Donald Trump enfrenta em novembro seu maior teste político

O presidente americano Donald Trump tem à frente o desafio de convencer seus apoiadores a votar nas eleições legislativas

Dois anos depois da eleição do presidente Donald Trump, a política americana continua a girar em torno de dois grupos muito bem definidos: os que admiram o político republicano e os que o detestam. A força de cada um desses dois lados será colocada à prova no dia 6 de novembro, quando os americanos voltarão às urnas para renovar todos os 435 assentos da Câmara, 35 das 100 vagas do Senado e 39 dos 50 governadores estaduais.

A depender do resultado, o presidente Trump poderá sair fortalecido ou enfraquecido — e isso será fundamental para definir os próximos dois anos que lhe restam de mandato. Hoje, o Partido Republicano, de Trump, está numa posição confortável. Detém a maioria das cadeiras na Câmara e no Senado e ainda controla o governo de 33 dos 50 estados americanos. Mas a possibilidade de virar o jogo em favor do Partido Democrata tem animado a oposição. Um levantamento do Centro de Pesquisas Pew, com sede em Washington, mostra que, em mais de duas décadas, o eleitorado nunca esteve tão entusiasmado com uma votação para o Congresso.

O entusiasmo faz diferença porque as eleições de meio de mandato costumam atrair bem menos eleitores do que o pleito presidencial. Em 2014, só 36% dos americanos aptos a votar foram às urnas. Na eleição para presidente, em 2016, foram 60%. “Esta eleição é atípica porque Trump é atípico. Ele conseguiu energizar os eleitores democratas, que querem castigá-lo e colocar um freio em suas políticas no Congresso, e também os republicanos, uma vez que ele personalizou a disputa”, diz o estrategista democrata Robert Shrum, especialista em eleições da Universidade do Sul da Califórnia.

O que se vê é que Trump é o catalisador das eleições legislativas e está no centro da disputa eleitoral como poucos presidentes estiveram antes dele. Ao longo do último ano, sua estratégia para garantir a manutenção da maioria republicana foi apelar ao que ele faz de melhor: falar sobre si mesmo. “Votem por mim e por tornar a América grande novamente”, disse Trump num de seus comícios de campanha mais recentes. Mas o sucesso da estratégia está longe de estar garantido, como o próprio presidente admite. “Se as pessoas não saírem para votar, elas mesmas serão as culpadas”, disse ele numa entrevista a um canal de TV americano em outubro.

Nas últimas semanas, Trump tem mostrado preocupação com uma eventual derrota dos republicanos. As pesquisas eleitorais mais recentes mostram uma preferência dos eleitores pelo Partido Democrata, que tem 48,8% das intenções de voto ante 41,1% do Partido Republicano na eleição para a Câmara.  No Senado, os republicanos são favoritos e devem manter a maioria, mas a vantagem é pequena. Atualmente, são 51 senadores republicanos contra 47 democratas.

Por via de regra, o perfil dos eleitores republicanos indica uma participação maior no dia da votação. Trata-se majoritariamente da parcela da população mais velha, branca e com mais anos de educação formal — justamente a que costuma comparecer com mais frequência às eleições. Já os democratas contam com o apoio de minorias e de classes sociais menos favorecidas — como descendentes de imigrantes latino-americanos —, que têm um histórico de baixo comparecimento às urnas. Como o voto é facultativo nos Estados Unidos, a capacidade de levar os cidadãos aos postos de votação é crucial.

A má notícia para a Casa Branca, contudo, é que essa tendência pode estar mudando. “Os democratas redescobriram a importância das eleições legislativas depois de dois anos de Trump nos quais sentiram o impacto de suas políticas em suas comunidades”, diz a cientista política Melissa Michelson, especialista em comportamento eleitoral de minorias e professora da Menlo College, universidade privada na Califórnia. Não à toa, o efeito Trump levou dois terços (67%) dos democratas a se declarar mais entusiasmados do que o normal nas pesquisas, comparados com 59% dos eleitores republicanos. O controle do Congresso é importante para um nível recorde de votantes: 72%.

Se a história pode servir de guia, o partido opositor costuma registrar níveis de abstenção menores, o que favorece os democratas. “Em eleições legislativas, o voto contra o partido no poder tem mais força do que o voto que prestigia a legenda, por instituir políticas que agradam ao eleitor. Por isso, quanto mais Trump conseguir convencer que suas políticas correm perigo, mais chances terá de influenciar o ciclo eleitoral”, diz o cientista político americano Eric Ostermeier, da Universidade de Minnesota.

A história ensina ainda que raramente o partido da situação ganha terreno. Em 35 das 38 eleições legislativas desde o fim da Guerra Civil, a legenda na Presidência perdeu assentos na Câmara — em média, 31 cadeiras —, e a tendência é a mesma para o Senado. Considerando-se que os republicanos detêm apenas 235 dos 435 assentos na Casa e que precisam de pelo menos 218 para manter a maioria, eles só poderiam perder 17 lugares. Ou seja, precisariam pontuar acima da média. Além disso, o elevado número de assentos vagos na Câmara conta a favor dos democratas. Neste ano, 44 republicanos se aposentarão e, tradicionalmente, essas cadeiras são mais difíceis de ser preenchidas pelo partido no governo.

