O novo mito dos gregos

A ascensão de radicais ao poder na Grécia está longe de representar o que esperam militantes marxistas: uma ameaça ao capitalismo, cuja morte vem sendo prometida, sem resultado, desde 1929

São Paulo - A humanidade deve à Grécia algumas de suas lendas mais bonitas — os Doze Trabalhos de Hércules, Leda e o Cisne, as Asas de Ícaro e tantas outras que continuam a nos encantar 3 000 anos depois de ter sido contadas pelas primeiras vezes. Naturalmente, ninguém está no direito de esperar que os gregos possam produzir histórias assim nos dias de hoje.

Mas sempre podem, como outras sociedades, criar fantasias coletivas dentro e fora de seu país — e é precisamente isso que estão fazendo no momento com a promoção de mitologia econômica em estado puro. As lendas narradas aí, em comparação com os clássicos tão conhecidos por todos, são uma lástima em matéria de qualidade.

Saem Orfeu, Jasão ou Minotauro. Em seu lugar entram um primeiro-ministro descrito como militante da “esquerda radical” e uma manada cinzenta de burocratas europeus, banqueiros que fizeram maus empréstimos, políticos gregos que esperam tirar proveito da nova abordagem anunciada para a calamidade financeira que há anos degenera a vida pública e privada da Grécia.

Em vez de feitos heroicos, as novas lendas propõem reuniões com PowerPoint, chatíssimas, intermináveis e provavelmente inconclusivas. Os grandes enigmas da alma humana cedem lugar a rixas miseráveis em torno de calotes na praça. Estranhamente, porém, a mitologia grega versão 2015 consegue ser levada a sério por muita gente. É o que a transforma em piada.

Em todo o tumulto mental levantado pela recente chegada dos “radicais de esquerda” ao governo da Grécia, nada é mais cômico do que a extraordinária ideia segundo a qual o mundo está às vésperas de um abalo, talvez mortal, no sistema capitalista.

Como o novo governo grego se propõe a descumprir os acordos de higienização financeira que firmou com as autoridades monetárias internacionais, a partir de 2008, para gerir o abismo em suas contas públicas, a esquerda econômica e seus companheiros de percurso pelo mundo afora passaram a sonhar com a breve chegada de uma crise que mudará de alto a baixo a economia mundial.

A morte do capitalismo vem sendo prometida desde 1929, pelo menos, até agora sem resultado algum — hoje, quase 90 anos depois, os fatos mais relevantes na vida econômica real são a reafirmação dos Estados Unidos, mais uma vez, como a turbina mestra do crescimento no planeta Terra, e o inexorável avanço da China como a pátria promotora do capitalismo selvagem.

Mas a militância econômica da esquerda continua a imaginar que um episódio de periferia, como o tumulto grego, possa de repente mudar tudo — quem sabe a coisa vai desta vez? No Brasil, particularmente, a torcida anticapital bota fé nos poderes revolucionários que acredita ter descoberto em Atenas.

Sonha com a transformação da Grécia numa nova Venezuela, seu grande (e praticamente único) modelo alternativo para o sistema todo que “está aí”. Em seu modo de ver o mundo, um regime econômico cujo principal feito, em dez anos de prática, foi produzir a falta de papel higiênico está mostrando o caminho a seguir pelos gregos e, depois, pelo resto da humanidade.

Falta combinar com os gregos, é claro, mas quem se importa com esses detalhes? O diabo é que os detalhes, como em geral acontece, são tudo. O novo governo da Grécia quer se livrar de obrigações destinadas a limitar seus gastos, cuja aplicação tem causado todo tipo de sofrimento social.

Mas, por mais radicalismo que coloque em seus discursos, sabe que o país precisa montar algum tipo de entendimento com a Europa e o mundo que tem em volta — e isso não tem nada a ver com a fantasia de eliminar o capitalismo.

Mais ainda, é preciso admitir a realidade de que um país como a Grécia, com população menor do que a do estado do Paraná e peso próximo a zero na economia global, não tem cacife, simplesmente, para revolucionar o mundo e mudar o regime dos cerca de 200 países que atualmente lhe fazem companhia na superfície terrestre. Como dito acima, é pura mitologia — e agora sem graça nenhuma.

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