Investidores trocam crédito privado por papéis do governo

A Operação Lava-Jato aumentou a aversão dos investidores ao risco de crédito privado. O jeito, para eles, foi fugir para os papéis do governo

	Andrade Gutierrez: obras sob investigação
 (Divulgação)
Andrade Gutierrez: obras sob investigação (Divulgação)
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Maria Luíza FilgueirasPublicado em 16/05/2015 às 05:56.

São Paulo - Nos últimos dois anos, os gestores de fundos e consultores de investimento têm travado uma dura batalha de convencimento para tirar os investidores de títulos públicos e de taxas bancárias e levá-los para o universo corporativo. “Seja o financiador de uma empresa” ou “o potencial é muito maior em um negócio de verdade do que com o dinheiro dormindo no banco” tornaram -se argumentos comuns nesse meio quando os juros bateram a mínima histórica de 7,25% ao ano — ali, em 2013, fazia mesmo sentido.

Mas a tarefa foi ficando cada vez mais complicada. Os juros voltaram a subir, a economia desacelerou e o risco das empresas, naturalmente, aumentou. Tudo o que os gestores não precisavam era a Operação Lava-Jato. “O investidor não quer nem ouvir falar em crédito privado”, afirma o gestor de uma carteira de mais de 200 bilhões de reais.

As maiores emissoras de crédito privado no país são as empresas de in­fraes­trutura, como Odebrecht, OAS e Andrade Gutierrez, todas elas investigadas pela Polícia Federal no esquema de propina com partidos políticos. Um levantamento da consultoria Economatica mostra que os gestores brasileiros têm cerca de 8 bilhões de reais em títulos de crédito das grandes empreiteiras, segundo informações prestadas à Comissão de Valores Mobiliários.

É um número pequeno quando comparado ao tamanho do mercado de fundos, de 2,4 trilhões de reais — mas o suficiente para dar um soluço na indústria de fundos. No primeiro trimestre, fundos que compram algum papel de crédito tiveram resgates de 300 bilhões de reais (parte reposta com novas captações). Nos fundos de direitos creditórios, que compram fluxos de pagamentos dessas empresas, o patrimônio líquido encolheu 5%.

Os títulos das grandes empreiteiras estão concentrados em fundos de investimento dos grandes bancos — em fundos exclusivos, nos quais as próprias construtoras e os bancos colocam dinheiro, ou em fundos de varejo, nos quais o dinheiro é dos clientes. Só a gestora da Caixa Econômica Federal administra 4 bilhões de reais em dois fundos da construtora OAS.

Segundo a Caixa, a exposição a títulos da Lava-Jato em fundos de clientes é “irrisória”, pois não chega a 0,03% do patrimônio total administrado pela gestora. No Santander, no fim de dezembro, data mais recente do detalhamento da carteira, eram 905 milhões de reais em papéis da OAS, que entrou em recuperação judicial.

Atualmente, depois de resgate e reconhecimento de perda de valor de títulos, o patrimônio do fundo é de 93 milhões de reais. O BTG Pactual tem 314 milhões em um único fundo de debêntures da Andrade Gutierrez. Segundo os bancos, esses fundos não têm dinheiro dos clientes, só do próprio banco e das empreiteiras.

A gestora Gávea tem um fundo de participações, voltado para investidores qualificados, com 310 milhões de reais em papéis da Odebrecht. A gestora Valora gere 145 milhões de reais em um fundo de crédito de fornecedores da mesma empreiteira e, segundo a Economatica, teve resgate de quase 15% desse montante em março.

Daniel Pegorini, gestor do fundo, diz que o valor é referente a amortizações de pagamentos, e não a saques. “O fundo não teve problema no fluxo de pagamentos”, diz. Segundo ele, ajudou o histórico de regularidade dos quatro anos do fundo.

No mercado brasileiro, os papéis de renda fixa têm baixa liquidez, por isso o investidor acaba tomando o comportamento de papéis emitidos no exterior como referência. E foi daí que veio o susto maior. Antes da divulgação da lista de empreiteiras investigadas na Lava-Jato, em novembro, os títulos da Andrade Gutierrez emitidos no exterior pagavam taxa de 4,9%.

No início deste ano, chegaram a bater a máxima de 23% e hoje são negociados a 9,5% — quase o dobro de antes de a Lava-Jato apertar o cerco. Na Odebrecht, as taxas dispararam de 6,2% para 15,8% em janeiro. Hoje, as taxas são de 9,4%. As duas empresas são investigadas, mas, ao contrário de UTC e Camargo Corrêa, não tiveram executivos presos.

Com tanta volatilidade lá fora, fica difícil convencer os investidores brasileiros a manter suas aplicações intocadas. Às vésperas da recuperação judicial da OAS, pedida em março, os papéis da construtora chegaram a cair 90%.

A reação dos gestores tem sido comprar títulos públicos — também por causa, claro, do aumento da taxa de juro. Desde setembro, os fundos adicionaram 104 bilhões de reais em títulos públicos nas carteiras, e hoje são donos de quase 1 trilhão de reais desses papéis.

Desde setembro, o Banco Central aumentou a taxa Selic de 11% para 13,25% ao ano. “Mesmo se as taxas de juro não tivessem aumentado, a alternativa seria voltar para os títulos públicos por causa do risco da Lava-Jato”, diz o gestor de um banco público. A participação de crédito privado, já pequena, caiu um pouco mais, de 131 bilhões para 128 bilhões de reais em debêntures e em direitos creditórios.

Com falta de demanda, captar ficou mais caro até para quem não tem quase nada a ver com a Lava-Jato. A Cemig, que conseguia captar a 9,5% no ano passado, deverá emitir debêntures a 13% neste ano, segundo sondagem de mercado feita com os bancos.

A Andrade Gutierrez é o maior acionista privado da Cemig. “Com a Lava-Jato e a incerteza econômica, todos os gestores que têm crédito privado querem reduzir a exposição”, afirma Rogério Braga, gestor de renda fixa da Quantitas.

A fuga de papéis privados só não foi maior porque os gestores trocaram parte dos títulos de longo prazo por papéis de curto prazo, como as notas promissórias. O volume de notas promissórias triplicou na carteira dos fundos em sete meses.

Para as empresas, depender de créditos desse tipo, que são mais curtos e mais caros, é o pior cenário — de seis em seis meses ter de renegociar ou procurar outro banco e rever pro­jetos por falta de fôlego financeiro. Para o investidor, a melhor solução tem sido a mesma de sempre: encher-se de papéis do governo federal.