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Por que seria uma boa ideia cobrar impostos sobre a renda do trabalho de robôs?

Pode ser desejável, como Bill Gates sugeriu certa vez, cobrar impostos sobre a renda do trabalho de robôs, assim como os países cobram impostos sobre a renda do trabalho humano

Os robôs não estão mais chegando — eles já estão entre nós. A pandemia de covid-19 está acelerando a disseminação da inteligência artificial, mas poucos consideraram completamente as consequências de curto e longo prazo. Ao pensar sobre inteligência artificial, é natural partir da perspectiva da economia do bem-estar — produtividade e distribuição. Quais são os efeitos econômicos dos robôs que podem replicar o trabalho humano? Essas preocupações não são novas. No século 19, muitos temiam que novas inovações mecânicas e industriais “substituiriam” os trabalhadores. As mesmas preocupações estão ecoando hoje.

Considere um modelo de economia nacional em que o trabalho realizado por robôs coincida com o realizado por humanos. O volume total de trabalho — robótico e humano — refletirá o número de trabalhadores humanos, H, mais o número de robôs, R. Aqui, os robôs são aditivos — eles aumentam a força de trabalho, em vez de multiplicar a produtividade humana. Para completar o modelo da maneira mais simples, suponha que a economia tenha apenas um setor e que a produção agregada seja produzida pelo capital e pelo trabalho total, humano e robótico. Essa produção abastece o consumo do país, com o restante indo para o investimento, aumentando assim o estoque de capital.

Qual é o impacto econômico inicial quando esses robôs aditivos chegam? A economia elementar mostra que um aumento no trabalho total em relação ao capital inicial — uma queda na razão capital-trabalho — faz com que os salários caiam e os lucros aumentem.

Há três pontos a acrescentar. Primeiro, os resultados seriam ampliados se os robôs aditivos fossem criados a partir de bens de capital reformados. Isso produziria o mesmo aumento no trabalho total, com uma redução proporcional no estoque de capital, mas a queda­ da taxa de salários e o aumento da taxa de lucros seriam maiores.

Em segundo lugar, nada mudaria se adotássemos o quadro de dois setores da Escola Austría­ca, em que o trabalho produz o bem de capital e o bem de capital produz o bem de consumo. A chegada de robôs à linha de produção ainda diminuiria a razão capital-trabalho, como aconteceu no cenário de um setor.

Terceiro, há um paralelo notável entre os robôs aditivos desse modelo e os imigrantes recém-chegados no que se refere ao seu impacto sobre os trabalhadores nativos. Ao empurrar para baixo a proporção capital-trabalho, os imigrantes também causam inicialmente a queda dos salários e o aumento dos lucros. Mas é preciso notar que, com a taxa de lucro elevada, a taxa de investimento aumentará. Devido à lei dos rendimentos decrescentes, esse investimento adicional reduzirá a taxa de lucro até que volte ao normal. Nesse ponto, a relação capital-trabalho estará de volta onde estava antes da chegada dos robôs, e a taxa de salários será puxada de volta para cima.

Temores exagerados

Certamente, o público em geral tende a supor que a “robotização” (e a automação em geral) leva ao desaparecimento permanente dos empregos e, portanto, à “miséria” da classe trabalhadora. Mas esses temores são exagerados. Os dois modelos descritos acima desconsideram o conhecido progresso tecnológico que aumenta a produtividade e os salários, tornando razoável prever que a economia global sustentará algum nível de crescimento na produtividade do trabalho e na remuneração por trabalhador

É verdade que a robotização sustentada deixaria os salários em um patamar mais baixo, o que criaria problemas sociais e políticos. Pode ser desejável, como Bill Gates sugeriu certa vez, cobrar impostos sobre a renda do trabalho de robôs, assim como os países cobram impostos sobre a renda do trabalho humano. Essa ideia merece consideração cuidadosa. Mas os temores de robotização prolongada parecem irrea­listas. Se o trabalho robótico aumentasse em um ritmo constante, ele atingiria os limites do espaço, da atmosfera e assim por diante.

Além disso, a inteligência artificial trouxe não apenas robôs “aditivos” mas também robôs “multiplicativos”, que aumentam a produtividade dos trabalhadores. Alguns robôs multiplicativos permitem que as pessoas trabalhem com mais rapidez ou eficiência (como na cirurgia assistida por inteligência artificial), enquanto outros ajudam as pessoas a executar tarefas que de outra forma não poderiam realizar.

Robôs para montagem de carros: eles aumentam a produtividade, mas têm seus problemas

Robôs para montagem de carros: eles aumentam a produtividade, mas têm seus problemas (Gao Yuwen/VCG/Getty Images)

A chegada de robôs multiplicativos não precisa necessariamente levar a uma longa recessão de empregos e salários agregados. No entanto, como robôs aditivos, eles têm suas “desvantagens”. Muitos aplicativos de inteligência artificial não são totalmente seguros. Um exemplo óbvio são os carros autônomos, que podem (e têm) colidir com pedestres ou com outros carros. Mas, é claro, os motoristas humanos também fazem isso.

Uma sociedade não está errada, em princípio, por implantar robôs que estão sujeitos a erros ocasionais, assim como toleramos pilotos de avião que não são perfeitos. Devemos julgar custos e benefícios. Para maior eficiência, as pessoas­ deveriam ter o direito de processar os proprietários dos robôs por danos. Inevitavelmente, a sociedade se sentirá desconfortável com novos métodos que introduzem “incerteza”.

Do ponto de vista da ética, a interface com a inteligência artificial envolve informações “imperfeitas” e “assimétricas”. Como diz a cientista da computação Wendy Hall, da Universidade de Southampton, ampliando um comentário de Nicholas Beale, presidente da empresa Sciteb: “Não podemos confiar nos sistemas de inteligência artificial para agir de forma ética simplesmente pelo fato de seus objetivos parecerem eticamente neutros”.

Na verdade, alguns novos dispositivos podem causar danos graves. Chips implantáveis para aprimoramento cognitivo, por exemplo, podem causar danos irreversíveis aos tecidos do cérebro. A questão, então, é se podemos instituir leis e procedimentos para proteger as pessoas de um grau razoá­vel de dano. Independentemente disso, muita gente está pressionando as empresas do Vale do Silício para estabelecer seus próprios “comitês de ética”.

Tudo isso me lembra das críticas feitas às inovações ao longo da história do capitalismo de livre mercado. Uma dessas críticas, o livro Gemeinschaft und Gesellschaft (“Comunidade e Sociedade”), do sociólogo Ferdinand Tönnies, acabou se tornando influente na Alemanha na década de 1920 e levou ao “corporativismo” que surgiu lá e na Itália no período entre guerras — encerrando assim a economia de mercado naqueles países.

Claramente, a forma como abordamos os problemas levantados pela inteligência artificial terá grandes implicações. Mas elas ainda não estão presentes em larga escala e não são a principal causa da insatisfação e da polarização resultante que se apoderou do Ocidente. 

 

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