Os falcões da periferia

O empreendedor social Edu Lyra reuniu investidores bilionários para transformar a realidade das favelas brasileiras com gestão, metas e sonhos

No Jardim Paraíso, bairro da periferia de  São José do Rio Preto, no interior de São Paulo, casebres estão lado a lado com motéis improvisados. Os moradores convivem com traficantes de drogas e mulheres que se prostituem, revezando-se em busca de clientes nas esquinas do bairro. É nesse ambiente de pobreza que hoje são criadas pouco mais de 1.000 crianças. Sem referências e oportunidades, quando chegam à adolescência o futuro parece estar definido: para os meninos, o crime; para as meninas, a prostituição.

Foi nesse cenário que Amanda Oliveira, hoje com 30 anos, foi criada. Nascida em uma favela na zona sul de São Paulo, com 3 meses de vida sofreu um acidente doméstico com água quente que a deixou com cicatrizes no rosto e na mão esquerda. Aos 7 anos, em busca de uma vida melhor, sua família se mudou para o Jardim Paraíso — e encontrou um ambiente ainda mais hostil. Além da violência no bairro, Amanda era vítima de bullying na escola. Com 12 anos, ela começou a ter aulas de música em um instituto social, o Ielar. “Foi ali que percebi que meu lugar era no palco. Eu não precisava mais me esconder.” Eram os primeiros passos da futura líder comunitária que, anos mais tarde, em 2017, fundaria o Instituto As Valquírias, organização não governamental que atende principalmente meninas com histórico de abuso sexual, físico ou emocional.

As dificuldades em gerir e buscar financiamento para a ONG mostraram que seria preciso encontrar novas formas de manter e ampliar a oferta dos serviços. Foi nesse momento que a realidade de Amanda se cruzou com a de Jorge Paulo Lemann, um dos homens mais ricos do Brasil. Em agosto de 2018, o Instituto As Valquírias inscreveu-se em um edital da rede Gerando Falcões, organização com foco no desenvolvimento das periferias, criada pelo empreendedor social Edu Lyra e financiada por investidores, entre eles Lemann.

A ONG foi uma das seis selecionadas para receber aporte financeiro, treinamento em gestão — com base nas práticas da cervejaria Ambev — e mentoria. “O que precisamos para nossas favelas é capacitar os líderes certos para enfrentar os mais diversos fatores externos da realidade da periferia, como a presença do crime organizado, a fome extrema, a violência policial e a doméstica”, diz Lyra.

O apoio efetivo ao Instituto As Valquírias começou em fevereiro de 2019 e, em dez meses, o número de famílias atendidas saltou de 140 para 1 139, zerando a fila de espera. Nesse período, a organização qualificou 400 pessoas para diferentes funções, como cabeleireiro e atendente de telemarketing (cerca de 30 já conseguiram emprego com carteira assinada). Uma das frentes para a arrecadação de fundos vem do grupo musical As Valquírias, que se apresenta em eventos Brasil afora. Para atrair mais famílias do bairro, uma vez por semana as meninas do grupo entram na favela tocando instrumentos de percussão, como EXAME presenciou ao visitar o Jardim Paraíso.

Os desafios estabelecidos para a ONG de Amanda fazem parte das metas da Gerando Falcões. Com contrato médio de quatro anos, os convênios focam a independência financeira das instituições apoiadas, por meio de padrinhos locais, jantares beneficentes e gestão dos recursos captados. “Esse não é um recurso assistencialista, que de tempos em tempos é preciso repetir, mas consiste de fato em uma transformação da realidade de milhares de pessoas”, diz Daniel Castanho, presidente do conselho do grupo de educação Ânima. Ao lado de Lemann, ele foi um dos primeiros investidores da Gerando Falcões, que também contou com aporte inicial de Flávio Augusto, fundador da rede de escola de idiomas Wise Up, e Carlos Wizard Martins, dono das lojas Mundo Verde e da marca Pizza Hut no Brasil.

Mas como um projeto de transformar as favelas brasileiras capturou a atenção desses investidores? Boa parte do sucesso do Gerando Falcões é resultado da trajetória e da obstinação de Edu Lyra. Criado na periferia de Poá, na Grande São Paulo, desde cedo ele se empenhou em mostrar que há mais opções para quem vive nas favelas. Ele mesmo cursou jornalismo por três anos, mas não chegou a se formar. Em 2012, escreveu o livro Jovens Falcões, que narra histórias de líderes de favelas do Brasil. Sem o interesse de editoras na publicação do livro, conseguiu convencer empresários e moradores de Poá a bancarem a impressão. Com a ajuda de voluntários, Lyra vendeu 5 000 cópias do livro. O dinheiro foi usado para criar a ONG.

