Com a derrocada das ações da Vale, analistas recomendam cautela

Papéis da mineradora despencaram nesta segunda-feira após rompimento da Barragem I da Mina do Córrego do Feijão

São Paulo — O rompimento da Barragem I da Mina do Córrego do Feijão, da Vale, cobriu a cidade mineira Brumadinho de lama e afundou as ações da companhia na Bolsa brasileira. Com o tombo dos papéis, e diante da perda irreparável das vítimas da tragédia, ainda vale a pena manter a mineradora em sua carteira de investimentos?

Analistas ouvidos pelo site EXAME orientam os investidores a não tomar decisões movidos pela emoção. “Neste primeiro momento, a minha avaliação é que os detentores de ações da Vale não deveriam vender os papéis”, disse William Castro Alves, estrategista-chefe da Avenue Securities.

“Nós sabemos que o impacto ambiental e a dor das famílias das vítimas são incalculáveis. É horrível o que aconteceu e não podemos minimizar a tragédia de forma alguma. Mas a empresa está perdendo quase 60 bilhões de reais em valor de mercado hoje. Me parece bastante exagerada essa baixa”, completou o estrategista.

Segundo Alves, o mercado deve ser, como sempre, pragmático. “O curto prazo ainda é incerto. Vamos saber somente nos próximos dias o tamanho da conta que a Vale deverá pagar pelo rompimento da barragem, com indenizações, limpeza e consertos. É algo maior do que o rompimento da barragem em Mariana (MG), mas a empresa tem condições de arcar com esse custo.”

O estrategista-chefe da Avenue ressaltou que a planta de Brumadinho representa muito pouco para as operações totais da Vale e que o impacto operacional da tragédia para a companhia deve ser pequeno. Por esse motivo, Alves acredita que a empresa ainda mantém bons fundamentos para a sua operação no futuro, mas em um cenário obviamente mais difícil.

“O governo certamente vai ficar mais criterioso em relação à concessão de licenças ambientais para a Vale daqui para frente. A Vale tem um minério de maior qualidade, o que é reconhecido internacionalmente, e ela poderá jogar isso no preço”, afirmou o estrategista.

Para Glauco Legat, analista-chefe da Necton, o investidor que tem ações da Vale não deve vender os papéis neste momento. Ele também enfatizou que a unidade de Brumadinho corresponde apenas a 1,5% da produção total de minério da Vale, ou seja, o efeito efetivo de Feijão será uma redução de cerca de 6,3 milhões de toneladas ao ano.

“A mineradora tinha um guidance de produção no montante de 400 milhões de toneladas em 2019, embora sua capacidade instalada esteja próxima de 450 milhões de toneladas. Portanto, a companhia irá conseguir realocar internamente a produção de Feijão para outras plantas”, disse Legat.
O analista afirmou ainda que o sistema logístico que interliga a Ferrovia Espírito Santo – Minas Gerais aparentemente não foi interrompido. “Brumadinho fica ao Sul da Estrada, assim todo o restante de escoamento da produção segue intacto”, afirmou Legat.

Futuro incerto

Na contramão das análises mais pragmáticas, Pedro Paulo Silveira, economista-chefe da Nova Futura, acredita que não faz sentido o investidor manter uma ação da Vale em sua carteira se ele não tem total visibilidade do risco operacional da empresa.

“Temos que olhar para uma questão de longo prazo, que nos remete ao potencial de novos colapsos nas outras barragens da Vale no Sudeste. Ainda que os problemas de curto prazo sejam resolvidos com um soluço de 5% a 10% nos preços das ações, os de longo prazo não são facilmente ‘precificáveis’”, disse.

Segundo ele, “tudo indica que o time responsável pela gestão desse enorme passivo da empresa não avaliou corretamente os riscos gerados pela incompetência de seus engenheiros na construção das barragens. Novos acidentes não podem ser descartados por esse histórico patético de dois desastres em dois anos.”

O economista ressaltou que a Vale perdeu a credibilidade diante dos investidores. “Não parece razoável perguntar ao atual time de gestão da empresa sobre as probabilidades de novas ocorrências em um horizonte de dez anos. Se o atual time de gestão não tem essa competência, quem teria?”, disse.

Silveira acredita que a reação das agências de rating, avisando que a empresa está sob reavaliação, é mais do que justa. A partir de agora, a empresa precisa mostrar uma avaliação técnica crível, indicando quais são os riscos de novos eventos e quais são os planos para mitigá-los. Os custos desse ajuste, com certeza, serão bastante elevados, destacou o economista.

“É igual a um título público. Se a gente não sabe se um governo será capaz de manter a boa relação da dívida/PIB, a gente não compra seus papéis. Com uma ação, é a mesma coisa. A gente tem que ter um futuro mais previsível, cientes de todos os riscos com mais precisão”, completou.

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