuros nos EUA — um ambiente historicamente mais permissivo.

Foi só após a crise financeira de 2008 que a CFTC criou uma regra inspirada nas leis contra insider trading do mercado acionário. Mesmo assim, ela raramente foi aplicada. A dúvida central, é conceitual: o que exatamente é informação privilegiada quando o objeto da aposta é o mundo real?

Algumas plataformas tentam se antecipar ao problema. A Kalshi, fundada pela bilionária brasileira Luana Lara, concorrente da Polymarket e autorizada a operar nos EUA, proíbe explicitamente o uso de informação interna. Outras adotam uma postura mais ambígua. O Polymarket, que já foi banido do mercado americano em 2022 e tenta retornar, não deixa claro como diferencia conhecimento legítimo de abuso de informação. Há ainda mercados como o Manifold, que chegam a incentivar apostas baseadas em conhecimento interno, embora, nesse caso, sem dinheiro real envolvido.

Na prática, a fiscalização é limitada. Identificar quem apostou, de onde veio a informação e se houve quebra de dever de confidencialidade exige recursos que a CFTC dificilmente tem. E há um paradoxo embutido no modelo: mercados de previsão funcionam melhor quando pessoas “bem informadas” participam. Se quem sabe mais não aposta, os preços perdem qualidade.

É aí que a fronteira ética começa a borrar. Saber mais porque se estuda o tema é uma coisa. Saber mais porque se está dentro do governo, de uma empresa ou de uma operação sigilosa é outra. Mas, nos mercados de previsão, essa distinção ainda não está bem definida — nem na lei, nem na prática.

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