Lucro consciente: a aposta para proteger a reputação e conquistar clientes

As empresas encontram na responsabilidade social e ambiental uma forma de proteger a reputação e conquistar consumidores e investidores

A agenda ESG, que traz as práticas ambientais, sociais e de governança de um negócio, tem ganhado cada vez mais visibilidade no mundo corporativo. Não é à toa. O cuidado com aspectos que tornem as operações mais sustentáveis é um reflexo não apenas da mudança de perspectiva das empresas — cada vez mais atentas ao tema — como também de consumidores ávidos por mais transparência e pela defesa de causas que sejam abraçadas de forma realmente genuína. O tema também se tornou critério para a tomada de decisão de investidores, uma vez que empresas responsáveis correm menos riscos de ter sua reputação abalada. 

Índices ligados a critérios ESG da B3 têm alcançado melhor desempenho do que o Ibovespa ao longo dos anos. O Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE B3), por exemplo, tem uma performance acumulada, desde sua criação, em novembro de 2005, até o final de fevereiro deste ano, de 284% — acima dos 244% acumulados pelo Ibovespa no mesmo período. “Isso reforça nossa visão de que o bom gerenciamento das companhias e a atenção às práticas ESG geram uma empresa mais eficiente e com bons indicadores”, afirma Ana Buchaim, diretora de pessoas, marketing, comunicação e sustentabilidade da B3.

Até o final de fevereiro deste ano, outros índices da B3 ligados à agenda ESG apresentam resultados semelhantes. É o caso do Índice Carbono Eficiente (ICO2 B3), que registrou uma performance acumulada, desde sua criação, em agosto de 2010, de 128% (bem acima dos 69% do Ibovespa no mesmo perío­do), e do Índice de Governança Corporativa Trade (IGCT B3), que desde dezembro de 2005 registrou uma performance de 436% (acima dos 256% do Ibovespa). 

Para Ed Morata, fundador da ForFuturing, consultoria global que incentiva as empresas a seguir uma agenda ESG, ao considerar a implantação de ações de governança ambiental, social e corporativa, as companhias se tornam mais resilientes e com melhores resultados no curto e no médio prazo. Esse fator, segundo ele, tem levado a uma mudança de comportamento por parte dos investidores. “Essa resiliência decorre de fatores como a melhor gestão de riscos do negócio e o aumento da chance de aproveitar novas oportunidades quando se tem um entendimento mais amplo do entorno social e de governança”, afirma.

 

 

Negócios sustentáveis

Grandes corporações também vêm, pouco a pouco, ampliando suas agendas ESG. No ano passado, por exemplo, a Camil Alimentos montou dois comitês de ESG: um que responde ao conselho de administração e outro para disseminar as ações em toda a empresa. Entre as ações implementadas está a inclusão de indicadores ESG na remuneração variável de toda a diretoria. “Cada diretor tem uma meta específica relacionada a uma agenda ESG de sua competência. Acreditamos que essa é uma forma de ganhar velocidade e disseminar a cultura por toda a companhia”, diz Luciano Quartiero, diretor-presidente da empresa.

A Arcos Dorados, dona do McDonald’s, também atrelou a remuneração de seus executivos a indicadores ESG. Para o primeiro ano do indicador, a empresa elegeu dois temas: um relacionado à empregabilidade e outro à ética e à responsabilidade. Ambos serão medidos por meio de pesquisas internas que identifiquem a saúde da marca perante os diferentes públicos, sobretudo o consumidor final. “Precisamos que a liderança tenha esses conceitos claros no dia a dia de trabalho e os incorpore em tudo que fazemos”, afirma Paulo Camargo, presidente da divisão Brasil da Arcos Dorados.

Os exemplos não param por aí. O GPA, dono das redes varejistas Extra e Pão de Açúcar, seguiu na mesma linha e, recentemente, vinculou as metas de redução de emissões de carbono — monitoradas pela companhia desde 2010 — à remuneração variável dos executivos. “Isso reforça nosso compromisso no longo prazo e garante aos consumidores e fornecedores o compromisso total de todos da companhia com as políticas mais sustentáveis e inclusivas”, afirma Mirella Gomiero, diretora executiva de recursos humanos, serviços e sustentabilidade do GPA.

