Para crescer de verdade, Brasil precisa vencer atraso de 50 anos

Os primeiros sinais da recuperação são bem-vindos, mas para crescer a um ritmo forte, é preciso investir na produtividade do brasileiro

São Paulo – Na fábrica de eletrodomésticos Esmaltec, na região metropolitana de Fortaleza, uma revolução quase invisível vem ocorrendo em seus 60 000 metros quadrados. Num primeiro olhar, nada parece ser muito diferente do que era há pouco mais de um ano. Todos os dias, os cerca de 3 000 funcionários operam as seis linhas de produção de fogões, geladeiras, bebedouros, entre outros produtos.

Mas está em curso um profundo processo de digitalização da fabricante de eletrodomésticos do grupo Edson Queiroz, um dos mais tradicionais do Nordeste. Na área de desenvolvimento de produtos, etapas como o design e a simulação de protótipos, que antes eram totalmente separadas e consumiam meses para ser concluídas, migraram para um ambiente virtual e foram integradas.

Com isso, os projetos passaram a fluir mais rapidamente. Apenas no tempo gasto com os protótipos houve uma redução de 80%. Nas linhas de produção, sensores acoplados aos equipamentos que já estavam ali desde 2001, quando a unidade foi inaugurada, tornaram a fábrica mais inteligente, capaz de antecipar problemas nas máquinas e de diminuir o tempo de manutenção. “Somente no chão de fábrica a produtividade aumentou 25%”, diz Aélio Silveira, superintendente da Esmaltec. “Isso nos ajuda a compensar a distância dos principais mercados consumidores.”

Concebido em 2014, às vésperas da crise, o projeto da Esmaltec consumiu cerca de 100 milhões de reais e agora está sendo replicado em outras empresas do grupo Edson Queiroz, como a engarrafadora de águas Indaiá e a distribuidora de botijões de gás Nacional Gás. “Queremos estar prontos para o pós-crise”, diz Igor Queiroz, diretor institucional e neto do fundador do grupo.

A sensação de urgência na companhia nordestina é compartilhada por empresários e executivos de todo o país. Afinal, após dois anos de recessão sem precedentes e de uma recuperação que custou a começar, muita gente torce para que, uma vez que a economia volte a acelerar, um crescimento mais robusto seja uma questão de tempo.

Não deve ser bem assim. “A partir de certo ponto, é preciso a correção de questões estruturais da economia para a retomada continuar”, diz o economista Luiz Carlos Mendonça de Barros, ex-presidente do BNDES.

O Brasil é um país que coleciona disfunções. Temos um Estado imenso que drena recursos demais do setor produtivo. Temos uma economia fechada que nos impede de brigar por uma fatia maior do comércio global. Para quase todo lado que se olha, encontram-se deficiências profundas que contribuíram para as coisas estarem como estão. Um estudo inédito da consultoria americana McKinsey joga luzes sobre as fontes de crescimento para o Brasil — e para a América Latina, de modo geral.

O trabalho não propõe soluções para todas as mazelas, mas aponta oportunidades num momento de autorreflexão, sobretudo para o Brasil. Sabemos, afinal, para onde queremos ir e como chegar lá? O caminho para a prosperidade na região passa por entender os fatores que determinaram o desempenho econômico nos últimos 15 anos.

A média de crescimento no subcontinente foi de 2,9% ao ano. No Brasil, um pouco menos: 2,7%. Não chega a ser um resultado medíocre, mas também não é nada excepcional, dadas as condições favoráveis que bancaram essa expansão.

O superciclo das matérias-primas foi determinante para esse crescimento. Os preços de minerais, metais e produtos agrícolas aumentaram, em média, 14% ao ano entre 2002 e 2011 em função da alta demanda asiática. O avanço do emprego na região também foi fundamental.

Quase 80% do crescimento do PIB da América Latina nos últimos 15 anos foi proveniente da forte expansão do mercado de trabalho. Nesse período, a contribuição do emprego para o crescimento foi maior na região do que em qualquer outra parte do mundo. Apenas no Brasil, mais de 17 milhões de empregos formais foram criados — ainda que 3 milhões de postos tenham evaporado com a crise.

