Esta técnica pode transformar o Brasil na "terra do vinho"

A dupla poda foi inventada na Serra da Mantiqueira e permitiu que vinhos nacionais atingissem padrão de qualidade internacional
 (Catarina Bessell/Exame)
(Catarina Bessell/Exame)
Por Thiago FrenclPublicado em 19/05/2022 06:00 | Última atualização em 18/05/2022 18:21Tempo de Leitura: 3 min de leitura

O que vem à cabeça quando pensamos no sul de Minas, mais especificamente no município de Três Corações? Bem, foi na terra do café no início dos anos 2000 que aconteceram as primeiras experiências com a dupla poda, técnica que viria a revolucionar a viticultura brasileira e constituir o que hoje conhecemos como “terroir de inverno”.

Conquiste um dos maiores salários no Brasil e alavanque sua carreira com um dos MBAs Executivos da EXAME Academy.

A ideia surgiu quando o agrônomo Murillo Regina estudava viticultura na cidade francesa de Bordeaux. Conforme seus professores detalhavam as condições perfeitas para o cultivo das Vitis viniferas, ele se lembrava da fazenda de seu tio em Três Corações — porém, lá as condições ideais (solo seco com dias quentes e noites frias) ocorriam durante o inverno, e não no verão. Ou seja: clima certo na hora errada.

Para tornar esse sonho possível, ele deveria mudar o ciclo da videira. Aí entra um dos pilares do conceito de terroir: o trabalho humano. Murillo põe em prática sua técnica de dupla poda, em que a videira é podada no verão, antes de gerar frutos, “enganando” a planta para forçar uma dormência. Assim, no começo do outono, a planta inicia novamente seu ciclo, forma os cachos e amadurece em condições climáticas perfeitas. As uvas são colhidas no inverno, e então ela é podada novamente.

A uva syrah foi a que mais se destacou nessas primeiras experiências. Em 2003, o que viria a ser a vinícola Estrada Real produziu o primeiro vinho de dupla poda do mundo, abrindo a possibilidade para outros vinhos finos de qualidade em lugares inimagináveis. Depois da syrah, que ainda reina soberana, vieram a sauvignon blanc, a chardonnay, a cabernet sauvignon, a cabernet franc e a viognier, com ótimos resultados.

LEIA TAMBÉM:

A Serra da Mantiqueira, reconhecida por seus destinos turísticos e imensas fazendas com cafezais, ganhou força na colheita de inverno. Vinícolas hoje já estabelecidas, como Maria Maria e Guaspari — a que mais teve notoriedade até o momento —, juntamente com a já citada Primeira Estrada, logo se especializaram na técnica. Assim como a vinícola Terras Altas, em Ribeirão Preto, a vinícola Vinhedo Girassol, no cerrado goiano, a vinícola UVVA, na Chapada Diamantina, além de outras ao norte, no Vale do Rio São Francisco (que já tinha o título de região mais próxima da linha do Equador a produzir maior quantidade­ de vinhos no mundo). Essas vinícolas conseguiram melhorar a qualidade de seus vinhos por meio da dupla poda.

O primeiro passo já foi dado. Temos o Brasil inteiro ainda para desbravar, e o mundo pode aprender com a nossa experiência, que mostrou ser possível burlar as regras naturais da viticultura e produzir vinhos de alta gama em basicamente qualquer lugar em que haja solo adequado e amplitude térmica. O Brasil, país do café, da cachaça, do samba, do futebol, entre tantas riquezas, tem tudo para se tornar o país do vinho.   

(Divulgação/Divulgação)