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Fundos entraram com apenas uma ficha na BRF — e perderam

Depois de ótimos retornos no início da década no Brasil, os fundos de private equity passam por uma safra de provações. A BRF é a cereja do bolo
 (Getty Images/Michael Nagle/Bloomberg/)
(Getty Images/Michael Nagle/Bloomberg/)
Por Lucas AmorimPublicado em 15/03/2018 05:59 | Última atualização em 15/03/2018 11:12Tempo de Leitura: 4 min de leitura
A tomada de poder na BRF pela Tarpon e pela Península, de Abilio Diniz, é uma das mais ambiciosas — e destrutivas — investidas de fundos de private equity em empresas brasileiras. Os preceitos do setor foram seguidos à risca: escolher uma empresa promissora mas meio paradona, aumentar sua dívida para turbinar o crescimento e tentar ganhar muito dinheiro com a valorização. Como se vê, nem sempre dá certo. “O caso só reforça quanto é difícil sair da Faria Lima para tocar uma empresa”, diz o gestor de um grande fundo de investimento.

Os fundos de private equity passam por uma fase de provações em todo o planeta, apesar de seu poderio crescente. Eles têm cerca de 2,5 trilhões de dólares sob gestão e, em 2016, no último dado disponível, levantaram 347 bilhões de dólares. Por baixo dos números, os fundos vêm sendo criticados por estratégias, digamos, excessivamente agressivas — e pouco eficientes. O americano Bill Ackman, espécie de macho alfa entre os investidores ativistas, perdeu 4 bilhões de dólares em sua investida na farmacêutica Valeant depois de sua estraté

gia de elevar subitamente o preço de medicamentos ter sido massacrada pela opinião pública. Ackman também perdeu pelo menos 500 milhões de dólares na varejista J.C. Penney. Em ambos os casos, ele ignorou a dinâmica do setor e tentou impor um aumento de margem no curto prazo que destruiu o valor das companhias.

No Brasil, a inflação galopante e a instabilidade econômica inviabilizaram a formação de um mercado de private equity até o Plano Real, em 1994. Uma das exceções coube a Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Beto Sicupira, o trio de fundadores do Banco Garantia que, em 1982, comprou a varejista Lojas Americanas e, em 1989, a cervejaria Brahma. Atualmente, segundo a FGV, há 121 fundos em atuação no Brasil. Costuma-se dizer que, tal qual os vinhos, os investimentos no Brasil têm safras boas e ruins. A safra de 2003 a 2010 foi uma das melhores, com o dólar abaixo de 2 reais na entrada e perto de 4 reais na saída, e com ótimos alvos por preços baixos.

Rendeu retornos astronômicos, por exemplo, ao fundo AIG, com a companhia aérea Gol, ao Advent, com o grupo de ensino Kroton, e à própria Tarpon, que em cinco an

os de investimento na fabricante de calçados Arezzo, até 2012, teve rendimento de 525%. Mas a safra seguinte está sendo uma das mais difíceis, com ativos comprados a preços altos e um câmbio não tão camarada. Um estudo coordenado pela professora Andrea Minardi, do Insper, mostrou que, até 2014, eles bateram o retorno do Ibovespa. O estudo não foi atualizado, mas Andrea prevê dificuldades nessa nova leva, especialmente para quem precisa dar retorno em dólar. “O mercado brasileiro tem uma volatilidade de câmbio muito maior do que a de outros países”, diz.

O caso da BRF reuniu doses de risco elevadas até para um setor que vive de risco. Os investidores escolheram uma empresa líder de mercado e bem administrada, num setor com ciclos longos e cheio de variáveis. Para piorar, traçaram uma guinada estratégica sem ter o controle da companhia — juntos, Tarpon e Península nunca tiveram mais de 14% da BRF. Nesses casos, os gestores precisam de uma eficiência de gestão que resista, por exemplo, aos ciclos de instabilidade da economia e aos imprevistos do setor. “Eles entraram num cassino com apenas uma ficha. E perderam”, diz o gestor de um fundo concorrente.

 

 

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