Sua história chamou a atenção e ele foi escolhido pelo Fórum Econômico Mundial um dos 15 jovens brasileiros que poderiam mudar o mundo. “A caminho do Morumbi, onde o prêmio seria entregue, comecei a perceber quanto dinheiro tinha ali e que o mundo não era tão escasso quanto parecia”, diz. A cerimônia aconteceu na residência do casal Patrícia e Ricardo Villela Marino, herdeiro do banco Itaú, que embarcou no projeto e doou 100.000 reais.

Daí em diante, Lyra passou a acessar uma rede de contatos com potencial de se tornarem investidores permanentes. De ligação em ligação, ele conseguiu o e-mail de Paulo Lemann. Dois minutos depois de enviar uma mensagem com sua história, Lemann respondeu dizendo que gostaria de encontrá-lo pessoalmente. Além de fazer uma doação de 200.000 reais, o empresário apostou na expansão do projeto e enviou Lyra à Universidade Harvard para um curso de formação de lideranças. “Ele é impressionante e genuíno”, diz André Johannpeter, vice-presidente do Conselho de Administração da siderúrgica Gerdau e investidor recente da ONG.

Edu Lyra, fundador da ONG Gerando Falcões: ativismo social com técnicas de gestão | Leandro Fonseca

Com o apoio dos investidores, a Gerando Falcões profissionalizou-se. Hoje, a ONG utiliza uma metodologia de impacto criada pela consultoria Accenture, com metas e avaliações de rendimento. O modelo de gestão afiado ajudou na atração de outros investidores. “Fiquei impressionado com a qualidade do serviço, principalmente com a dedicação às crianças”, diz o médico José Luiz Setúbal, também acionista do Itaú e dono do Hospital Sabará, em São Paulo.

No final de novembro, um plano de expansão para 2020 foi aprovado com a chegada de novos investidores. Ao lado dos que já faziam parte, somaram recursos os empresários Elie Horn, presidente da construtora Cyrela; Rubens Menin, dono da construtora MRV; Ana Maria Diniz, presidente do Instituto Península; Marcus Sanchez, vice-presidente do laboratório EMS; Eugênio Mattar, presidente da locadora de veículos Localiza; Guilherme Benchimol, fundador da corretora XP Investimentos; e Thiago Oliveira, sócio da gestora Bossa Nova.

Elie Horn, da Cyrela: metas e transparência atraíram o empresário para o projeto | Germano Lüders

Os investidores não revelam os valores aportados, pois temem que os milhões envolvidos coloquem em risco as novas ONGs selecionadas. EXAME apurou que a nova rodada envolve dezenas de milhões de reais para garantir os próximos quatro anos de operação e a formação de 540 líderes de favelas, por meio da criação da Universidade da Liderança Social. A esses jovens serão ensinados gestão de métricas, captação de recursos, trabalho em rede, liderança, inovação social e habilidades emocionais.

Após o treinamento, 90 líderes de ONGs serão escolhidos para entrar para a rede Gerando Falcões. Eles receberão orientações para ampliar o desenvolvimento das comunidades e serão avaliados em quatro pilares: impacto social local, sustentabilidade financeira, gestão da unidade e desenvolvimento pessoal do líder. “Temos a obrigação de resolver os problemas das favelas, porque assim vamos ajudar a resolver os problemas do Brasil. É isso que o plano ataca, com uma proposta inteligente, com metas estabelecidas e prestação de contas transparente”, diz Elie Horn.

A expectativa é que, em até cinco anos, a Gerando Falcões esteja presente em 20% das quase 7.000 favelas que existem hoje no Brasil, nas quais vivem cerca de 14 milhões de pessoas. “As metas que colocamos são desafiadoras, mas só assim conseguiremos transformar nossa sociedade”, afirma Rubens Menin.

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A cruel realidade das periferias brasileiras, de tempos em tempos, reverbera para além de seus territórios, como aconteceu em 1o de dezembro, em Paraisópolis, segunda maior favela da capital paulista, quando nove jovens morreram numa ação da Polícia Militar em um baile funk. Lyra e os investidores querem reverter o estado de abandono das comunidades carentes, áreas que necessitam de políticas públicas mais assertivas. Eles querem provar que das periferias brasileiras podem sair talentos para agarrar as melhores oportunidades. Basta dar asas para que possam voar. 

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