Vida dura para Carlos Slim no México, com mais concorrência?

O presidente do México decidiu estimular a competição num país acostumado com monopólios. Sobrou para o bilionário mexicano Carlos Slim, segundo homem mais rico do mundo

São Paulo - Em seu discurso de posse, em dezembro de 2012, o presidente eleito do México, Enrique Peña Nieto, mandou um recado ao bilionário mexicano Carlos Slim, dono de um império de telecomunicações e com fortuna estimada em 72 bilhões de dólares, o que o caracteriza como segundo homem mais rico do mundo: “É preciso gerar mais concorrência para estimular o crescimento e melhorar a vida dos cidadãos”.

Nos meses seguintes, Peña Nieto, do Partido Revolucionário Institucional, conseguiu aprovar uma série de reformas estruturais. Embora falte regulamentação em alguns casos, o Congresso já endossou as novas regras dos setores de energia, telecomunicações e educação.

No longo prazo, a nova regulação atrai investimentos e aumenta a oferta de serviços — que tendem a ser melhores e mais baratos em razão da concorrência. “As reformas estruturais ampliarão o crescimento potencial do país de 3% para 4% até 2020”, diz André Loes, economista-chefe para a América Latina do HSBC. Elas também golpeiam antigos monopólios — como o de Slim no setor de telefonia.

Com a nova regulamentação, que substitui as regras fixadas na época das privatizações, nos anos 90, nenhuma empresa de telecomunicação poderá ter mais de 50% do mercado. Hoje, a América Móvil, de Slim, tem 70% do mercado de telefonia móvel e 80% do de telefonia fixa.

Por ora, o bilionário não foi obrigado a fatiar suas empresas, mas desde já terá de abrir espaço para os concorrentes. Em março, o governo determinou que a tarifa de interconexão (taxa que as operadoras precisam pagar umas às outras pelo uso de suas redes) terá de ser zero.

As mudanças deverão beneficiar o consumidor. Com a entrada de novos concorrentes, o preço dos serviços deverá cair — em média, os serviços de telecomunicações comprometem 4,2% da renda dos mexicanos, ante 2,7%, em média, nos paí­ses ricos.

“As reformas eram necessárias. As concorrentes não conseguiam competir em tarifas e serviços, e várias delas, até agora, estavam com problemas financeiros, sem capacidade de investir”, diz Jorge Negrete, diretor da consultoria mexicana MediaTelecom.

Carlos Slim Domit, filho do bilionário e conselheiro da América Mó­vil, diz que a reforma governamental, na verdade, é uma expropriação disfarçada. As empresas do grupo já entraram na Justiça para contestar as novas regras.

Conflito de interesses

O golpe mais recente contra o império de Slim, no entanto, veio da operadora americana de telefonia AT&T, que comprou em maio a empresa de TV por satélite DirecTV. Para evitar conflito de interesses nos mercados em que a DirecTV atua, como Brasil e Colômbia, a AT&T decidiu vender sua participação de 8,4% na América Móvil — o que provocou queda de 4% no valor das ações da empresa mexicana.

Um dia após o anúncio, o presidente da AT&T, Randall Stephenson, agradeceu pela parceria de duas décadas com Slim, mas lembrou que agora estão em lados opostos.

A expectativa é que a AT&T avance na América Latina — especialmente no Brasil, onde Slim é sócio de Net, Claro e Embratel. No país, a operadora americana atua em redes corporativas e agora, por meio da DirecTV, dona da Sky, pode ampliar seus serviços para o consumidor final.

De fato, a vida ficou mais complicada para Slim — e não só na telefonia. No último ano, o empresário ficou 1 bilhão de dólares mais pobre e perdeu o posto de homem mais rico do mundo para Bill Gates.

A diminuição da fortuna se explica, principalmente, pelo desempenho da mineradora Minera Frisco, afetada pela queda do preço do ouro e do cobre. Em 12 meses, ela perdeu 44% de seu valor de mercado — no período, a bolsa mexicana subiu 1,3%.

Obviamente, Slim tem dinheiro para garantir o futuro de gerações. Suas empresas têm um poder de fogo invejável. Mas não há como escapar da constatação: os mexicanos só têm a comemorar com a lufada de competição em seu país.

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