Descontados imposto e inflação, Tesouro e CDBs já rendem perto de zero

Conta vale para Tesouro Selic e CDBs que pagam 100% do CDI; para prazos inferiores a um ano, retorno pode ser negativo

São Paulo – Com a redução da taxa Selic, que serve de referência para os investimentos de renda fixa do país, a poupança já passou a perder para a inflação faz tempo, o que significa que o poupador está perdendo dinheiro com ela. Na prática, o dinheiro dele parado ali perde poder de compra mais rápido do que o quanto rende.

Com o mais recente corte na taxa básica de juros – a Selic passou de 4,5% ao ano para 4,25% no começo de fevereiro – mesmo outras aplicações que rendem um pouco mais do que a poupança já começam, também, a perder para a inflação ou a ficar pouquíssimos decimais acima dela.

É o caso do Tesouro Selic, um dos títulos públicos mais vendidos do Tesouro Direto, que remunera exatamente a Selic (o Tesouro possui outros tipos de títulos, com vencimentos mais longos, que rendem mais). É também o caso de CDBs que pagam até 100% do CDI, taxa de referência dos bancos que anda colada à Selic.

Ambos renderão, atualmente, os 4,25% da taxa Selic em um ano. A inflação projetada pelo mercado para 2020 é de 3,25%, o que daria uma folga ainda de 1% de lucro entre o avanço dos preços e a rentabilidade do investimento.

O problema é que tanto títulos públicos quanto CDBs pagam ainda imposto de renda, o que tira de 15% a 22,5% do rendimento, a depender do prazo. Isso faz com que a rentabilidade final deles em um ano, já líquida dos impostos, varie de 3,62% no melhor dos cenários (caso do CDB com mais de dois anos e desconto de 15% de IR), a 3,15%, no pior (caso de um ano de Tesouro Selic com 20% de IR). Veja a tabela completa mais abaixo.

Ou seja, na melhor hipótese, o lucro do investidor será de 0,37% em um ano, já descontados impostos e a inflação. Na pior, ele perde 0,06%. Para investimentos inferiores a 6 meses, que pagam os maiores impostos, a perda é ainda maior, de 0,08% no caso do Tesouro Selic. As simulações foram feitas pelo consultor financeiro Humberto Veiga a pedido de EXAME.

As contas também consideraram a taxa de custódia de 0,25% que os títulos públicos devem pagar à B3 anualmente, e que acabam os deixando para trás dos CDBs em todas as simulações – com juros a 4,25% ao ano, uma taxa de 0,25% já reduz a remuneração a 4% de largada.

O imposto de renda sobre as aplicações financeiras é progressivo, aplicado apenas sobre o rendimento. Quanto maior o prazo que o investidor deixa o dinheiro aplicado, menor o imposto. A tabela é igual para títulos públicos e CDBs, conforme abaixo:

  • Até 180 dias: 22,5%
  • De 181 até 360 dias: 20%
  • De 361 até 720 dias: 17,5%
  • Acima de 720 dias: 15%

Veja a seguir o rendimento do Tesouro Selic e de um CDB que remunere 100% do CDI para diferentes prazos, considerando o desconto de IR e taxas:

Tempo de aplicação: 180 dias
IR: 22,5%
Inflação do período*: 1,59%

Rendimento após IR Rendimento após inflação
Tesouro Selic 1,51% -0,08%
CDB 1,61% 0,02%

Tempo de aplicação: 360 dias
IR: 20%
Inflação do período*: 3,1%

Rendimento após IR Rendimento após inflação
Tesouro Selic 3,15% -0,06%
CDB 3,35% 0,15%

Tempo de investimento: 365 dias
IR: 17,5%
Inflação do período*: 3,25%

Rendimento após IR Rendimento após inflação
Tesouro Selic 3,29% 0,04%
CDB 3,51% 0,26%

Tempo de investimento: 720 dias
IR: 17,5%
Inflação do período*: 6,51%

Rendimento após IR (em 720 dias) Rendimento final acima da inflação (em 720 dias)
Tesouro Selic 6,62% 0,11%
CDB 7,06% 0,55%

Prazo de investimento: 730 dias
IR: 15%
Inflação do período*: 6,61%

Rendimento líquido (em 730 dias) Rendimento após inflação (em 730 dias) Rendimento após IR (ao ano) Rendimento após inflação (ao ano)
Tesouro Selic 6,98% 0,38% 3,62% 0,37%
CDB 7,38% 0,77% 3,40% 0,15%

 

* Para as projeções de inflação, foi considerado IPCA de 3,25% ao ano

 

Para onde fugir?

O ideal para que a carteira não fique congelada no tempo conforme os preços sobem é procurar títulos com prazos mais longos, que costumam dar remunerações maiores.

Entretanto, tanto o Tesouro Selic quanto os CDBs com liquidez diária, que podem ser resgatados a qualquer momento, devem estar em uma parte da carteira. Eles são as principais indicações de “caixa”, quer dizer, para deixar aquela parte das economias que precisa estar à mão sempre para emergências.

“O investidor vai ter que se acostumar com o fato de que uma parte dos investimentos dele agora, com sorte, vai cobrir a inflação”, disse Veiga. “Se ele precisa de liquidez, isso já é uma vantagem, já é mais do que deixar o dinheiro no colchão”.

Uma alternativa para aplicar o dinheiro dessa reserva de emergência, de acordo com Veiga, são as LCAs e LCIs, outro tipo de título de renda fixa igualmente seguro e que é isento de imposto de renda. No geral, elas costumam também ter prazos definidos de validade, o que deixa o dinheiro fora do alcance até lá, mas já há no mercado algumas opções com liquidez diária.

Nas contas de Veiga, para que as LCAs e LCIs ganhem da inflação – ou seja, para que rendam ao menos os 3,25% projetados para este ano – elas precisam oferecer uma remunerção mínima de 76,5% do CDI. “Há opções oferecendo de 80% a 90% que têm liquidez diária após 90 dias de aplicação; o investidor precisa ficar atento a essas informações”, disse Veiga.

Para os investimentos de médio e longo prazo, o próprio Tesouro Direto tem outros títulos com formatos diferentes de remuneração, caso do Prefixado e do IPCA+, que oferecem juros em geral maiores do que o que o Tesouro Selic remunera hoje. O problema é que eles têm datas de vencimento definida, que variam de 2022 até 2050, e sacar antes pode acarretar em prejuízo. Isso não acontece com o Tesouro Selic – ele pode ser resgatado sempre a qualquer momento, sem perdas.

Para os mais arrojados, a opção é partir para opções de maior risco, como ações ou fundos multimercados.

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