Tudo isso foi ótimo para os brasileiros e seus vizinhos latino-americanos, mas faltou uma parte importante dessa história: o aumento da produtividade. Enquanto o mercado de trabalho crescia aceleradamente, a capacidade de produzir com mais eficiência andava a passos lentos, uma situação oposta à experimentada na Ásia.

Nos países asiáticos, o fator emprego foi responsável por apenas 14% da taxa média de crescimento anual da economia — os 86% restantes vieram pela produtividade.

A média latino-americana de contribuição da produtividade ao crescimento foi de 22%. O Brasil teve um desempenho igualmente fraco. Aqui, a produtividade evoluiu, em média, 0,6% ao ano de 2000 a 2015. Se esse filme que conta a história de uma década e meia é ruim, a fotografia do momento é ainda pior.

Com a profunda recessão dos últimos dois anos, a taxa de produtividade brasileira entrou em território negativo. O início da recuperação deve fazer com que esse indicador feche 2017 com um avanço de 0,5%, segundo o centro de estudos The Conference -Board, de Nova York. Ou seja, uma volta ao nosso padrão habitual.

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- (Adaptação: Rodrigo Sanches/Exame)

A questão da produtividade no Brasil é um dilema que nos persegue há pelo menos 50 anos. Em 1967, ano em que EXAME foi lançada, cada trabalhador brasileiro gerava 16.000 dólares (em valores corrigidos para 2015). Hoje, essa medida é de 28.336 dólares.

Isso equivale a 25% do que um americano produz anualmente. Ao longo de meio século, esse indicador nunca foi muito diferente, às vezes um pouco mais, outras um pouco menos. Nesse mesmo período de tempo, nações saíram do mais profundo atraso para se transformar em economias competitivas, caso do Japão e, mais recentemente, da Coreia do Sul, em que a riqueza gerada pelos trabalhadores gira em torno de 75.000 dólares.

Essa é a trajetória que a China quer repetir. Há 50 anos, cada trabalhador chinês gerava exatos 1 000 dólares numa economia majoritariamente rural, guiada por uma ditadura comunista. Hoje, os chineses estão muito perto da riqueza gerada pelos brasileiros e é dado como certo que eles vão nos ultrapassar até 2018.

“Países como Japão e Coreia do Sul nunca tiveram abundância de recursos naturais, por isso precisaram ser mais ativos na conquista do crescimento econômico, como educar melhor sua população”, diz o economista Bart van Ark, diretor do The Conference Board. “Ao longo da história brasileira, as pessoas e os negócios menos eficientes acabaram encontrando espaço no mercado informal, o que não ajuda a melhorar produtividade do país.”

O problema é que, se continuarmos a repetir o mesmo ritmo lento que marcou a evolução da nossa produtividade nas últimas cinco décadas, o crescimento do Brasil poderá ser ainda menor no futuro. Segundo os cálculos da McKinsey, a economia brasileira poderá estar condenada a uma expansão média do PIB de 1,4% ao ano nos próximos 15 anos, quase a metade do que experimentamos recentemente, caso o ganho de eficiência continue em 0,6% ao ano.

Isso é muito pouco diante das necessidades do país, as quais só se aprofundaram com a recessão. “Infelizmente, haverá a partir de agora menos gente entrando no mercado de trabalho a cada ano”, diz Nicola Calicchio, presidente da McKinsey. “O país precisa de novas alavancas para acelerar a taxa de produtividade.”

E mais: para manter o mesmo nível de expansão do PIB observado entre 2000 e 2015 — que, convenhamos, não foi grande coisa —, simplesmente será preciso triplicar o passo da produtividade.

O que fazer, então, para sair dessa armadilha que nos prende ao baixo crescimento e limita o desenvolvimento? O estudo da McKinsey identificou algumas trilhas que podem ajudar o país a virar o jogo. A adoção eficiente de tecnologias digitais e de automação no setor produtivo é uma delas. Outra é expandir atividades de alto valor agregado em todas as cadeias produtivas, eliminando os obstáculos à competitividade.

E ainda: compensar a combinação de envelhecimento da população e queda das taxas de fertilidade com a maior entrada de mulheres na força de trabalho traria benefícios não só econômicos, mas reduziria as disparidades de gênero na sociedade. Todas essas questões fazem parte de uma agenda de produtividade, negligenciada há tempos por aqui.

