A volta das grandes emoções na Bolsa

A Bovespa caiu 7% na primeira semana de maio. Subiu 2,5% no início da segunda. Com a crise na Europa, o sobe e desce está de volta aos mercados - e a bolsa brasileira pode ser uma das mais afetadas

Há exatos dois anos, quando o Ibovespa chegou a 73 516 pontos, a bolsa brasileira bateu seu recorde histórico. Parecia que a marca seria superada no começo deste ano, em meio a uma onda de otimismo com a economia mundial e, em especial, com a recuperação americana. Crise na Grécia, pânico nos mercados e alguns coquetéis molotov depois, é difícil encontrar investidores que ainda esperem a quebra do recorde — ao menos no curto prazo.

Apesar de a crise europeia nada ter a ver com o Brasil, seus prováveis reflexos sobre a economia e o mercado financeiro local podem fazer com que a Bovespa seja bastante prejudicada nos próximos meses, segundo alguns dos principais gestores e analistas do mercado. Mesmo antes de os problemas na zona do euro se tornarem explosivos, a ordem entre esses profissionais era ser conservador — e a estratégia ganhou força após o sobe e desce das maiores bolsas do mundo no início de maio. Alguns exemplos do que eles estão fazendo.

• O banco BTG Pactual diminuiu 75% e a gestora Quest, do ex-ministro Luiz Carlos Mendonça de Barros, zerou os investimentos em ações de seus fundos multimercados. A Mauá Sekular, do ex-diretor do Banco Central Luiz Fernando Figueiredo, fez operações no mercado futuro para se proteger da queda da bolsa.  

• A gestora JGP, uma das mais tradicionais do país, que tem entre seus fundadores o ex-sócio do banco Pactual André Jakurski, aumentou as aplicações em títulos conservadores para o maior patamar desde que a empresa foi fundada, em 1998. “Nunca arriscamos tão pouco”, diz Márcio Correia, sócio da JGP.

• A equipe de análise do Deutsche Bank divulgou um relatório em que sugere cautela com a BM&F Bovespa no curto prazo. O JP Morgan foi pela mesma linha — e hoje prefere as bolsas do México e da África do Sul à brasileira.

• O banco Santander e a gestora americana Templeton passaram a comprar mais ações de empresas de energia elétrica — que são consideradas defensivas, porque costumam pagar dividendos elevados e porque suas receitas são protegidas do aumento da inflação em razão do reajuste das tarifas.


É bom que se diga que nenhum dos gestores citados preveem um Armagedon da bolsa brasileira. Segue viva a percepção de que, no longo prazo, o Brasil é um dos únicos países a combinar boas perspectivas de crescimento com uma política econômica sólida e regras estáveis para aplicações financeiras — um ambiente bastante favorável para as ações.

O problema é que, como numa repetição do filme que se viu após a quebra do banco Lehman Brothers, em setembro de 2008, os riscos de curto prazo se tornaram grandes demais. O nó mundial, agora, é a Europa. Além de ameaçar o sistema financeiro da região, os graves problemas fiscais de países como Grécia, Portugal e Espanha jogaram luz sobre as fragilidades da União Europeia e podem, segundo dezenas de observadores, colocar em xeque o futuro do euro. “Para sobreviver, os países do euro terão de pensar de forma diferente e fazer reformas profundas. Não podemos conviver com tantas disparidades entre as nações. Isso se mostrou insustentável”, disse a EXAME Martin Wolf, colunista do jornal The Financial Times.

Fora da Europa, a questão- chave é como a confusão no Velho Continente vai afetar a economia global. “É preciso olhar para os Estados Unidos”, diz Mendonça de Barros. Por enquanto, a recuperação americana é vista como positiva. “O país está bem, os bancos não estão contaminados, os números de emprego surpreendem positivamente. Se isso mudar, haverá consequências para o mundo e, claro, para o Brasil”, diz o ex-ministro. Esse era o temor que estava sendo antecipado pelos investidores no começo de maio — e que fez as principais bolsas do mundo desabar na quinta-feira 6.

O pacote de socorro de quase 1 trilhão de dólares aos países europeus, no dia 10, acalmou os ânimos, mas é possível que seus efeitos sejam de curto prazo. Como escreveu Mohamed El-Erian, presidente da gestora Pimco, uma das maiores do mundo, na imprensa internacional: “Muitas questões ainda precisam ser respondidas, seja em termos operacionais (como essa intervenção será aprovada, financiada e executada), conceituais (o que isso significa para a integridade institucional) ou de efetividade (essa liquidez será usada para apoiar a consolidação fiscal ou vai adiá-la?)”. Para quem acompanha as bolsas, isso significa que é bom esperar mais altos e baixos.


Além das incertezas mundiais, fatores de risco próprios do Brasil têm colocado em dúvida o fôlego da BM&F Bovespa para os próximos meses. Um deles é a avalanche de ofertas de ações previstas para o ano — espera-se que os lançamentos somem cerca de 50 bilhões de dólares, puxados pelas operações gigantescas do Banco do Brasil e, principalmente, da Petrobras. “Isso cria concorrência na bolsa, porque os investidores dividem seus recursos entre os papéis novos e os antigos”, diz José Zitelmann, gestor de renda variável do BTG Pactual. “O dinheiro fica trocando de mão e a bolsa não sobe.”

Alegando condições “desfavoráveis”, o banco Cruzeiro do Sul interrompeu, no fim de abril, seu processo de oferta de ações. Também têm sido vistos como problemas a perspectiva de aumento dos juros, o fato de a bolsa brasileira ter sido uma das que mais valorizaram recentemente — o que, em tese, deixa menos espaço para novas altas — e até o nervosismo comum em períodos pré-eleitorais. Isoladamente, esses fatores não têm força para prejudicar o mercado, mas, no conjunto, tornam as aplicações aqui mais perigosas, na visão de um número crescente de investidores.

Sinal de bom senso, nenhum gestor ou analista faz previsões de quando a desconfiança com a BM&F Bovespa vai acabar. Mas as melhores cabeças sugerem não ser necessário esperar o fim dos problemas lá fora para que os bons ventos soprem por aqui. “Mesmo com todos os fatos ruins no exterior, se o Ibovespa cair mais 20%, fica difícil ficar de fora”, diz Márcio Correia, sócio da JGP.

Mark Mobius, um dos maiores investidores estrangeiros da bolsa brasileira e diretor da gestora americana Franklin Templeton, diz que continua mantendo o Brasil como uma de suas grandes apostas. “Há certo pânico entre os investidores, mas boa parte disso não é racional. Acredito que a racionalidade vai voltar aos poucos e, por isso, esses momentos de baixa podem gerar oportunidades de compra”, diz ele.

Por enquanto, pouca gente concorda com Mobius — só na primeira semana de maio, estrangeiros e grandes investidores institucionais brasileiros, como fundos de investimento e de pensão, tiraram 1,5 bilhão de reais da bolsa. Se ele estiver certo, porém, é possível que haja uma nova onda de recursos ingressando no país. Confusões de curto prazo à parte, poucos duvidam que o Brasil será uma das grandes economias do mundo nas próximas décadas — e com uma bolsa de valores cada vez mais importante. Para quem tem estômago forte, o cenário lá na frente continua muito positivo.

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