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Como Joe Biden pode reconstruir a confiança nos EUA?

O presidente eleito Joe Biden quer recuperar a confiança dos aliados dos Estados Unidos, mas nada será como antes de Trump
 (Chandan Khanna/AFP)
(Chandan Khanna/AFP)
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Shawn Donnan e Jenny Leonard, Bloomberg BusinessWeekPublicado em 03/12/2020 às 05:12.

Se Donald Trump mostrou alguma coisa como presidente, foi que a ordem econômica global do pós-guerra é mais frágil do que se pensava. As relações comerciais dos Estados Unidos e a posição privilegiada do país no mundo são como uma delicada coleção de peças de cerâmica meticulosamente montada ao longo de gerações.

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Esse arranjo sempre foi uma fonte de orgulho entre os americanos e de inveja entre os vizinhos. Trump e seus auxiliares representam a turbulenta gangue de adolescentes que abrem caminho, deixando um rastro de artefatos lascados e quebrados.

O presidente eleito Joe Biden é o avô engenhoso que lidera uma equipe contratada para consertar o que for possível. As perguntas agora são: quanto eles vão conseguir salvar das peças quebradas? E quão criativos eles serão na reconstrução?

A boa notícia para uma economia global que ressurge sob o peso de uma pandemia é que Trump e seus conselheiros não destruíram a ordem liberal, como muitos temiam. Talvez até tenham preparado melhor suas defesas para outro ataque econômico da China. Mas qualquer um que pense que Biden planeja reconstruir a ordem liderada pelos Estados Unidos da maneira como ela era antes de Trump pode ser surpreendido.

O maior legado de Trump para aqueles que conduzem a economia global e investem nela são os pesadelos sobre sua caótica formulação de políticas. No entanto, Trump e seus generais econômicos, como o representante de Comércio Exterior, Robert Lighthizer, também embaralharam a política comercial americana.

Eles abriram a porta para um novo conjunto de táticas e tarifas e trouxeram à tona queixas antigas levantadas tanto por republicanos quanto por democratas. Quando Biden fala da necessidade de “reconstruir de maneira melhor”, ele está falando também sobre a ordem econômica global. É um tema sobre o qual ele e seus conselheiros refletem há anos.

“A resiliência do sistema [econômico global] não deveria ser o fim de uma história reconfortante; deveria ser o ponto de partida de um esforço extremamente necessário para intensificar e atualizar a ordem internacional e enfrentar as reais ameaças à sua viabilidade de longo prazo”, escreveu Jake Sullivan, um dos conselheiros políticos mais próximos de Biden, em um artigo na revista Foreign Affairs de 2018 intitulado O Mundo Depois de Trump. Sullivan foi escolhido por Biden como assessor de Segurança Nacional, um dos cargos-chave da Casa Branca. 

As expressões “comércio internacional” e “ordem econômica” não aparecem nenhuma vez no plano de recuperação econômica publicado pela equipe de transição de Biden. Em vez disso, o documento evoca a promessa de Trump de restaurar o poder industrial dos Estados Unidos. Ele promete “mobilizar a manufatura e a inovação para garantir que o futuro seja produzido nos Estados Unidos”.

Ele também enfatiza “a importância de trazer de volta ao país as cadeias críticas de abastecimento” e promete “construir uma forte base industrial”. Isso se encaixa com o que os assessores dizem ser o plano de Biden de garantir que os Estados Unidos abordem suas relações com todos, desde a China até aliados na Europa, a partir de uma posição de força econômica interna.

Em vez de depender de novas barreiras comerciais, como fez Trump, os planos de Biden incluem oferecer incentivos fiscais para as empresas construírem fábricas nos Estados Unidos e elevar gastos do governo em infraestrutura e em energia alternativa para ­aumentar a demanda.

A ideia preponderante é que um país mais forte e mais confiante — em vez de um beligerante — pode mudar a narrativa de uma superpotência em declínio, de acordo com vários conselheiros do presidente eleito que falaram sob a condição de anonimato. 

Qualquer reconstrução da ordem global começará com uma avaliação metódica de como as coisas se encontram, o que levará tempo e exigirá certa dose de paciência dos países aliados. Biden e a vice Kamala Harris descreveram as guerras comerciais de Trump como desastrosas, mas também recusaram na campanha se comprometer a remover as tarifas sobre as importações, que vão desde componentes chineses até vinhos franceses. Assessores dizem que Biden pretende revisar cuidadosamente as tarifas. 

Líderes mundiais em encontro do G7 em 2018: qual será o legado do governo Trump para os Estados Unidos? (Jesco Denzel/Bundesregierung/Getty Images)

Embora queiram passar a imagem de que estão começando a trabalhar rapidamente, Biden e sua equipe enfrentam a árdua realidade das transições políticas americanas. A substituição de Robert ­Lighthizer como chefe comercial dos Estados Unidos não tinha sido oficializada até o fechamento desta edição, e a escolha de Biden enfrentará um processo de confirmação pelo Senado que poderá levar meses. Isso provavelmente deixará em suspenso qualquer decisão importante de política comercial até bem depois dos primeiros 100 dias de Biden no cargo, período que será consumido para enfrentar a pandemia e tentar aprovar um novo pacote de estímulo econômico no Congresso, que poderá estar implacavelmente dividido.

No topo da lista de prioridades no comércio internacional está o que fazer com a China. O presidente eleito está deparando com questões como manter ou elevar tarifas e continuar aplicando proibições motivadas por segurança nacional a empresas como a chinesa Huawei, bem como se ele deseja ampliar o acordo da “fase 1” de Trump com Pequim.