Historicamente, a tecnologia é um catalisador poderoso de produtividade, desde as primeiras máquinas usadas na Revolução Industrial até o surgimento da internet. Hoje, a principal frente de inovação é a união da internet das coisas com a automação industrial.

Juntas, elas criam fábricas inteligentes, nas quais as máquinas estão interconectadas e geram quantidades imensas de informações do processo produtivo que, no limite, permitem identificar defeitos e fazer correções sem a interferência humana. É uma ideia que poderia ser resumida no conceito de digitalização.

Algumas empresas no Brasil começam a incorporar essa tecnologia. O grupo da área química e petroquímica Mexichem, dono da marca de plásticos Amanco, faz suas primeiras experiências nessa seara. Na fábrica de Sumaré, no interior de São Paulo, está em fase de testes há 90 dias uma linha de produção de tubos plásticos para a construção civil em que centenas de sensores capturam dados que nunca antes estiveram disponíveis.

“Por ora, ainda estamos identificando os fatores que jogam a produtividade para baixo”, diz Maurício Harger, presidente da Mexichem Brasil. A equipe de engenheiros e técnicos envolvida já notou que variações nos minerais dos compostos para a produção de tubos podem aumentar o risco de itens com defeitos. A expectativa é que, à medida que surgirem novos parâmetros com os dados coletados, softwares de inteligência artificial instalados nas máquinas poderão fazer ajustes em tempo real na produção.

“A combinação de internet das coisas com inteligência artificial poderá trazer um aumento de produtividade de cerca de 20% em processos básicos de produção”, diz Harger. O caso da fábrica de Sumaré tem atraí-do tanto interesse na companhia que os executivos da filial americana da Mexichem aguardam os resultados da experiência brasileira para implementar a mesma solução nos Estados Unidos.

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- (Adaptação: Rodrigo Sanches/Exame)

A ideia de digitalizar a operação das fábricas começou a ganhar o mundo em 2011, quando a Alemanha difundiu o conceito de indústria 4.0. A promessa de uma manufatura interligada e versátil soava como música diante da competição acirrada entre os países, dos custos crescentes na indústria e do ciclo de vida cada vez mais curto dos produtos.

A multinacional Siemens, que encabeçou o programa alemão, recebe no Brasil cerca de 30 pedidos de prospecção por mês de plataformas de digitalização. Isso inclui projetos de expansão e unidades a partir do zero. “Para tirar pleno proveito dessa tecnologia, o Brasil precisa resolver questões de infraestrutura, como oferta de banda larga de qualidade em todo o país”, diz José Borges Frias Júnior, diretor de estratégia e excelência empresarial da Siemens.

Estimativas da McKinsey mostram que a digitalização das fábricas poderá gerar um acréscimo de pelo menos 125 bilhões de dólares à geração de riqueza da economia brasileira em 2025 — projeções mais otimistas vislumbram 205 bilhões de dólares adicionais. O Brasil, obviamente, não está sozinho nessa corrida. A expectativa é que o impacto da digitalização nos Estados Unidos traga até 2,2 trilhões de dólares para a economia do país.

Nesse sentido, é ainda mais importante o Brasil superar atrasos gigantescos na área de automação industrial, um dos alicerces da digitalização das fábricas. Mesmo com um parque industrial respeitável, o país tem índices acanhados de robotização. Hoje, são em média 12 robôs para cada 10 000 empregados do setor industrial.

Países como Alemanha e Estados Unidos contam, respectivamente, com 301 e 176 autômatos para o mesmo contingente de trabalhadores. A Coreia do Sul, que já foi um dos países mais pobres do mundo e até os anos 80 mal tinha um setor industrial, é a economia mais robotizada do planeta, com 531 máquinas por grupo de 10 000 trabalhadores.

No Brasil, o volume de compras de robôs não tem ajudado  a mudar o quadro atual. As empresas brasileiras compraram no ano passado cerca de 1 600 unidades. E não se trata de corte de gastos em tempos de crise. Em 2011, ano em que a economia ainda rodava a uma velocidade acelerada, o Brasil dobrou o volume de encomendas de robôs — e mesmo assim foram adquiridas apenas 1 440 unidades.

“Ainda existe uma resistência muito grande dos pequenos e médios empresários em robotizar as operações”, diz Edouard Mekhalian, diretor-geral da KuKa Roboter no Brasil, uma das maiores fabricantes de robôs industriais do mundo. Enquanto isso, a China — novamente ela — deve ultrapassar a marca dos 100 000 robôs comprados em 2017.

