Nath Finanças, Nath Arcuri e Carol Paiffer: 1 milhão de mulheres na bolsa

Educadoras financeiras e influenciadoras contribuem para a inclusão de mulheres na bolsa e fazem parte da transformação do mercado, cada vez mais diverso e rico

Nathália Rodrigues, de 22 anos, é uma das educadoras de finanças mais influentes do país. Mas passou a investir na renda variável apenas no início de 2020. “Eu me achava conservadora.” Até então, Nath Finanças, como é conhecida, investia somente em renda fixa, no Tesouro Direto e em CDB, LCI e LCA. O motivo? Falta de conhecimento sobre o assunto, conta. Mas ela resolveu estudar sobre investimentos e pediu orientação para Louise Barsi, analista e também investidora. O primeiro papel comprado foi da Oi.

“Eu investi 50 reais para saber como era.” Meses depois, as ações valorizaram e a jovem viu uma oportunidade de ampliar o capital em renda variável. Com o receio inicial superado, a influenciadora resolveu montar uma carteira de ações focada no longo prazo e no pagamento de dividendos. “Todo mundo está estudando. Demorei anos para investir na bolsa. Se não sentar e estudar, você vai perder dinheiro”, diz Nath Finanças sobre o impacto da educação financeira em sua vida.

Nath Finanças: estreia na bolsa só depois de muito estudo

Nath Finanças: estreia na bolsa só depois de muito estudo (Leo Aversa/Exame)

Nathália Rodrigues é apenas um exemplo entre milhares de mulheres investidoras que buscaram conhecimento e entraram na bolsa nos últimos cinco anos. O público feminino que aplica em produtos de renda variável negociados na B3, sejam ações, BDRs (os recibos de ações de empresas listadas no exterior), ETFs (os fundos que seguem índices), sejam fundos imobiliários, saiu de uma base de 100.000 em junho de 2016 para 1 milhão no mês passado. Já representa 30% do mercado. Mulheres entre 18 e 25 anos, como Nath Finanças, simbolizam o movimento: eram menos de 2.000 e hoje são mais de 100.000. 

É uma mudança geracional impulsionada pela digitalização da jornada do conhecimento financeiro e do investimento, além dos juros mais baixos da história do país. “Com muito mais informações sobre o tema disponíveis, as mulheres mais jovens já entenderam que é possível começar a investir com pouco”, diz Felipe Paiva, diretor de relacionamento com clientes da B3.

“Existe um movimento forte e consistente de incentivar e representar as mulheres no mercado financeiro, seja como investidoras, seja no campo profissional. Muitos conteúdos feitos por elas e para elas são oferecidos. É natural esperar que esses números sigam evoluindo”, diz.

Veja também: Mulheres só investem mais do que os homens na poupança

É um processo gradual de reequilíbrio de gênero e de diversidade com ganhos para todo o mercado. A riqueza de pontos de vista favorece tomadas de decisão melhores sobre a alocação do capital, com um equilíbrio maior entre risco e retorno. “As mulheres possuem um olhar complementar, que agrega valor ao negócio. E sabemos que, quanto mais diversa é uma empresa, maior o público que ela é capaz de atingir”, diz Mariana Oiticica, head de investimento de impacto e ESG do BTG Pactual.

O banco promove há quatro anos o programa Inside, que oferece mentoria a jovens interessadas pelo mercado financeiro. Neste ano, o BTG (do mesmo grupo que controla a EXAME) começou a promover cursos sobre investimentos para clientes com uma linguagem simplificada, sem jargões. “A mulher fica mais tímida quando está em minoria em um ambiente. Queremos dar um espaço no qual ela possa fazer perguntas sem ficar constrangida”, afirma.

