“O Brasil não está barato”, diz Larry Fink

Acabou a época do dinheiro fácil na bolsa brasileira, diz o maior gestor do mundo

Um Larry Fink levemente gripado recebeu EXAME em uma sala de reuniões na sede do BlackRock, em Manhattan, numa terça-feira após um feriado em meados de janeiro. Segurando um copo de café da Starbucks e usando abotoaduras de joa­ninha que combinavam com sua gravata vermelha, o maior gestor de recursos do mundo falou animadamente durante 50 minutos. A conversa foi interrompida uma vez: sua secretária o avisava de que uma autoridade do Tesouro americano estava ao telefone. Fink, um dos homens de Wall Street mais ouvidos pela administração Barack Obama, pediu que dissesse que ligaria de volta na sequência. Leia a seguir os principais trechos da entrevista.

EXAME - Há quem diga que essa crise recente amedrontou os investidores profundamente, muito mais que outras no passado. O senhor concorda?

Larry Fink - Sem dúvida. Há uma combinação de dois fatores. Primeiro, a população das economias desenvolvidas está envelhecendo e, portanto, há menos necessidade de que as pessoas comprem ações. Há inclusive quem diga que nesses países as pessoas de idade têm ações demais. Logo, estaríamos assistindo a um reequilíbrio das carteiras. Investidores mais velhos estão trocando ações por títulos de renda fixa. Além disso, as baixas nos mercados de ações, que em muitos casos significam retorno zero em um prazo de dez anos, levam muita gente a evitar a bolsa. Mas um dos motivos que me levam a gostar de ações é que muita gente jovem ainda não investe suficientemente nessa alternativa.

EXAME - Como o senhor compara as ações de empresas americanas, ou de países desenvolvidos, com as dos países emergentes?

Larry Fink - Todas as ações me interessam. Invisto em lugares diferentes por razões diferentes. Posso comprar papéis de uma grande multinacional americana que tem apenas 20% ou 30% de sua receita no mundo desenvolvido. Se você quer fazer um investimento mais conservador nos países emergentes, pode comprar ações da GE, da Monsanto ou da Caterpillar. São companhias que crescem com esses mercados. A China precisa de motores de avião, o Brasil precisa de tratores. É possível se beneficiar desse crescimento emergente por meio dessas grandes multinacionais.

EXAME - O senhor acredita que exista competição entre os principais países emergentes pelo dinheiro dos investidores globais? Como o senhor avalia a posição do Brasil nessa disputa?

Larry Fink - Nós adoramos o Brasil e temos investimentos importantes no país. Mas as ações brasileiras não estão mais baratas. Gostamos do dinamismo da economia. O valor das empresas reflete a força econômica do país. Mas eu diria que, se houver algum tropeço com o novo governo, por exemplo, a queda pode ser grande. Investir no Brasil atualmente não é tão fácil como há três ou quatro anos.


EXAME - O que o senhor quer dizer com fácil?

Larry Fink - As empresas estavam muito baratas. Hoje eu diria que elas estão num preço justo. Isso não quer dizer que elas não possam valorizar outros 30%. Mas tudo tem de funcionar direito para que isso aconteça. A dinâmica atual do Brasil precisa ser mantida. E acreditamos que ela será. Mas eu recomendo precaução. Isso não é algo ruim, significa apenas que é preciso ter mais cuidado. Acreditamos que, no momento, as empresas da Colômbia estejam num preço mais atraente.

EXAME - Há algum setor em especial que desperte seu interesse pelo Brasil?

Larry Fink - Acho que há foco excessivo no setor de energia. Não espero uma crise energética tão cedo. Certamente não durante a minha vida. Uma área que me preocupa bem mais é a agricultura. Com o crescimento da parcela da população que passa de uma situação de pobreza para o que consideramos classe média, no Brasil, na China, e assim por diante, há uma mudança na quantidade e na qualidade da alimentação. Quanto mais dinheiro você tem, mais você come. E come melhor. Ao mesmo tempo, as áreas cultiváveis estão diminuindo. Para mim, no longo prazo, a agricultura é um componente muito importante em uma estratégia global de investimentos. É por isso que eu adoro empresas como a Monsanto e a Caterpillar e países como o Brasil, um dos grandes produtores de alimentos no mundo. O Brasil também tem uma nova classe média, o que significa um mercado interno próspero. Investir em companhias que participem desse crescimento será um bom negócio. Acredito que os exportadores são grande parte do sucesso do país, mas a próxima fase de expansão estará ligada às empresas que atendam essa nova massa de consumidores.

EXAME - Com relação ao real: o governo brasileiro tem sido pressionado pelas empresas exportadoras para conter a valorização da moeda. Qual é sua opinião a esse respeito?

Larry Fink - Minha resposta é: as companhias brasileiras precisam ser mais eficientes. Veja o exemplo alemão. Por que a Alemanha tem tanto sucesso? Desde a reunificação, há 20 anos, toda a indústria alemã se reestruturou. Nos últimos tempos, as empresas brasileiras se aproveitaram de um real desvalorizado, e agora elas precisam de eficiência, especialmente se quiserem continuar crescendo no cenário mundial. Isso não significa que a alta do real não cause desequilíbrios no curto prazo: sim, ela causa problemas.