O abismo tecnológico dentro do setor produtivo nacional, com ilhas de excelência dividindo espaço com empresas informais e atrasadas, derruba os índices de produtividade brasileira. Apenas 15% dos empregos no país estão concentrados nas companhias mais eficientes, quase sempre as de maior porte.

“É preciso incentivar as empresas a crescer, pois muitas vezes elas são limitadas pela competição desleal com o setor informal”, diz Calicchio, da McKinsey. Olhando de outra perspectiva, os setores que mais empregam no país, como comércio, serviços e construção civil, acabam tendo produtividade inferior à media brasileira.

Por isso, os momentos de crise são encarados também como oportunidades para as empresas repensarem seus negócios. Nos últimos dois anos, a americana Bemis, maior fabricante de embalagens da América Latina,  partiu para um profundo plano de recapitalização de seus ativos, que exigiu 200 milhões de reais em investimentos.

Três das 13 fábricas foram fechadas no processo e produtos menos rentáveis, como rótulos de cervejas, devem deixar de ser produzidos pela empresa. Novas máquinas foram compradas,  reduzindo a idade média dos equipamentos de 15 anos para cinco anos. “A nova estrutura vai permitir produzirmos até 20% mais com 10% menos de pessoal”, diz Carlos Santa Cruz, presidente da Bemis América Latina.

Nem todas as oportunidades para avançar numa agenda de crescimento se resumem a mais máquinas ou operações mais azeitadas. A demografia, que até pouco tempo atrás era um trunfo para países emergentes, começa a ser encarada também como ameaça.

Com mais idosos e menos jovens, há por outro lado um estoque de mão de obra subutilizado: as mulheres. Apesar dos avanços inquestionáveis delas no mercado de trabalho nos últimos 50 anos, hoje 56% das brasileiras em idade ativa trabalham, ante 78% dos homens. Mesmo com um contingente mais escolarizado, elas recebem salário equivalente, em média, a 70% dos  vencimentos dos homens.

De acordo com cálculos da McKinsey, a equiparação da participação feminina à masculina traria um acréscimo de pelo menos 410 bilhões de dólares à economia brasileira até 2025.

A primeira condição para isso, evidentemente, é a criação de mais empregos na economia como um todo, caso contrário seria apenas um incentivo à substituição de uma mão de obra por outra —vale lembrar que, na crise, elas sofreram mais os efeitos do aumento do desemprego.

Mas a questão vai além e envolve aspectos culturais. No Japão, onde a pressão demográfica afeta o crescimento econômico há pelo menos duas décadas, o governo do primeiro-ministro Shinzo Abe colocou como meta o aumento da participação feminina na economia na tentativa de reforçar o PIB do país.

Lá, a função de cuidar dos idosos recai de forma quase exclusiva sobre a população feminina, mas Abe tem convencido mais mulheres, sobretudo as mais educadas, a entrar no mercado de trabalho de forma mais ampla. Hoje, 63% das japonesas têm emprego, o maior nível registrado no país.

As oportunidades para fazer mais e melhor existem de fato, mas elas não eliminam o Brasil que fica do lado de fora dos escritórios e das fábricas. O país permanece hostil aos negócios, com regras que desafiam a racionalidade e impostos que comem parte da competitividade do setor privado. Os desincentivos estão por toda parte. É como se um maratonista alcançasse sua melhor forma física nos treinos, mas na hora da competição precisasse levar uma mochila com muitos quilos a mais.

Na esfera federal, as propostas de microrreformas podem acelerar os negócios em setores específicos. As tentativas de estados e municípios de reduzir a burocracia nos negócios — como as vistas recentemente nas prefeituras de São Paulo e Porto Alegre — também são muito bem-vindas.

Na capital paulista, um projeto está tentando reduzir o tempo de abertura de uma empresa de 101 para cinco dias no caso de empreendimentos de baixo risco, como consultorias. “Produtividade é uma questão em que o poder público e as empresas precisam trabalhar juntos. Os governos têm de liberar os caminhos para as empresas investirem nas pessoas e em inovação”, diz Van Ark, do The Conference Board. Essa é uma agenda que poderia unir o país — e certamente fazer a diferença para as gerações futuras.

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