Não caia na cilada de vigiar seu filho com um cartão mesada

Funcionalidade de cartões pré-pagos voltados para crianças e adolescentes é desaconselhada por especialista em educação financeira

São Paulo – Cartões pré-pagos permitem que os pais possam monitorar pelo celular como o filho está utilizando o dinheiro da mesada, seja por meio de um aplicativo ou alerta via SMS. O argumento é que esse acompanhamento pode ajudar a educá-los em relação ao uso do dinheiro

Mas, para Cássia D´Aquino, consultora financeira especialista em educação infantil, essa vigilância é nociva. “É importante que os filhos possam fazer suas próprias escolhas e saibam que os pais confiam no seu comportamento”.

O lançamento mais recente desse tipo de produto financeiro foi o cartão mesada Turma da Mônica, da Brasil Pré-pagos, que utiliza os personagens de quadrinhos da Turma da Mônica, criados por Maurício de Souza.

Ele não é o único que permite essa vigilância no mercado. O cartão mesada Meo também permite gerenciar os gastos dos filhos por SMS, aplicativo e pelo computador, assim como o oferecido pela administradora eb4u. 

No entanto, ao invés de monitorar cada despesa feita pelo filho, os pais devem deixar claro por que a criança irá receber mesada, explica Cássia. “O objetivo é que ela aprenda a lidar com o dinheiro. Caso isso não fique claro, ela poderá olhar o benefício apenas como uma recompensa”.

Os pais também devem ressaltar os gastos que não serão tolerados, além de ensinar a criança a montar um orçamento, anotar gastos e ter uma poupança de curto prazo. 

Paulo Renato Della Volpe, presidente da Brasil Pré-pagos, argumenta que a ideia do cartão não é proibir os gastos, mas permitir uma “liberdade vigiada”. “É uma maneira de cobrar responsabilidade e incentivar a interação entre pais e os filhos”, diz o executivo. 

O executivo ressalta que a empresa está criando outra versão do produto lançado na semana passada que vai impedir que os pais acompanhem os gastos. “Sabemos que a autonomia também faz parte da educação financeira“. 

Com mais liberdade, eventuais exageros que a criança possa realizar devem ser encarados como uma lição, diz Cássia. “Um menino de nove anos que gastar toda a mesada com figurinhas antes da data estipulada deve aprender a esperar para receber mais dinheiro”. Sobre o risco de gastos inadequados, a educadora diz que manter o diálogo aberto com o filho é a melhor saída. 

Mais desvantagens do que vantagens

Mesmo que o cartão mesada não permita o monitoramento dos gastos pelos pais, o meio de pagamento tem mais pontos negativos do que positivos, de acordo com Cássia D´Aquino.

Diferentemente de outros cartões mesada com foco em adolescentes, o cartão da Turma da Mônica usa personagens infantis porque tem como público alvo crianças de 9 a 13 anos, diz  Volpe. Mas, para Cássia, crianças com essa idade ainda não estão preparadas para gerenciar as despesas em um cartão. “Nessa fase da vida, é preferível que elas manuseiem cédulas”. 

O cartão mesada da Brasil Pré-pagos, assim como outros disponíveis no mercado, como o Young Card Bradesco Buxx, permite que o usuário realize compras pela internet, tanto no Brasil como em sites do exterior, o que também é visto como um ponto negativo por Cássia.

Compras internacionais têm custos extras, como cobrança de Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) e taxa de conversão da moeda estrangeira. Essa funcionalidade, assim como o acesso a qualquer site de comércio eletrônico, pode incentivar o descontrole dos gastos, diz a educadora financeira. Volpe diz que, como o cartão é pré-pago, o risco de compras em excesso é limitado. “Os pais administram os valores que disponibilizam aos filhos”. 

Custos relacionados aos cartões mesadas, tanto para confecção do plástico como tarifas para recarga e saque, também pesam contra a escolha pelo meio de pagamento, diz a educadora financeira. “Os pais devem se perguntar se a comodidade compensa esses custos adicionais”.

Apesar de diversos estabelecimentos aceitarem a bandeira associada aos cartões (Visa e Mastercard), Cássia aponta que cantinas de escola, por exemplo, podem não oferecer a forma de pagamento. “Nesse caso, a criança terá de sacar o dinheiro e pagar uma taxa por essa operação. É um custo a mais que poderia ser evitado”.

O presidente da Brasil Pré-Pagos, argumenta que a cobrança de uma taxa de 7 reais para cada saque é justamente para desestimular a operação. “Dessa forma, é possível manter o controle das transações feitas com o cartão”. Volpe também cita a segurança e praticidade do meio de pagamento como um atrativo que pode compensar os custos. 

Já a possibilidade de dividir gastos por grupos, como saúde e educação, nos aplicativos vinculados ao meio de pagamento, é vista como uma vantagem pela educadora financeira. “Mas essa funcionalidade é oferecida por diversos aplicativos gratuitos também”. 

No cartão mesada Turma da Mônica, a criança pode transferir parte do valor recebido no cartão para uma poupança, o que também é considerado um avanço por Cássia. O valor transferido pelo usuário para essa funcionalidade fica separado do que pode ser gasto. Apesar disso, a criança consegue resgatar o valor a qualquer momento.

Apoie a Exame, por favor desabilite seu Adblock.