No pós-pandemia, sobrevive quem usar a tecnologia para diversificar

Somos uma empresa do setor imobiliário e de tecnologia. Não há mais espaço para ser um só, como a pandemia deixou claro

A tecnologia avança na América Latina em velocidade exponencial. A região, com suas particularidades e dados alarmantes de desigualdade, deu a largada mais tarde na corrida tecnológica. Hoje vive um processo de digitalização acelerado, intensificado pela crise do coronavírus em 2020. Ao que tudo indica, estamos no começo da jornada. Quando se observa a participação de mercado de empresas de tecnologia no PIB, por exemplo, o Brasil ainda segue atrás de outros emergentes. O índice por aqui é de apenas 3% — na Índia, chega a 13% e na China a 27%. Nos Estados Unidos, onde as cinco corporações mais valiosas são do setor de tecnologia, bate os 39%.

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A realidade dos latino-americanos deve se transformar — e rápido — nos próximos anos. A recente ascensão do Mercado Livre ao patamar de empresa mais valiosa da América Latina, desbancando a Vale e a Petrobras, é um bom termômetro dos novos ventos que estão por vir. E há terreno fértil e potencial para que muitas outras techs ganhem relevância e valor de mercado. Se até janeiro de 2018 o Brasil não possuía nenhum unicórnio, por exemplo, hoje já conta com 13.

Os dados acima são parte do estudo Transformação Digital na América Latina, feito anualmente pelo Atlântico, fundo de venture capital do qual sou sócio, e liderado por Julio Vasconcellos (fundador do Peixe Urbano e primeiro representante do Facebook no Brasil) e Guilherme Telles (ex-CEO da Uber no Brasil). Aberta ao público pela primeira vez neste ano, no começo de outubro, a pesquisa tem tido uma repercussão relevante entre empreendedores e investidores no Brasil e no mundo.

Muitos leitores com certeza receberão os 200 slides em grupos de WhatsApp ou pelas redes sociais. No Twitter, grandes figuras do mundo de tecnologia, como Marc Andreessen (inventor do brow­­ser e famoso investidor), Vinod Khosla (fundador da Sun Microsystems), Daniel Ek (fundador do Spotify) e muitos outros compartilharam a pesquisa chamando-a­ de “Internet Trends brasileiro”, numa referência à famosa apresentação anual de Mary Meeker.

O estudo aponta para um ciclo virtuoso de transformação digital, formado por regulação, capital humano e capital financeiro. Na Loft temos visto e sentido essa roda girar. Embora estejamos no setor imobiliário, um mundo de tijolo e concreto, temos bits e bytes nas veias. Na verdade, somos uma empresa do setor imobiliário e do setor de tecnologia. Não há mais espaço para ser um só.

Em 2020, com a pandemia de covid-19, ficou ainda mais claro como a tecnologia precisa estar no core do negócio. As restrições de distanciamento nos fizeram correr com o desenvolvimento de soluções, como o app Corretor da Loft, que combina ferramentas do fluxo de vendas com tours virtuais. Em termos de regulação, também vimos avanços. Pela primeira vez no país, conseguimos assinar uma escritura de forma totalmente online. Na prática, a mudança regulatória pode acarretar menos burocracia e mais agilidade nas transações de compra e venda de imóveis daqui em diante.

Quando se fala em capital humano, a contratação de profissionais continua sendo muito competitiva para todas as empresas na América Latina. No Brasil, sobram vagas de áreas mais tech, ainda que o país some mais de 14 milhões de desempregados. A boa notícia é que esse cenário de carência de talentos tende a mudar: 26% dos 1.700 universitários entrevistados para o estudo do Atlântico pretendem trabalhar em startups ou grandes empresas de tecnologia.

Hoje, a Loft conta com mais de 200 pessoas em áreas técnicas e de engenharia de software — o que representa cerca de 30% dos funcionários. Para quem não acredita no potencial de as empresas brasileiras serem exemplos globais de tecnologia, temos hoje três vezes ou mais a proporção de profissionais técnicos em nossa equipe quando comparado com exemplos globais, como Zillow, OpenDoor e Redfin.

Outro recurso que temos usado para conquistar os melhores profissionais é um programa de Stock ­Options bem definido, para que colaboradores possam vir a adquirir ações da empresa. Muito comum nos Estados Unidos, a prática começa a se expandir por aqui também. De acordo com a pesquisa do Atlântico com os maiores unicórnios da América Latina, as stock ­options de funcionários normalmente representam de 6% a 10% do equity de unicórnios da América Latina.

Em nosso caso, estamos no limite superior do que é praticado, por acreditar que todo colaborador um dia pode, e deve, se tornar sócio.

No que se refere ao capital financeiro, o volume investido em venture capital tem quase dobrado a cada ano desde 2016. A tendência é de alta, com fundos globais olhando para a região e os principais family offices do Brasil com planos de mais do que dobrar sua alocação em venture capital. Há ainda muitas oportunidades a ser descobertas e vivenciadas na América Latina e o terreno é fértil para novas startups.

Se a região conseguir superar seus entraves históricos e for capaz de manter saudável esse ciclo de capital, talentos e regulação, deverá seguir inovando em ritmo acelerado. Ao que parece, capital financeiro e humano tendem a continuar nesse fluxo. Resta saber se os órgãos regulatórios vão acompanhar a batida.

Estamos apenas começando e há um longo caminho a percorrer, mas demos um (grande) salto. Em última instância, com inovação e tecnologia, espera-se que o futuro, que já é realidade para uma parcela da população local, traga empregos e inclusão a mais pessoas.


 (Germano Lüders/Exame)

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