Como o prefeito de Miami quer transformar a cidade no novo Vale do Silício

Prefeito quer fazer de Miami uma meca da tecnologia. É uma lição para outras cidades do mundo?

O momento pandêmico que transformou Francis Suarez, prefeito de Miami, em um recrutador de tecnologia aconteceu no dia 4 de dezembro, pouco antes das 21 horas, horário de Miami. No Twitter, Delian Asparouhov, um investidor de risco do Founders Fund, pensou: “Então, pessoal,­ olhem só, e se mudarmos o Vale do Silício para Miami”?

— Como posso ajudar? — respondeu Suarez.

Aquele tuíte começou a correr a internet. Suarez estampou camisetas do time de basquete com a frase “Miami Vice” em rosa e azul. Um investidor de risco com ligações a Miami, Shervin Pishevar, mandou fazer um outdoor com o rosto do prefeito e uma proposta: “Pensando em se mudar para Miami? Entre em contato comigo” — no trecho da Bay Area da Rodovia 101 dos Estados Unidos. Suarez até começou um talk show no YouTube, o Cafecito Talk, onde entrevista impulsionadores de Miami e candidatos a migrantes.

Suarez: apesar do sucesso na imprensa e na internet, o poder do prefeito é limitado

Suarez: apesar do sucesso na imprensa e na internet, o poder do prefeito é limitado (Rose Marie Cromwell/BLOOMBERG BUSINESSWEEK)

Dado que ele se tornou o homem mais visível de Miami — tuitando com Elon Musk às 3 da manhã sobre a construção de um túnel sob o Rio Miami —, não se poderia imaginar que ele tem um trabalho com tão pouco poder de fato. Suarez, de 43 anos, não controla pessoalmente um orçamento ou uma grande força de trabalho e dedica um tempo significativo à sua atuação paralela como advogado imobiliário.

Esse é um arranjo relativamente comum no sul da Flórida, onde a estrutura do governo geralmente estabelece que o prefeito do condado é quem reina supremo. E, em Miami, um administrador municipal, não o prefeito, dirige as operações municipais do dia a dia. No entanto, Suarez se envolveu em tantas narrativas agitadas no ano passado que sua fama se tornou um poder por si só.

Embora o gabinete do prefeito de Miami seja oficialmente apartidário, Suarez é um republicano moderado que protestou contra as políticas de fronteira de Donald Trump e criticou o governador republicano Ron ­DeSantis por sua maneira de lidar com a pandemia. Um prefeito de segunda geração (seu pai cubano, Xavier Suarez, liderou a cidade durante grande parte dos anos 1980 e 1990), ele chamou a atenção nacional em março passado, quando contraiu um dos primeiros casos conhecidos de covid-19 na região e deu dezenas de entrevistas durante sua quarentena de 18 dias, incluindo aos programas de TV The View e The Rachel Maddow Show.

 (Arte/Exame)

Suarez, com seu queixo esculpido, encontrou uma maneira de permanecer no centro das atenções. Ele tuíta incansavelmente e ao longo da noite sobre os méritos de Miami como um hub para a indústria; responde a perguntas de aparentemente todo mundo; e se agarra a ideias, como o túnel de Musk, que geram manchetes, mesmo que as chances de se concretizarem não sejam grandes.

Líderes em tecnologia e criptografia estão atentos. Sam Bankman-Fried, diretor executivo da FTX Crypto Derivatives Exchange e um dos maiores negociantes de criptografia do mundo, diz que os esforços de Suarez o persuadiram a buscar um acordo de direitos de marca de 135 milhões de dólares pendentes para o estádio de basquete do Miami Heat. “Uma maneira de causar impacto em uma comunidade é desempenhar uma função que tenha autoridade oficial”, diz Bankman-Fried. “Outra maneira é tentar ser líder naquilo que se diz, no que se comunica e no que se defende.”

Obra em Miami: Suarez vende a ideia de construir um túnel em parceria com Elon Musk

Obra em Miami: Suarez vende a ideia de construir um túnel em parceria com Elon Musk (Joe Raedle/Getty Images)

Em outras palavras, talvez a ensolarada Flórida, com seus baixos impostos, não precise de uma nova legislação para atrair a próxima geração de empreendedores. Talvez só precise de um marketing melhor. A noção de que empregos de alta renda em tecnologia e finanças poderiam migrar para o Estado Ensolarado decolou durante a pandemia. Inicialmente, a maior parte da conversa concentrou-se em Wall Street, e foi Suarez quem ajudou a expandir seriamente o tema para o Vale do Silício. Ele diz que viu uma brecha para trazer melhores oportunidades para uma área conhecida por seus empregos de baixa remuneração em comércio e serviços de hospitalidade, mas não pelo empreendedorismo de ponta.

O sul da Flórida tem um dos maiores bolsões de extrema riqueza dos Estados Unidos, com mansões de 30 milhões de dólares e concessionárias Ferrari ao longo da costa, mas muitos dos bilionários do estado são residentes meio período e ganham dinheiro em outro lugar.