A FORÇA DO ELEITORADO FEMINIMO

A votação de 2018 tem outras particularidades que a tornam ainda mais imprevisível. O boom da economia é uma delas. Os americanos tendem a não votar contra o partido no poder quando a economia está fortalecida — e é com isso que os republicanos contam. A taxa de desemprego, de 3,7%, é a mais baixa dos últimos 50 anos. O crescimento econômico deverá ficar em torno de 3% neste ano, e a inflação é de 2,3%. Mas nem só com a economia se preocupam os americanos.

A recente nomeação do juiz Brett Kavanaugh para a Suprema Corte, acusado de má conduta sexual, energizou o movimento nacional contra o abuso sexual e gerou protestos. A escolha de Kavanaugh é repudiada por mulheres de todo o espectro político, bem como o próprio presidente: seis em cada dez mulheres rejeitam Trump. “O cenário parece positivo para os democratas, mas também parecia bom para Hillary Clinton quando ela perdeu em 2016.

Um dos elementos que fogem às análises são movimentos de mobilização em redes sociais, como o que pode estar acontecendo com as mulheres”, diz o cientista político Charlie Stevenson, da Universidade Johns Hopkins. Democratas contam com a vantagem nas pesquisas para conquistar também governos estaduais dominados por republicanos, como Flórida, Geórgia, Illinois, Iowa, Maine, Michigan, e possivelmente até estados conservadores, como Kansas, Oklahoma e Dakota do Sul.

Caravana de imigrantes com destino aos Estados Unidos: as leis de imigração podem ficar mais restritas | Pedro Pardo/AFP Photo

Os candidatos que mais entusiasmam  os democratas são jovens, progressistas e representantes da diversidade racial. Entre eles estão a jovem nova-iorquina Alexandria Ocasio-Cortez, de 29 anos, que concorre a uma das vagas para a Câmara por um dos distritos de Nova York, e Stacey Abrams, que tem chance de se tornar a primeira governadora negra do país, na Geórgia.

Ao que tudo indica, este é o ano das mulheres. Um recorde de 257 candidatas estão concorrendo ao Senado e à Câmara. Outras delas também merecem destaque: no 13o distrito de Michigan, que é tradicionalmente republicano, a democrata Rashida Tlaib — mulher e muçulmana — lidera as pesquisas de intenção de voto. Já o estado de Minnesota pode eleger a primeira mulher muçulmana do Congresso, Ilhan Omar. Nascida na Somália, ela chegou aos Estados Unidos como refugiada. Arizona e Tennessee podem eleger também mulheres para o Senado.

OS PRÓXIMOS DOIS ANOS

Apesar da tendência de Trump de usar decretos do Poder Executivo para governar — algo que também era comum nos governos de Barack Obama, George W. Bush e Bill Clinton —, a formação do novo Congresso será decisiva para o rumo político dos próximos dois anos e influenciará as eleições de 2020. Uma derrota republicana levaria os membros do Congresso a reavaliar o apoio a Trump, à sua agenda e à possibilidade de reeleição do presidente em 2020. Já os democratas testam possíveis estratégias eleitorais para as eleições presidenciais. O partido terá de decidir entre o apoio a candidatos moderados e a promoção daqueles tidos como mais radicais.

No curto prazo, caso os republicanos mantenham a maioria nas duas Casas, o partido do presidente tende a concentrar os esforços para aprovar leis de imigração mais restritivas e buscar financiamento para o projeto de construir um muro na fronteira com o México. Se os democratas retomarem o controle da Câmara, é provável que usem o poder dos comitês para ampliar as investigações sobre a ingerência russa na eleição de Trump e sobre casos de corrupção dentro do gabinete, numa tentativa de inviabilizar sua reeleição. Democratas também tentarão desfazer algumas das políticas do republicano sobre imigração, saúde e meio ambiente.

A candidata à Câmara Alexandria Ocasio-Cortez: um novo perfil de políticos democratas | William B. Plowman/NBC/Getty Images

Apesar de conseguirem barrar itens da agenda presidencial, os democratas terão dificuldade em reverter as leis já aprovadas nos primeiros dois anos do mandato. Caso vençam também no Senado, o impacto será ainda maior. “Isso afetaria as nomeações de Trump para a Suprema Corte e para postos no Executivo, como o substituto do Secretário de Defesa, Jim Mattis (a quem Trump chamou de ‘um tipo de democrata’ e que pode estar de saída), ou o representante para as Nações Unidas após a renúncia de Nikki Haley”, diz Stevenson, da Johns Hopkins.

O cenário mais provável, contudo, é um Congresso dividido e marcado por impasses políticos, que não deve conseguir aprovar legislações significativas, com exceção do orçamento e da ratificação do novo tratado de livre-comércio com o México e o Canadá, que substituirá o antigo Nafta.

Outra questão que permeia o novo Congresso é a possibilidade de impeachment de Trump. Mas, sem maioria esmagadora em ambas as Casas ou sem descobertas dramáticas nas investigações, é improvável que isso aconteça. “O partidarismo rege tudo atualmente, e há pouco espaço para persuasão. Até mesmo escândalos envolvendo o presidente corroboram esse cenário: seus apoiadores os classificam de ataques vazios, enquanto os opositores reforçam sua hostilidade”, diz o cientista político Christopher Larimer, da Universidade do Norte de Iowa.

Pelo que se vê, o efeito Trump continuará provocando divisões na política americana e ditará o tom das disputas pelos próximos dois anos, tanto num Congresso republicano quanto num democrata. 

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