Tímido no Brasil, ecoturismo movimenta US$ 170 bilhões por ano no mundo

O ecoturismo movimenta mais de 170 bilhões de dólares no mundo. Na Austrália, emprega 1 milhão de pessoas. No Brasil é um setor promissor, mas ainda pequeno
O barco Jacaré-Açu, da Expedição Katerre: cruzeiros pelo Rio Negro atraem principalmente turistas estrangeiros que buscam contato com a natureza (Leandro Fonseca/Exame)
O barco Jacaré-Açu, da Expedição Katerre: cruzeiros pelo Rio Negro atraem principalmente turistas estrangeiros que buscam contato com a natureza (Leandro Fonseca/Exame)
Por Rodrigo CaetanoPublicado em 19/05/2022 06:00 | Última atualização em 19/05/2022 10:53Tempo de Leitura: 10 min de leitura

De dezembro a maio é época de cheia na Amazônia. As águas do Rio Negro sobem mais de 20 metros em alguns pontos e alcançam a copa das árvores. Avistar um bicho, exceto os pássaros, fica difícil. À noite, a Lua, encoberta pelas nuvens da chuva constante, ilumina pouco. A grande atração para os turistas que se arriscam na escuridão é o espelho d’água, que faz do rio e do céu quase a mesma paisagem. E há os jacarés. 

Deitado de bruços na proa da “voadeira”, como são chamados os barcos rápidos de alumínio na região, o guia Josué Basílio aponta a lanterna para uma ilha de galhos retorcidos e mato. Lentamente, o barqueiro conduz a embarcação para dentro da mata fechada, em silêncio. Basílio desliga a lanterna e, num movimento rápido, mergulha as duas mãos na água entre a vegetação. Ele se levanta cuidadosamente, com um jacaré de 1 metro e meio em suas mãos. “É um jacaré-tinga, da família dos caimans”, explica o guia. “Ele é jovem, tem uns 5 ou 6 anos.” 

A vida de um jovem jacaré na Amazônia não é fácil. Até alcançar um tamanho de adulto, acima de 2 metros, ele é mais presa do que caçador. Onças, piranhas e outros bichos se aproveitam da fragilidade desses seres pré-históricos antes que se tornem predadores implacáveis, no topo da cadeia alimentar. Basílio conhece cada espécie presente no Rio Negro. São quatro: jacaré-açu, jacaré-tinga, jacaré-paguá e jacaré-coroa. Não há no mundo lugar com maior variedade de jacarés do que a Amazônia. 

Basílio é um guia freelancer. Descendente de indígenas e com família na Bolívia, ele demonstra conhecimento sobre cada aspecto da vida amazônica. Já foi picado por cobra, mordido por jacaré, virou voadeira na corredeira e diz ser capaz de viver apenas da floresta. Sua base fica na região de Novo Airão, município de 100.000 habitantes a 3 horas de carro de Manaus, no Amazonas. Nos últimos 20 anos, a cidade se tornou um polo do ecoturismo no estado, graças a um apelo sustentável iniciado pelos próprios moradores. Hoje, a região abriga um resort de luxo, é destino de cruzeiros de alto padrão e está prestes a receber mais um empreendimento hoteleiro. Ali, ninguém quer saber de desmatamento.

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Turismo que conserva

O mercado do ecoturismo, ou turismo sustentável, movimentou 176 bilhões de dólares em 2020 no mundo, segundo dados da empresa de pesquisas americana Million Insights. A projeção é alcançar 385 bilhões de dólares até 2028, um crescimento anual superior a 10%. Para além da grana, é um segmento que emprega muita gente. Líder em atrair esse tipo de turista, a Austrália conta com mais de 1 milhão de pessoas trabalhando na área. O Brasil, apesar de superar a Austrália em biodiversidade, ainda é tímido nesse mercado. Estima-se que o turismo sustentável movimente, por aqui, não mais do que 80 milhões de dólares ao ano. 

As oportunidades, no entanto, são imensas. O empresário Ruy Tone, dono de uma agência de viagens especializada em turismo “exótico”, construiu em Novo Airão o Mirante do Gavião Lodge. Inaugurado em 2014, às margens do Rio Negro, o hotel aproveita sua localização privilegiada para atrair turistas endinheirados, principalmente os estrangeiros. Ele oferece 12 acomodações com vista para o Parque Nacional de Anavilhanas, onde está o segundo maior arquipélago fluvial do mundo.

