"Problema de alçada" trava a Petrobras na gestão Bendine

Em sete meses no comando da Petrobras, Aldemir Bendine está longe de fazer a revolução de que a empresa precisa

São Paulo — Desde que assumiu a presidência da Petrobras, em fevereiro, Aldemir Bendine se dedica a conquistar a confiança do mercado financeiro. Nesse quesito, ele já saiu perdendo. No dia em que seu nome foi anunciado, as ações caíram 7%, muito pelo temor de que Bendine, ex-presidente e funcionário de carreira do Banco do Brasil, pouco fizesse para mudar de verdade a gestão da empresa — que, como se sabe, vivia uma crise financeira e ainda tinha de lidar com o maior escândalo de corrupção da história.

De lá para cá, Bendine colecionou pequenas vitórias. Em março, anunciou um plano para reduzir o endividamento da Petrobras com a venda de até 15 bilhões de dólares em ativos e a redução de investimentos. O mercado aplaudiu. No mês seguinte, publicou o balanço da empresa, que estava cinco meses atrasado, e conseguiu evitar um caos nas finanças da companhia. Ninguém duvida que sejam medidas importantes. E ninguém duvida, também, que não resolvam o abacaxi que ele recebeu para descascar.

Desde que Bendine assumiu, o valor de mercado da Petrobras subiu quase 50%, para depois cair tudo isso e mais um pouco. O mercado, para usar um jargão típico, parece “precificar” duas coisas. Primeiro, que a crise da Petrobras se tornou muito mais grave com o descontrole do dólar.

Segundo, que Bendine pode até ir na direção correta — mas em velocidade muito menor do que a necessária. A segunda conclusão, claro, foi causada em parte pela abrupta e mal explicada saída de Murilo Ferreira do cargo de presidente do conselho de administração da Petrobras. A empresa afirmou, naquele blá-blá-blá típico dos comunicados oficiais, que Ferreira deixara o cargo por “motivos pessoais” — quando até as lulas da bacia de Santos sabiam que Ferreira e Bendine vinham brigando feio.

Segundo executivos ouvidos por EXAME, o diagnóstico de Ferreira e de outros executivos é que Bendine e seu braço direito, o respeitado vice-presidente Ivan Monteiro, estão ensanduichados. A fatia de pão de cima é o governo federal, que, como é de sua natureza, impede qualquer medida drástica de corte de custos.

E a fatia de baixo é a “corporação”, formada pelos quase 300 000 empregados da Petrobras — que também resiste a cortes e a encampar decisões difíceis. Nesse cenário, os executivos e o conselho de administração têm um raio pequeno de atuação. As negociações para recuperar a enroladíssima Sete Brasil, empresa criada para adquirir, por bilhões de dólares, sondas de perfuração que serão alugadas à Petrobras, são ilustrativas.

Numa reunião com presidentes e diretores de bancos credores da Sete no dia 28 de agosto, Bendine fechou um novo desenho para a empresa, com redução do número de sondas e novos operadores. Passados três dias do acordo fechado e anunciado, um dos gerentes jurídicos da Petrobras ligou para os sócios da Sete Brasil afirmando que Bendine não tinha “alçada” para fechar o acordo e que, portanto, nada do que havia sido conversado estava valendo.

O gerente não queria assumir o risco legal da decisão — paralisia típica de empresas cujos executivos temem ações judiciais de acionistas ou mesmo do Departamento de Justiça americano, que hoje investiga a Petrobras. Bendine, na bizarra estrutura decisória da Petrobras, não tem poder para contestá-lo. Ficou por isso mesmo.

O conselho de administração, renovado em abril com a contratação de Ferreira, vem pedindo mais pressa nos cortes — mas, como só poderia acontecer numa estatal como a Petrobras, o conselho não manda, apenas palpita. Os conselheiros queriam, por exemplo, aproveitar a saída de Sérgio Machado da presidência da subsidiária de navegação Transpetro, em fevereiro, para mudar o conselho de administração da empresa.

Mas nada foi feito. Tradicional reduto de políticos, a Transpetro tem sido relativamente preservada de cortes, na visão de alguns conselheiros. O conselho também pressiona por reajustes no preço dos combustíveis. Na véspera da última reunião do conselho, em setembro, o governo anunciou reajuste de 6% na gasolina e de 4% no diesel. “Isso é só o começo do reajuste”, diz um conselheiro, que pediu para não ser identificado. “Mas a situação financeira da empresa pede aumentos muito maiores.” Bendine não deu entrevista.

