Bancos centrais podem atuar para reduzir desigualdade, diz Luiz Awazu

Para o vice-diretor-geral do BIS, instituição global dos BCs, papel é o de coordenação de diversos atores para uma economia mais sustentável e redistributiva
O brasileiro Luiz Awazu, vice-diretor-gerente do BIS: alerta sobre efeitos financeiros causados por mudanças climáticas | Foto: Bloomberg (Bloomberg/Getty Images)
O brasileiro Luiz Awazu, vice-diretor-gerente do BIS: alerta sobre efeitos financeiros causados por mudanças climáticas | Foto: Bloomberg (Bloomberg/Getty Images)
Por Rodrigo CaetanoMarcelo Sakate
Publicado em 15/07/2021 às 05:33.

Para o mercado, um banco central independente é sinal de instituições fortes. Afinal, uma política monetária bem definida é garantidora de estabilidade, condição importante para atrair os investimentos de longo prazo, com a mais eficiente alocação de capital. O cenário, no entanto, é de transformações. O avanço da tecnologia pressiona o mercado de trabalho, as mudanças climáticas trazem riscos catastróficos, e os esforços de recuperação pós-pandemia podem aumentar a desigualdade entre os países e dentro dos países. 

O brasileiro Luiz Awazu Pereira da Silva, vice-diretor-geral do Banco de Compensações Internacionais (BIS), órgão considerado o banco central dos bancos centrais, estuda há alguns anos a relação entre esses fenômenos socioeconômicos modernos e a atuação dos guardiões da política monetária, os BCs. No início de 2020, pouco antes da pandemia, ele propôs, em conjunto com outros analistas do BIS, o conceito de “cisne verde”: eventos climáticos cada vez mais frequentes com potencial de gerar crises econômicas globais.

Poucos meses depois, veio a pandemia, uma zoonose que tem relação com o conceito de cisne verde. Para Awazu, é um sinal da necessidade de refletir na transmissão das políticas monetárias elementos externos aos mandatos tradicionais dos BCs. Em junho, o BIS publicou seu relatório anual. Pela primeira vez há um capítulo dedicado à desigualdade, um problema que, para o brasileiro, precisa ser considerado pelos órgãos reguladores dos países. 

A desigualdade, segundo o relatório do BIS, afeta a transmissão da política monetária na economia. Países mais desiguais, com renda concentrada, tendem a enfrentar crises maiores e mais longas. Awazu pondera que os bancos centrais não devem se transformar em bancos de desenvolvimento. Porém têm a capacidade de ­coordenar os esforços de diversos atores em direção a uma economia mais justa e sustentável. Por videoconferência, Awazu falou à EXAME. 

Qual é o quadro econômico atual apontado no novo relatório do BIS? 

Estamos avançando em um processo de recuperação da economia global, que é desigual, mas está acontecendo. Isso se deve ao trabalho anticíclico dos bancos centrais. Com o avanço da vacinação e o excesso de poupança existente, acreditamos nessa recuperação. No relatório, pela primeira vez abordamos a questão da desigualdade.

O papel central da política monetária é dar estabilidade para o bom gerenciamento do ciclo de negócios. A desigualdade tem características mais estruturais, vem da falta de acesso à educação e de outras causas sobre as quais a política monetária não tem interferência direta. Porém os bancos centrais têm um papel a desempenhar nessa questão.

Qual seria esse papel?

Um dos papéis fundamentais de qualquer banco central é ser o provedor de estabilidade do sistema financeiro. A política monetária suaviza os ciclos de negócios e as recessões, que, como sabemos, acentuam a desigualdade, por exemplo, pelo aumento do desemprego. A maneira como a política monetária se transmite para a economia também é influenciada pela maior ou menor propensão ao consumo e pelo acesso ao crédito, ou seja, as condições sociais.

Um país mais desigual tem a propensão de sofrer crises maiores e mais prolongadas. Os efeitos da política monetária são mais lentos em cenários de renda muito concentrada. E tem um aspecto de inclusão financeira, proteção e educação do consumidor que também é papel dos bancos centrais e pode contribuir para a redução da exclusão e da desigualdade.

Vemos a volta da inflação, que também afeta as pessoas de menor renda. Como o senhor enxerga essa tendência?

A inflação afeta sempre os mais pobres. Hoje, há duas situações em matéria de inflação. Nos países avançados, há uma pressão mais temporária, que está ligada à falta de ­demanda do ano passado em virtude da pandemia e a aumentos de custos localizados. Em outros países, a situação é mais complexa. Há um aumento de custos se espalhando pela economia, que está contaminando a expectativa de inflação, além de uma desvalorização cambial. Esse quadro é mais frequente em países emergentes e requer maior atenção.