 

 

Também compõe a remuneração variável dos gestores o indicador de presença feminina na liderança. A meta do GPA é chegar a 2025 com 38% dos cargos de liderança ocupados por mulheres. Outro desafio do grupo é viabilizar a comercialização de 100% de ovos provenientes de criação de galinhas sem gaiolas até 2025 para as marcas Qualitá e Taeq e, até 2028, para 100% dos ovos das demais marcas comercializadas no Extra, no Compre Bem e no Pão de Açúcar. 

Assim como o GPA, a construtora MRV faz parte do ISE B3, índice que tem como prerrogativa apoiar investimentos socialmente responsáveis e induzir as empresas a adotar as melhores práticas de sustentabilidade empresarial. Para fazer jus ao reconhecimento, a construtora assinou, em março deste ano, um compromisso ao lado de outras 15 empresas para que os participantes de sua cadeia de valor sigam o mesmo padrão imposto para os colaboradores diretos da companhia. “É uma questão de responsabilidade com a sociedade na qual a empresa está inserida”, afirma ­Raphael Lafetá, diretor de relações institucionais e sustentabilidade da MRV. 

Direitos LGBT: promover um ambiente de trabalho mais diverso e igualitário é um dos desafios das empresas

Direitos LGBT: promover um ambiente de trabalho mais diverso e igualitário é um dos desafios das empresas (Christophe Gateau/Getty Images)

Bruno Lasansky, CEO da Localiza, diz que as práticas de sustentabilidade sempre estiveram na estratégia da companhia. Recentemente, a empresa passou a abastecer 99% de sua frota com etanol e implementou placas de energia solar em suas agências e lojas. Também passou a registrar suas emissões de gases de efeito estufa no GHG Protocol e adotou a lavagem a seco em seus veículos. “Temos acelerado bastante nossas ações de ESG”, diz Lasansky.

Outro exemplo foi o lançamento, em setembro passado, do programa de diversidade e inclusão, que, com o apoio de uma consultoria externa, estruturou ações que já existiam na empresa, como um programa de acolhimento e inclusão de migrantes e pessoas em refúgio — em vigor desde 2016. “Sempre teremos espaço para melhorar”, conclui o executivo. Hoje, são mais de 500 funcionários da Localiza engajados nos cinco grupos de afinidades: equidade de gênero, raça, LGBTI+, pessoas com deficiência e migrantes e pessoas em refúgio. 

Morata, da ForFuturing, afirma que, embora o Brasil esteja atrasado em relação a mercados mais desenvolvidos em iniciativas voltadas a ESG, seja por falta de incentivo, seja até mesmo por falta de conhecimento sobre os efeitos positivos da implantação desse modelo de gestão, nunca é tarde para começar. “Vejo uma mudança de postura bastante clara em companhias e instituições financeiras relevantes em seus respectivos mercados de atuação. A movimentação observada nos últimos meses é bastante animadora.”


Carteiras Verdes

Gestoras de investimentos também passaram a indicar e criar carteiras com o objetivo de superar o Ibovespa, porém com responsabilidade social e ambiental. A Ativa Investimentos, por exemplo, lançou no ano passado a Carteira ESG, que segue os Princípios de Investimento Responsável da Organização das Nações Unidas. Em março deste ano, a carteira apresentou alta de 7,19% — acima dos 5,99% registrados pelo Ibovespa.

A Órama é outra corretora que passou a aplicar, em 2020, um selo ESG nos fundos de investimentos disponíveis na plataforma. No início, dos mais de 600 fundos disponíveis, apenas quatro receberam o selo. Hoje, são nove, entre eles o Empírica Vox Impacto e o SulAmérica Total Impacto. Também no ano passado, foi a vez de a B3 passar a negociar o ETF ESGB11, um produto criado em parceria com o BTG Pactual e voltado para investidores em busca de companhias com as melhores práticas ESG. O fundo replica o Índice S&P/B3 Brazil ESG, desenvolvido em uma parceria entre B3 e S&P Dow Jones. 

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