Corte difícil

A principal divergência entre o que deseja o conselho e o que quer o governo está no corte de custos. Além de cobrar um plano de redução mais agressivo do número de funcionários terceirizados, o conselho discordou da promoção automática, em setembro, de 40 000 funcionários da Petrobras. Eles foram promovidos por tempo de casa.

Com remuneração mensal média de 15 000 reais, os funcionários recebem um grande número de benefícios. Entre eles está o pagamento de até 90% da escola dos filhos até o ensino médio, 60% das mensalidades de faculdade e pagamento integral de medicamentos em farmácias. Os conselheiros ficaram sabendo das promoções por acaso, em folhetos de comunicação interna, pediram informações sobre o assunto, mas não receberam explicações completas nem conseguiram impedir que elas ocorressem.

Em nota a EXAME, a Petrobras informou que as promoções constam do acordo com os sindicatos. As despesas com pessoal chegaram a 31 bilhões de reais no ano passado — 15% acima do ano anterior. “A empresa na situação em que está deveria suspender as promoções”, diz outro conselheiro.

Na última reunião de conselho, no final de setembro, a diretoria reportou a redução de 5 000 funcionários terceirizados. A Petrobras tem mais de 300 000 funcionários, o triplo do que tem a multinacional Shell — cuja produção é duas vezes maior. Desse total, 80 000 são concursados e têm estabilidade.

A discussão sobre a abertura do capital da BR Distribuidora explicitou a divisão entre o conselho e a diretoria executiva. Murilo Ferreira votou contra a ideia argumentando que era necessário colocar uma equipe de fora, com experiência comprovada em varejo, para desenvolver um plano de negócios que fosse crível para o mercado. A estatal previa arrecadar entre 9 bilhões e 13 bilhões de reais com a venda de uma participação de 25%.

O voto de Ferreira tornou-se público, o que, na prática, inviabilizou o processo, que acabou paralisado em agosto. Agora a diretoria procura interessados em potenciais associações enquanto não é possível fazer a abertura do capital. Por enquanto, a diretriz é vender ativos que não interessam ou são acessórios.

“Se a situação de mercado continuar ruim, é possível que a empresa decida vender algumas joias da coroa, como participações em grandes campos de petróleo, como o de Libra”, afirma em relatório João Augusto de Castro Neves, da consultoria Eurasia.

Por enquanto, essas alternativas mais radicais não foram discutidas. Está em curso apenas a venda de 49% das ações da Gaspetro, que consolida participações em distribuidoras de gás, para o conglomerado japonês Mitsui, numa transação estimada em até 2 bilhões de dólares.

A empresa que Bendine assumiu em fevereiro não é a mesma que ele comanda hoje. Embora tenha tirado da sala um bode e tanto (a empresa não tinha balanço auditado quando ele assumiu), a situação financeira da Petrobras se agravou muito. Mais de 80% da dívida da companhia é indexada ao dólar, enquanto mais de 90% de sua receita é em reais.

Só no terceiro trimestre, a dívida total da Petrobras deve aumentar 95 bilhões de reais, para 510 bilhões por causa da flutuação do dólar. Os bancos já calculam que o endividamento líquido da empresa supere cinco vezes sua geração de caixa. A média das grandes companhias internacionais, como Exxon, British Petroleum e Shell, é abaixo de uma vez.

A Petrobras foi rebaixada pelas agências de classificação de risco juntamente com o Brasil, e seus títulos de dívida no mercado internacional despencaram, fazendo com que a empresa pague até 8,5% de taxa de juro em dólar. Só no ano que vem, a Petrobras terá 37 bilhões de reais em dívida a pagar e precisa urgentemente melhorar seu fluxo de caixa.

Amarrado em seu “problema de alçada”, Bendine faz o que pode. A diretoria decidiu investir neste ano apenas 25 bilhões de dólares, 40% abaixo do previsto no início do ano. A saída vem sendo apertar fornecedores, forçando descontos de até 20% em contratos fechados com a estatal.

Os bancos já perceberam que a conta não fecha e especulam sobre uma possível capitalização da empresa, se a venda de ativos não avançar rapidamente. Segundo um relatório do banco Itaú BBA, o problema da Petrobras pode ser resumido da seguinte forma. A empresa vai precisar, até 2018, de 126 bilhões de reais para saldar as dívidas e fazer investimentos. Mas sua geração de caixa, em média, será de 88 bilhões de reais por ano no período. De onde virá o restante do dinheiro? É a pergunta que governo e “corporação” terão de responder.

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