Poupança deve ter quarto mês de perda real

Exceção da renda fixa, Notas do Tesouro Nacional série B ganham com inflação alta

São Paulo – A alta da inflação neste fim de ano deve fazer com que a caderneta de poupança feche em dezembro com rendimento real negativo. Será o quarto mês seguido de rendimento abaixo da inflação para as cadernetas.

Isso vale tanto para as contas antigas, abertas antes de 4 de maio, que rendem 0,5% ao mês, quanto para as contas novas, que rendem 30% da taxa Selic, o equivalente a 0,4134% ao mês. A projeção do mercado para este mês, segundo o relatório Focus do Banco Central, é de um IPCA de 0,63%, bem acima, portanto, do ganho das cadernetas.

Mas o número pode ser até maior, já que o IPCA-15, uma espécie de prévia do referencial das metas de inflação, fechou dezembro com alta de 0,69% e 5,78% no ano. E a situação de perda real pode continuar em janeiro. Algumas casas trabalham com um IPCA de até 0,90% no mês que vem.

Um rendimento abaixo da inflação significa que o investidor não está conseguindo sequer manter o poder de compra do seu dinheiro. Isso porque os preços da economia estão subindo a um ritmo acima da remuneração do dinheiro.

Perda geral na renda fixa

A situação não se limita, porém, às cadernetas de poupança. Com a redução dos juros para 7,25%, poucas aplicações de renda fixa estão conseguindo superar a inflação deste fim de ano. O CDI, que serve de referência para essas aplicações, ficou abaixo da inflação em setembro e novembro, situação que deve se repetir neste mês, já que a projeção é de 0,55% para o referencial.

Descontando o imposto de renda, o ganho do investidor que aplicou em CDI cairia para 0,47% no caso da alíquota de 15% ou para 0,43% na alíquota de 22,5%, para aplicações até seis meses. Menos que a inflação do IPCA.


Ganhos com a inflação em alta

A exceção da renda fixa são as aplicações em papéis corrigidos pela inflação, como as Notas do Tesouro Nacional série B (NTN-Bs), papéis corrigidos pelo IPCA do IBGE mais juros e vendidos pelo site do Tesouro Direto.

Para eles, a alta da inflação é até benéfica, pois aumenta o ganho nominal do investidor. Um aplicador dono de uma NTN-B que renda 4% ao ano terá neste mês, se o IPCA fechar mesmo em 0,63%, um rendimento bruto de 0,96% no mês, ou o equivalente a uma taxa prefixada de 12,14% ao ano. Se o papel pagar menos, 3% ao ano além do IPCA, o ganho seria de 0,88% no mês, ou 11,06% ao ano.

Fundos renda fixa índices, que aplicam nesses papéis, também devem ser beneficiados em seu rendimento mensal, a menos que alguma alta nas projeções de juros reduza parte dos ganhos. Quando os juros sobem, os papéis antigos, com juros reais menores, perdem valor, e isso se reflete nas cotas dos fundos.

Oportunidade em NTN-B mais curta

Para Joaquim Kokudai, sócio da Effectus Investimentos, diante da perspectiva de inflação mais alta no curto prazo, pode ser melhor aplicar em uma NTN-B mais curta, até 2015, que ganhará com a alta do IPCA e não sofrerá tanto o impacto de alguma medida do Banco Central para controlar os preços no ano que vem.

Papéis mais longos, porém, têm o risco de uma eventual recuperação da economia acima do esperado em 2013, o que pode levar o BC a puxar os juros. “O mercado está muito confortável com essa projeção de juros estáveis ou até em queda para o ano que vem, algumas casas até esperam 6,25% de juros no fim de 2013, mas eu tenho um certo receio dessa projeção”, diz o gestor.


Melhora externa pode pressionar inflação

O risco é que fatores de curto prazo que hoje preocupam o governo e tumultuam o cenário externo, como o abismo fiscal nos Estados Unidos, sejam resolvidos no começo do próximo ano. “E aí temos os Estados Unidos melhorando, a China crescendo um pouco mais, a Europa sem grandes riscos de ruptura, e isso pode beneficiar um crescimento maior no Brasil”, afirma Kokudai. Nesse caso, se o crescimento brasileiro for para perto de 4% ao ano, a inflação pode escorregar para mais de 6% em 2013, beirando o limite de tolerância da meta, de 6,5%, e criando desconforto para o BC.

Mas, para quem acha que a atividade será ruim no ano que vem, Kokudai diz que há espaço para ganho também nas NTN-B longas. “Mas o risco é maior, a economia é que vai definir”, alerta.

Inflação em alta em janeiro

Outro gestor de um banco, que pediu para não ter seu nome citado, acha que a tendência é que também janeiro seja um mês bom para os fundos renda fixa índices e para as NTN-Bs. A inflação deve ser alta, acima do CDI. “E como no curto prazo não tem risco de o BC subir os juros, as taxas reais tendem a ficar estáveis ou até cair se os dados de atividade vierem mais fracos”, diz. Nesse caso, NTN-Bs com prazo até 2016 seriam bom negócio.

Para quem tem visão de mais longo prazo, esse gestor sugere papéis mais longos, com vencimento depois de 2040, que pagam hoje em torno de 4% ao ano. “Com o Pibinho, é capaz de essas taxas recuarem para 3,5% ao ano no curto prazo.”

A sugestão para quem vai aplicar em Tesouro Direto é preferir as NTN-B Principal, que pagam juros só no resgate. As NTN-B normais pagam juros semestrais, o que complica a reaplicação dos recursos.


Ganho projetado para 12 meses

Para os próximos 12 meses, a projeção do mercado futuro é de um CDI em torno de 7% ao ano. Descontando a inflação projetada pelo mercado, de 5,46% para o IPCA pelo relatório Focus, o ganho real bruto seria de 1,46% ao ano.

Mas, se for descontado o imposto de renda, o ganho líquido do investidor cairia para 5,95% no melhor dos casos (aplicações acima de 2 anos e alíquota de 15%) e 5,42% no pior (aplicação até seis meses e alíquota de 22,5%). Ou seja, para aplicações mais curtas, o juro real líquido mal será suficiente para empatar com a inflação de 5,46%. Para as mais longas, o juro real seria de 0,46% ao ano.

Perda real 

Variação das aplicações de renda fixa:

Aplicação Setembro Outubro Novembro Dezembro*
Poupança 1 0,5 0,5 0,5 0,5
Poupança 2 0,4273 0,4273 0,4134 0,4134
CDI 0,54 0,61 0,54 0,55
CDI líquido 0,46 0,52 0,46 0,47
IPCA 0,57 0,59 0,6 0,63

Fonte: Banco Central, relatório Focus. *Projeções.
Poupança 1: aplicaçãoes feitas até 3 de maio.
Poupança 2: aplicações feitas a partir de 4 de maio.

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