A maneira de lidar com a China afetará quase tudo — inclusive a opção de seguir o caminho aparentemente improvável de se juntar novamente à Parceria Transpacífica (TPP, na sigla em inglês), que não inclui a China. A TPP há muito é vista por estrategistas em Washington como uma forma de fortalecer a posição dos Estados Unidos na região da Ásia-Pacífico e de ajudar a conter o crescimento econômico da China.

Trump abandonou o pacto no primeiro dia no cargo. “Daqui para a frente, olharemos cada vez mais através das lentes da China à medida que buscarmos uma política de comércio internacional”, diz Wendy Cutler, que foi a negociadora-chefe da TPP nos Estados Unidos.

Para Biden, outro legado inevitável de Trump relacionado à China é o fim da separação, antes sacrossanta, entre a segurança econômica e a segurança nacional. Trump tem invocado a segurança nacional, às vezes duvidosamente, em suas batalhas comerciais e tecnológicas, inclusive em seus ataques à Huawei e a outras empresas chinesas.

“A eliminação da divisão entre a segurança econômica e a segurança nacional, para mim, veio para ficar”, diz Jennifer Hillman, ex-autoridade comercial dos Estados Unidos que foi conselheira da campanha de Biden.

Pairando sobre tudo isso está a questão de quanto espaço o presidente eleito terá para manobrar, dada a reformulação da política comercial de Trump. A resposta é: muito mais do que se pode pensar inicialmente, graças a Trump. 

Seu uso de ordens executivas (decretos) baseadas em estatutos há muito tempo adormecidos para impor tarifas ignorou uma prática consagrada de buscar anuência do Congresso em questões de comércio internacional. É algo que Biden pode decidir fazer também. A investigação da Seção 301 sob a Lei de Comércio de 1974 que Trump usou para lançar suas tarifas na China foi baseada no roubo de propriedade intelectual.

O governo Biden, segundo informou um conselheiro, pode considerar o uso da mesma estratégia para lidar com as práticas ambientais ou trabalhistas chinesas. Alguns apoiadores de Biden e ex-negociadores comerciais gostam da influência que Trump criou com suas tarifas. Trump fortaleceu a mão negociadora dos Estados Unidos, independentemente de quem esteja no poder, eles apontam.

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Trump e Lighthizer também mostraram o que é possível realizar no Capitólio, afastando parte do Partido Republicano da ortodoxia do livre comércio. Durante décadas os republicanos apoiaram unanimemente os acordos comerciais junto com alguns democratas moderados, alienando aqueles do Partido Democrata que achavam que os acordos comerciais deixaram muitos trabalhadores americanos para trás. No processo de fechar um acordo comercial atualizado com Canadá e México, o chefe do Comércio Exterior, Robert Lighthizer, ganhou influentes aliados democratas, como a presidente da Câmara, Nancy Pelosi. Ele também conquistou um movimento sindical claramente pró-Biden.

Xi Jinping, líder da China: o país expande sua influência entre os vizinhos asiáticos­ — e também sobre o mundo (STR/AFP)

Por certo, as amargas divisões nos Estados Unidos significam que nada na política será fácil para Biden, especialmente se os democratas perderem a disputa por dois assentos no Senado em uma eleição em janeiro no estado da Geórgia e não ganharem o controle da Casa. Também é provável que haja alguma reversão na postura dos republicanos sobre o comércio internacional.

Clete Willems, sócio do escritório de advocacia Akin Gump que atuou como vice-diretor do Conselho Econômico Nacional sob Trump, diz que a escolha não é entre um Partido Republicano pró-comércio, pré-Trump, e um partido dos puristas do movimento America First (“Os Estados Unidos em primeiro lugar”). “Espero que possamos pegar um pouco do melhor do trumpismo e combiná-lo com o melhor do Velho Mundo para desenvolver uma política comercial rígida, mas em sua essência que não enxergue as tarifas como o objetivo final”, diz ele.

Há quem também veja uma lição reaprendida sobre as armadilhas do protecionismo. Douglas Irwin, historiador da política comercial dos Estados Unidos no Dartmouth College, argumenta que as futuras administrações, incluindo a de Biden, provavelmente farão uma pausa antes de usar as tarifas novamente como Trump fez. “Fizemos um experimento por quatro anos sobre como é usar tarifas para todos os tipos de objetivo, e não acho que isso possa ser visto como um sucesso”, diz Irwin.

(Fotos de: Jonathan Ernst/Reuters, Mark Makela/Getty Images/AFP, Chandan Khanna/AFP e Carolyn Kaster/AP)

E, no entanto, Trump injetou outras questões existenciais maiores no sistema. Um de seus legados duradouros será “o alerta para o resto do mundo sobre essa noção de liderança e confiança americanas” que ele forçou todos a encarar, segundo Chad Bown, ex-membro do Conselho de Consultores Econômicos de Obama que agora é do Peterson Institute for International Economics.

Isso deixou uma grande incerteza sobre a longevidade das relações econômicas dos Estados Unidos, argumenta ele, que continuarão moldando os negócios e o comércio com a China e através do Atlântico. A incerteza permanecerá, mesmo se nos próximos meses Biden fizer a improvável escolha de remover todas as tarifas de Trump.

Acrescente-se a isso uma pandemia que fez com que muitos países cuidassem de si próprios, e a tarefa do avô bonzinho enviado para limpar a bagunça só aumenta. A ordem econômica global, ao que parece, necessita mais do que apenas reparos físicos.   

Tradução de Anna Maria Dalle Luche