O projeto, assinado pelo escritório Atelier O’Reilly Sustainable Strategies, é todo sustentável: energia solar, ventilação natural, piso elevado para preservar a permeabilidade do solo e paisagismo inspirado na expedição de Margaret Mee, a Dama das Bromélias, artista britânica que se especializou em retratar plantas da Amazônia. 

Tone foi buscar na África um modelo de negócios para seu projeto na Amazônia. “Eu sempre gostei de viajar e brinco que montei a agência para justificar minhas ausências”, afirma. Filho de um engenheiro, o empresário herdou uma pequena construtora e, com a expansão do negócio, obteve recursos para se lançar no turismo. O conhecimento na área ele adquiriu em suas viagens de mochila nas costas e pouco dinheiro. “Conheci muitas iniciativas de preservação baseadas no turismo, mas, quando quis incluir a Amazônia em meus roteiros, não encontrei nada parecido”, diz ele. 

O maior desafio do turismo sustentável, para Tone, está no relacionamento com a comunidade. A atividade se torna predatória a partir do momento em que exclui o morador local da cadeia de negócios. Na Amazônia, a dificuldade é maior por causa do isolamento das comunidades e da falta de acesso a educação e serviços básicos. “Eu consigo engajar uma comunidade, mas preciso de alguém que faça a gestão local do negócio. Isso é complicado”, afirma Tone. Para contornar o problema, ele tem investido na construção e em reformas de escolas. “Se eu construir 1.000 escolas, aí, sim, contribuirei para o turismo local.” 

Cerca de 80% dos clientes do Mirante do Gavião Lodge e da Expedição Katerre, outra empresa de Tone que oferece cruzeiros pela região, são estrangeiros. Há certa desconexão do brasileiro com a Amazônia. Ele prefere ir para o exterior antes de conhecer a floresta. Esse distanciamento se dá até em Manaus.

Quando chegou ao Amazonas, a chef paulista Débora Shornik se impressionou com os hábitos alimentares locais. “Toda comida vinha de fora”, diz ela. À parte o desafio logístico, isso faz ainda menos sentido quando se olha para a riqueza nutricional da região. Shornik hoje é parte de um movimento que busca desenvolver a alta gastronomia amazônica partindo de ingredientes e da cultura locais. Seu restaurante, o Caxiri, é especializado em peixes como tambaqui e pirarucu, e no tempero do tucupi, um caldo extraído da mandioca brava. “É preciso respeitar a sazonalidade e os ciclos da natureza”, diz ela.

A lenda do boto

A alguns minutos do Mirante do Gavião Lodge está o Flutuante dos Botos, o maior exemplo de como o empreendedorismo da comunidade pode fomentar o turismo — Tone, inclusive, prefere usar o termo turismo de base comunitária. Aos 8 anos, Marisa Granjeiro, nascida e criada em Novo Airão, se encantou por um boto que se aproximou enquanto ela brincava na beira do rio em frente ao restaurante da mãe, Marilda.

A palavra “encantar”, no entanto, tinha outro significado. Dizia a lenda que o boto se transformava em um homem galante, que seduzia as mulheres e as engravidava. Com medo, a população até matava os botos. “Depois do exame de DNA, nunca mais o boto engravidou alguém”, diz a menina, hoje com 30 anos. 

Um dos restaurantes flutuantes na beira do Rio Negro: contato com os botos deu fama a Novo Airão, hoje um polo do ecoturismo (Leandro Fonseca/Exame)

Seu encantamento a fez criar um relacionamento com um grupo de botos cor-de-rosa, os mais identificados com a Amazônia e mais afeitos ao contato com humanos — o boto cinza é até mais numeroso, porém raramente se aproxima dos homens. Granjeiro passou a alimentar os bichinhos, e logo a história da menina que nadava com os botos se espalhou. Foi o suficiente para atrair turistas interessados na experiência.

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Atualmente, ela cuida do flutuan­te que fica no local onde teve os primeiros contatos com os botos. Para dar sustentabilidade ao negócio, ela estudou conservação natural e hoje passa esse conhecimento aos turistas e às crianças das escolas locais. Foi Granjeiro que deu fama a Novo Airão, a cidade dos botos, onde Tone prepara a construção de um segundo hotel de luxo, igualmente sustentável. Há diversas maneiras de desenvolver o turismo. Umas são mais corretas do que outras.  


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