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Melhor e mais barato na Natura

Ao aplicar critérios sociais e ambientais na escolha de seus fornecedores, a Natura concilia sustentabilidade e custos mais baixos

Os fornecedores Villas (à esq.) e Izzo: seis meses de preparação (Kiko Ferrite/EXAME.com)

Os fornecedores Villas (à esq.) e Izzo: seis meses de preparação (Kiko Ferrite/EXAME.com)

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Tatiana Vaz

28 de outubro de 2011, 09h38

São Paulo - Preço costuma ser o mais delicado dos temas que envolvem a relação entre clientes e fornecedores. Quem compra procura gastar menos. Quem vende, ganhar mais. Chegar ao ponto de equilíbrio foi a essência dessa negociação até que outros aspectos — a sustentabilidade, entre eles — passaram a ser colocados na mesa.

Analise o caso da Natura, maior fabricante de cosméticos do país­. Desde janeiro deste ano, antes de fechar qualquer compra, seus executivos passaram a avaliar o fornecedor de acordo com sete indicadores socioambientais, como consumo de água, emissão de carbono e índice de acidentes.

O novo processo começou com a análise de 60 fornecedores de produtos — 50 antigos e dez novatos — que produzem sabonetes e embalagens e respondem por encomendas de 1,2 bilhão de reais por ano.

Em julho, após seis meses de análise, os contratos foram fechados, com o compromisso dos fornecedores de melhorar seus índices anualmente, de acordo com metas individuais acordadas entre as partes.

O resultado já é visível: uma redução de custos de 101 milhões de reais para a Natura e um avanço de 4% dos indicadores socioambientais dos fornecedores, porcentagem que deve triplicar nos próximos três anos. “Nessa nova lógica, o menor preço ainda é fundamental, mas não basta”, diz João Paulo Ferreira, vice-presidente de operações e logística da Natura.

Transição

A inclusão de novos critérios para a escolha dos fornecedores é o segundo grande passo de um movimento que a Natura iniciou há cinco anos. Em 2006, a empresa passou a cobrar de sua cadeia de fornecimento o envio de relatórios trimestrais com dados socioambientais.

As informações são usadas como base para a gestão de metas globais da Natura, que envolvem, entre outros aspectos, a redução da emissão de carbono em 33% até 2013. (Até 2010, 21% desse compromisso havia sido atingido.)


Agora, para transformar essas informações em critérios de contratação — ou até de exclusão — dos fornecedores foi preciso transformá-las em algo comparável em indústrias diferentes. No caso de segurança dos funcionários, por exemplo, a Natura passou a considerar quanto o fornecedor gera de impacto para a sociedade ao evitar acidentes de trabalho.

Com base em dados de instituições como IBGE e Ministério da Previdência Social, chegou-se ao cálculo de que cada mês de afastamento de um empregado custa, em média, 10 724 reais para empresas e governo. “O sistema é uma forma prática de quantificar iniciativas dos fornecedores e reconhecê-los por isso”, afirma Markus Striker, vice-presidente da consultoria A.T. Kearney.

Para a transição, em agosto do ano passado 50 fornecedores foram reunidos pela Natura em um hotel em São Paulo. Durante dois dias, eles foram informados sobre os novos critérios e como poderiam melhorar seus indicadores dali por diante.

Na ocasião, a Natura também anunciou que novos fornecedores seriam chamados e os pedidos, divididos — de modo a estimular a concorrência entre eles. Em novembro, esses novatos passaram a ser contatados.

“Queríamos que nossos antigos parceiros melhorassem preços e indicadores para entrar na disputa”, diz Ricardo Faucon, diretor de suprimentos da Natura. A subsidiária brasileira da mexicana Vitro, fornecedora de frascos para a Natura desde 2006, conseguiu quintuplicar suas vendas mesmo com a chegada de novos competidores.

Contou pontos o fato de sua emissão de carbono ser cerca de 20% menor que a média dos demais fornecedores. “Já estávamos organizados para operar de maneira eficiente e fomos premiados por isso”, diz Paulo Villas, representante da Vitro no Brasil.

Juntamente com as encomendas, a Vitro levou uma lição para casa: terá de melhorar outros indicadores socioambientais, como o de segurança do trabalho. A partir de setembro, a empresa fará avaliação médica anual dos 2 000 funcionários da fábrica no México, onde são produzidos os itens vendidos para a Natura. Antes, a avaliação não era feita com regularidade.


O novo sistema de compras abriu espaço para que dez novos fornecedores fossem contratados pela Natura. Entre eles está a América Tampas, fabricante paulista de tampas para embalagens de plástico, que batia na porta da empresa de cosméticos — sem sucesso — havia três anos.

Em novembro, seus executivos foram convidados a participar do processo de seleção que levaria em conta os indicadores socioambientais. “Durante seis meses, apenas fornecemos informações”, diz Alfredo Ramenzoni Izzo, diretor da América Tampas. “Mas não sabíamos se seríamos ou não contratados.”

Deu certo — em agosto, a empresa fechou um contrato de dois anos com a Natura. Durante esse perío­do, terá de melhorar indicadores como consumo de água e de energia. 

Há poucas semanas a Natura deu início a uma nova etapa no processo de seleção. Desta vez os escolhidos foram cerca de 100 fornecedores de itens usados na linha de produção — entre eles, materiais químicos e válvulas. A seleção deve ser concluída no primeiro semestre do ano que vem.

O passo seguinte será estender, até o fim de 2012, os novos critérios de compras dos demais 130 fornecedores ligados à fabricação de produtos. A partir daí, o sistema será levado para a escolha e manutenção de 4 000 prestadores de serviços, como logística e marketing.