EXAME - E com relação ao iuane chinês? O senhor acredita que a valorização recente foi suficiente?

Larry Fink - A China ainda tem questões muito importantes a resolver. São centenas de milhões de pessoas que vivem em condições que consideramos longe das ideais. É preciso aumentar o tamanho da classe média, elevar o padrão de vida de uma parcela enorme da população. Os chineses precisam de mais empregos nas fábricas. Mas criar empregos é o papel de qualquer governo, seja o da liderança chinesa, seja o do presidente Obama. A atual tensão entre a China e os Estados Unidos é essencialmente sobre empregos. Estamos todos tentando criar empregos. Esse é o grande problema.

EXAME - É uma guerra?

Larry Fink - Sim, é uma espécie de guerra. Quando a Europa e os Estados Unidos iam bem e tinham baixo desemprego, ter um real ou um iuane desvalorizado não era visto como um problema. Mas agora, com taxas de desemprego tão altas, o impacto é grande.


EXAME - Qual é sua opinião sobre a recuperação da economia americana?

Larry Fink - Estávamos muito otimistas em 2010, pois o mercado estava em baixa e havia grandes oportunidades de crescimento. Neste ano, acredito que também possamos ter alta na bolsa americana, algo como 12% ou 14%. A economia se estabilizou e fez grandes progressos. Mas ainda há muitos problemas para resolver. Temos 4 milhões de casas à procura de um comprador. É um avanço em relação aos 8 milhões do começo da crise do crédito, mas ainda há muito a fazer. Também temos de resolver a questão dos déficits nos governos locais. A solução passará por mais demissões na administração pública. Ou seja, os governos vão acabar contribuindo para aumentar as taxas de desemprego.

EXAME - O senhor acredita nas perspectivas de longo prazo da existência do euro?

Larry Fink - Eu diria que a chance de o euro fracassar é de 10%, talvez menos que isso, 5%. Mas estou preocupado com a Europa. Será preciso haver uma ajuda mais coordenada. Sei que os reguladores são contra algum tipo de sistema europeu de empréstimos. Estive na Europa recentemente com muitos dos grandes reguladores e supervisores de bancos europeus. É difícil obter consenso. E isso me preocupa.

EXAME - O senhor mencionou numa entrevista recente que é preciso ter talento para investir. Que tipo de talento?

Larry Fink - Investir exige disciplina. É necessário ter uma visão macro do mundo. Sem isso é muito difícil investir. Pode ser uma visão de cinco anos. Se você acredita que o mundo estará melhor em cinco anos, isso significa que você pode investir em ações. E para isso é preciso analisar as empresas ou as regiões de baixo para cima. Também é necessário criar processos e entender padrões, além de testar suas análises o tempo todo. É fundamental se perguntar: “Será que as minhas premissas ainda estão corretas?”

EXAME - Se o senhor tivesse de apontar uma característica que o tornou tão bem-sucedido, qual seria ela? A disciplina ou essa espécie de paranoia?

Larry Fink - Sem dúvida, sou tão paranoico hoje como era 30, 40 anos atrás. Mas não basta ser paranoico. É preciso trabalhar duro também.

EXAME - Qual é a diferença entre gerenciar 1 bilhão e 3 trilhões de dólares?

Larry Fink - Não é o montante que torna o trabalho mais difícil. O que é difícil é a atual natureza dos investimentos. É uma atividade global. Para ser um bom investidor, seja com 1 bilhão de dólares, seja com 3 trilhões, é preciso saber o que está acontecendo no Brasil, na China, nos Estados Unidos, no Canadá... É preciso entender que a dinâmica da economia agora é mundial. Se algo acontece hoje no México, pode haver algum impacto aqui nos Estados Unidos. Há 20 anos, era fácil investir — não havia tantas interconexões.

EXAME - Se o senhor tivesse de fazer uma recomendação para um investidor comum, qual seria?

Larry Fink - Compre ações de empresas ligadas ao setor agrícola, de todo e qualquer tipo. Coloque esses papéis numa gaveta. Não se abale com as notícias sobre a economia. Vá curtir a vida por dez anos e abra a gaveta depois disso. Prometo que você terá um bom retorno.

Obrigado por ler a EXAME! Que tal se tornar assinante?


Tenha acesso ilimitado ao melhor conteúdo de seu dia. Em poucos minutos, você cria sua conta e continua lendo esta matéria. Vamos lá?


Falta pouco para você liberar seu acesso.

exame digital

R$ 12,90/mês
  • Acesse onde e quando quiser.

  • Acesso ilimitado a conteúdos exclusivos sobre macroeconomia, mercados, carreira, empreendedorismo, tecnologia e finanças.
Assine

exame digital + impressa

R$ 29,90/mês
  • Acesse onde e quando quiser

  • Acesso ilimitado a conteúdos exclusivos sobre macroeconomia, mercados, carreira, empreendedorismo, tecnologia e finanças.

  • Edição impressa mensal.

  • Frete grátis
Assine

Já é assinante? Entre aqui.