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 (Arte/Exame)

Como o mercado financeiro foi, por muito tempo, um território quase exclusivamente masculino, dispor de mulheres que ajudem na inclusão de seus pares é um passo importante para ampliar a representação. É um movimento que ganha força quando o tema é educação financeira. Um estudo recém-concluído pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) identificou 35 influenciadoras femininas que conseguem conciliar audiência ampla, engajamento dos seguidores e publicar conteúdo regularmente sobre educação financeira e investimento.

Elas atingem um público somado de cerca de 25 milhões de pessoas. Em alguns casos, essas mulheres já superam influenciadores conhecidos em popularidade e engajamento em três redes: YouTube, Instagram e Twitter. As líderes são Nath Finanças, Carol Dias e Nathalia Arcuri, fundadora da plataforma de educação financeira Me Poupe!. 

Arcuri, que tem hoje 5,7 milhões de seguidores em seu principal canal, o YouTube, testemunhou de perto a evolução da presença feminina no consumo de conteúdo sobre finanças e investimentos. No início do seu canal, em 2015, a maioria do público era masculina. Em 2017 os dois públicos se igualaram e, a partir de 2018, as mulheres se tornaram maioria entre seus seguidores (de 57% a 66%, conforme a rede social). “Não é que o público masculino tenha diminuído, mas as mulheres entraram com mais força.

Não fiz mudanças no meu conteúdo, mas elas foram atraídas porque uso minha história para conectar.” Para Arcuri, a educação financeira feminina é importante porque pode libertar a mulher de ciclos históricos de violência e abuso. “Tenho várias alunas [82% do público de seus cursos são mulheres] que se libertaram de relacionamentos abusivos quando aprenderam a controlar as finanças.”

Carol Paiffer, CEO da Atom: “O mercado é meritocrático e premia quem estuda”

Carol Paiffer, CEO da Atom: “O mercado é meritocrático e premia quem estuda” (Germano Lüders/Exame)

Um dos desafios nessa jornada pelo mundo da educação financeira é ampliar o conteúdo voltado para todas as etapas do investimento. O funil se estreita à medida que cresce a especialização. Enquanto as mulheres representam 34% dos produtores de conteúdo, somam 16,4% dos analistas e 3,1% dos investidores classificados como traders, especializados na negociação diária de ações e contratos.

Uma das mais conhecidas é Carol Paiffer, presidente da Atom, empresa de educação financeira (e investida pela EXAME). Trader há 16 anos, ela ensina outras mulheres nessa estratégia de negociação. Paiffer lidera o projeto Investidoras aos Milhões, que reúne especialistas para estimular novas entrantes na bolsa. “A primeira meta era bater 1 milhão. Agora temos de chegar a 2 milhões ou mais.”

Trabalhar no mercado não foi sua primeira opção. Ela queria cursar moda, mas se preocupava com as finanças da futura empresa. “Fui estudar administração e conheci a bolsa. Entendi que, quanto mais eu estudasse, mais dinheiro eu poderia ganhar. O mercado é meritocrático.” Entre os alunos da Atom, 40% são mulheres. 

As iniciativas para ampliar a presença feminina no mercado se multiplicam também no campo profissional. A Quasar é uma das gestoras que buscam mudar esse jogo: atualmente 30% dos profissionais são mulheres. “Temos funcionárias em diversas posições, da liderança à gestão de fundos. Acreditamos que ter mais mulheres faça diferença na qualidade do trabalho, além de atrair investimentos, pois a empresa demonstra que se preocupa com um fator social”, diz Fernanda Franco, co-CEO da Quasar.

A atração de talentos femininos para carreiras no mercado é um dos principais desafios relatados por Carolina Cavenaghi, que criou a Fin4She para fomentar a participação das mulheres no segmento e relata um interesse crescente de bancos e gestoras. Ela diz que o mercado precisa ser desmistificado. “As mulheres que preferem uma carreira com maior equilíbrio com a vida pessoal também encontram cargos adequados nas instituições financeiras.” Casos assim são reflexo de um mercado que se desenvolve e cria oportunidades em busca de melhores práticas sustentáveis e sociais.

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