O senhor tem abordado com ênfase a questão ambiental e declarou que as mudanças climáticas afetam primeiro os mais pobres. Esse é outro problema que os bancos centrais devem enfrentar?

O aquecimento do planeta vai afetar a habitabilidade das zonas tropicais onde vivem bilhões de pessoas de renda baixa. Há um efeito geográfico das mudanças climáticas que pode, por exemplo, provocar migrações em massa. Nos países ricos, os efeitos desses eventos climáticos cada vez mais frequentes afetam as populações mais pobres. A crise climática afeta os países de menor renda e a população mais pobre dos países ricos.

Claro que desejamos mudanças de comportamento de consumo para reduzir a emissão de gases de efeito estufa. Mas isso é mais difícil quando a renda é baixa e a liberdade de escolha é limitada. Isso tem de ser levado em conta ao estabelecer políticas de combate às mudanças do clima. 

Neste cenário de necessidade de reformas estruturantes, mudanças climáticas e desigualdade, o papel dos bancos centrais deve ser ampliado? 

Os bancos centrais estão cumprindo seu papel na pandemia, mas não podem jamais ser bancos de desenvolvimento. Cada um tem sua função. Os bancos centrais não têm uma bala de prata, não vão salvar o mundo sozinhos, mas podem ter, sim, um papel de coordenação de diversos atores, principalmente do setor privado e da sociedade civil. Nos próximos anos, será crucial manter o trabalho de prover estabilidade e, ao mesmo tempo, garantir que a transição para a economia de baixo carbono se dê por meio de investimentos privados e que exista capacidade para fazê-la.

A transição para uma economia de baixo carbono é de responsabilidade dos governos ou da iniciativa privada? 

O setor financeiro teve um papel crucial na Revolução Industrial, que foi financiada pelo setor privado. A transição para uma economia mais sustentável deve acontecer da mesma maneira, ainda que com alguma ajuda dos governos. A ideia é de uma transição “schumpeteriana”, uma destruição criativa que tenha um componente público no financiamento de pesquisas, na descoberta de novas tecnologias, e, ao mesmo tempo, um conjunto de oportunidades que surgirão pelos investimentos privados.

Como o setor financeiro pode construir mecanismos para financiar essa transição?

Já está surgindo uma série de instrumentos, como os green bonds, ou as combinações entre investimento público e privado na área de infraestrutura. Isso acontece na Europa, mas os países emergentes também precisam considerar os riscos. A narrativa correta é que existe uma destruição criativa, porém precisamos fomentar o crescimento por meio de um modelo que respeite o orçamento de carbono estabelecido no Acordo de Paris e seja redistributivo.

As moedas digitais são uma oportunidade para os bancos centrais assumirem um maior protagonismo?

As mudanças tecnológicas no setor financeiro têm um papel inclusivo. É só olhar para a possibilidade de transações seguras e rápidas de menor valor. A identificação digital também ajuda na determinação de políticas públicas. Agora, é evidente que essas tecnologias oferecem risco. Os criptoativos são de natureza essencialmente especulativa. Não possuem as características de uma moeda.

O papel dos bancos centrais é promover a infraestrutura de pagamentos e favorecer, por meio de moedas digitais, um instrumento que possa ser usado como moeda de fato. Também é papel da autoridade monetária garantir a privacidade e a transparência nas transações. 

O senhor cunhou a expressão cisne verde para se referir a eventos climáticos esperados que podem gerar crises financeiras globais. Como se proteger deles?

Esse conceito é um contraponto à ideia de cisne negro, criada pelo [economista líbano-americano] Nassim Taleb. Na crise financeira de 2008, ele trouxe essa visão de eventos catastróficos muito raros, que acontecem a cada 100 anos. As mudanças climáticas não são assim. A ciência é clara. Se nada for feito, vai acontecer. É uma mudança epistemológica na análise e na modelagem de risco.

A ramificação dos efeitos climáticos é múltipla. As coisas aparentam evoluir linearmente e lentamente até certo ponto, quando se tem explosões exponenciais que podem ser rápidas. A covid é uma ilustração desse conceito de cisne verde, um evento climático que vai se desenrolando e, de repente, explode. Quem garante que os riscos que acumulamos ao não fazer nada sobre as emissões não vão desencadear um cisne verde? As mudanças climáticas já estão nos afetando.


(Publicidade/Exame)