“Miami tem sido um exportador de talentos intelectuais há muitas décadas”, diz Suarez, que foi para uma escola preparatória local e cursou a faculdade de direito na Flórida. “Tenho muitos, muitos amigos que cresceram, não estudaram aqui, e não voltaram.”

Daniella Levine Cava: prefeita do condado Miami-Dade tem maior escopo político do que Suarez

Daniella Levine Cava: prefeita do condado Miami-Dade tem maior escopo político do que Suarez (Eva Marie Uzcategui/AFP/Getty Images)

Mesmo assim, ainda não está claro se o Vale do Silício está pronto para se mudar em massa para o sul da Flórida, muito menos para a cidade de Miami, com seus 468.000 habitantes na área metropolitana. A cidade abriga um próspero distrito financeiro e muitas atrações culturais, mas alguns dos bairros mais apreciados pelos ricos nessa área estão em jurisdições separadas, como Miami Beach e Coral Gables.

O LinkedIn tem dados exclusivos sobre a migração com base nas mudanças nos perfis dos trabalhadores, e seu principal economista, Guy Berger, diz que “definitivamente houve um grande aumento percentual na migração de tecnologia para Miami” proveniente de São Francisco. No entanto, diz ele, o fluxo total de ida e volta dessas pessoas entre a área da baía e a grande Miami ainda é menos de um décimo do que é em média entre São Francisco e Nova York, Los Angeles ou Seattle.

 (Arte/Exame)

A esperança — ou o medo — de que os ricos deixem estados com altos impostos por outros ostensivamente mais baratos existe há muito tempo. Os defensores da Flórida previram que o estado atrairia um grande número de migrantes ricos após a Lei de Reduções de Impostos e Empregos de 2017, que manteve as deduções nos impostos estaduais e locais e tornou a Flórida um negócio ainda melhor em comparação com, digamos, Nova York.

No entanto, legisladores em ­Washington discutem reverter a mudança, e nem mesmo está claro se a Flórida já conseguiu algum benefício. Muitos financistas de Wall Street se mudaram para a Flórida depois de abril de 2020, mas muitos também começaram a voltar. Aglomerados industriais como Wall Street, Hollywood e Vale do Silício levam gerações para ser construídos e não são facilmente substituídos.

Também há dúvidas sobre os objetivos mais revolucionários de Suarez. Ele não tem voto na Comissão da Cidade­ de Miami, então depende de alianças dentro do órgão. Em uma reunião em 11 de fevereiro, ele propôs uma resolução para potencialmente pagar alguns funcionários municipais em bitcoin, aceitar impostos na criptomoeda e talvez investir fundos da cidade no ativo.

A ideia gerou grande repercussão na imprensa, mas a proposta foi neutralizada ao chegar na comissão, cujos membros só concordariam em aprofundar o assunto em uma data futura desconhecida. Como observou o comissário, Joe Carollo, mas Suarez não mencionou, é ilegal para os governos locais da Flórida investirem suas economias em ativos tão voláteis quanto o bitcoin. “Vou contar o que a cidade fez”, diz Carollo. “Nada.”

Carollo, também republicano, retratou o prefeito como ingênuo em sua busca por um acordo com a Boring Company, de Musk, para construir um túnel para aliviar o tráfego entre o centro de Miami e o distrito financeiro de Brickell. Suarez viajou no mês passado para se encontrar com executivos da empresa de Musk, mas Carollo acredita que o projeto custaria uma fortuna. O lençol freático é tão alto no sul da Flórida que quase não existem porões na região, muito menos túneis, exceto um no Porto de Miami.

“Estamos sempre abertos à inovação, mas não vou atrás de qualquer novidade”, disse a prefeita do condado de Miami-Dade, Daniella Levine Cava, cujo governo tem jurisdição sobre as estradas da área.

Suarez diz que suas realizações falam por si. Ele aponta para o recente compromisso do SoftBank de fornecer 100 milhões de dólares em financiamento para empresas da região de Miami. Sobre o bitcoin, ele observa que a cidade de Miami já teria obtido um lucro significativo se tivesse investido na valorização da criptomoeda quando ele sugeriu. E ele defende vigorosamente a ideia do túnel, dizendo que é “muito, muito otimista” na tecnologia de Musk.

“Veja bem, você nunca vai fazer nada inovador, nunca fará nada de especial se sempre duvidar de si mesmo no processo”, diz ele. “Às vezes é melhor ter uma grande ideia e ir adiante.”

Suarez enfrentará as eleições em novembro e até agora não tem muita concorrência. Supondo que ele ganhe, ele também chefiará a Conferência de Prefeitos dos Estados Unidos no próximo ano. Ele diz que não descartará a candidatura a governador da Flórida em algum momento, mas “não quero ser presunçoso, tenho uma reeleição adiante e vou levar isso a sério”.

Levine Cava diz que comemora as “mensagens de boas-vindas do prefeito Suarez”. Ela supervisiona uma população e um orçamento muito maiores, mas tem um terço dos seguidores de Suarez no Twitter. Foi Suarez — não Levine Cava, uma democrata — que foi convidado a falar na Casa Branca em fevereiro.  

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