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Nova Exame

Economista aponta as cidades com maior chance de crescer no pós-pandemia

Os espaços urbanos estão reabrindo e voltam a brilhar. Mas as crises estruturais continuam, com ou sem covid-19

Em 2011, o economista americano Edward Glaeser era aclamado pelo best-seller Triumph of the City, que apontava os muitos “triunfos” do modo de vida nas cidades. Uma década depois, o coronavírus colocou muitos deles em xeque. Como poderão as cidades sobreviver se seu maior benefício — o contato entre as pes­soas — ficou debilitado? Esse é o debate que Glaeser e o colega economista David Cutler, ambos da Universidade Harvard, retomam no novo livro Survival of the City: Living and Thriving in an Age of Isolation (“Sobrevivência da cidade: vivendo e prosperando em uma era de isolamento”, numa tradução livre). Além da questão sanitária, desigualdade, violência e crises habitacionais são problemas que seguirão latentes. À EXAME, ­Glae­ser defende políticas que busquem a formalização dos negócios e maior oferta de moradias. “Construir para cima é uma alternativa mais verde do que construir para os lados”, diz. Leia os principais trechos da entrevista. 

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Uma das mensagens de seu novo livro é que os impactos da covid-19 para as cidades poderão continuar mesmo após o fim da pandemia. Quais são os riscos para os próximos anos?

Cada cidade será impactada de uma forma pelo choque na saúde e pela nova dinâmica do Zoom, do trabalho remoto. Se olharmos para crises passadas, o impacto em algumas cidades dependeu da coesão da sociedade no momento em que a crise estourou. Então, se em um lugar a pandemia chegou quando as coisas já estavam no limite, há mais potencial para que essas cidades mudem de forma permanente. E desta vez a crise acontece ainda em um momento delicado, com as cidades sofrendo pressão para lidar com suas desigualdades. Algumas vão se sair melhor e outras muito pior. As cidades com mais chances serão as que se mostrarem atraen­tes para os trabalhadores al­ta­mente educados. 

Alguns artigos têm dito que Survival of the City, ao tocar em temas como a maior desigualdade, é uma “autocrítica” a seu livro anterior. O senhor concorda?

A desigualdade piorou nos Estados Unidos, isso é absolutamente verdade. Mas as cidades sempre foram lugares desiguais. Talvez essas coisas tenham recebido mais ênfase desta vez, mas eu certamente já falei sobre a tendência das cidades de espalharem doen­ças, ou sobre a queda na criminalidade — que foi muito importante para as cidades nos Estados Unidos, mas veio ao preço terrível de trancafiar milhões de garotos. Eu disse isso tudo em 2011. O que mudou não foi a forma como eu vejo essas coisas, mas talvez o limite até o qual elas são toleradas pela sociedade. Então, em parte, este livro é mais focado nisso porque é o momento no qual a política das cidades está agora. 

A infraestrutura é um dos temas da retomada econômica e da busca por sustentabilidade. As cidades têm de ser reconstruídas para o futuro?

Depende. Se estamos falando das cidades da África subsaariana e da necessidade de levar água limpa, com certeza precisamos investir mais. Em relação às cidades americanas, é menos óbvio para mim. Em vez de recriar infraestrutura, como economista eu preferiria uma tributação de emissões de carbono, por exemplo. Ou pensar em quais políticas devemos implementar para evitar que haja outra pandemia em cinco ou dez anos. As cidades já tendem a ser, no geral, mais verdes, porque as pessoas moram em apartamentos menores, viajam distâncias menores, dirigem menos. Assim, construir para cima é uma alternativa mais verde do que construir para os lados, e devemos garantir que não haja regulação excessiva sobre isso. 

O livro aponta como muitos benefícios das cidades só têm chegado a um grupo de privilegiados. Como trazer para dentro os excluídos?

As cidades devem se tornar mais igualitárias e com mais oportunidades, e acreditamos que há formas de fazer isso sem afastar os ricos. Uma ideia é repensar a regulação dos negócios. No Brasil, como a informalidade é alta, seria necessário discutir como trazer empreendedores para a economia formal à medida que crescem. Já nos Estados Unidos, temos uma regulação que tem sido relativamente leve para os empreendimentos dos ricos, enquanto nós regulamos até os ossos dos pequenos negócios urbanos, cafés, restaurantes, pequenas lojas. É, de certa forma, um ultraje. E outra coisa, que é muito importante tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos, é a educação. Isso envolve a educação pública tradicional, e no livro também discutimos experimentos como treinamentos para os jovens depois da aula ou nos fins de semana. 

Há um destaque no livro para a importância dos serviços na geração de empregos urbanos. A digitalização acelerada é um risco para essa dinâmica?

A transição do trabalho humano nas fábricas rumo a esse modelo, hoje basea­do em serviços, foi, em certo sentido, parte do que tornou a economia mais vulnerável. Porque, uma vez que as pessoas estão com medo de ter contato umas com as outras, os empregos desaparecem. Mas tenho muita confiança de que os empreendedores urbanos vão encontrar trabalhos para as pessoas fazerem nos próximos 100 anos. Todos estamos desesperados por interações sociais pós-pandemia, e isso também vai impactar a economia de serviços. 

Em países em desenvolvimento, como o Brasil, os ricos e a classe média preferem viver em condomínios — e aí os espaços públicos deixam de ser prioridade. É possível ter uma cidade funcional nesse cenário?

Olha, eu amo São Paulo, eu amo o Rio, são cidades maravilhosas. Mas não há dúvida de que, particularmente, as questões relacionadas à segurança têm levado os ricos a se retirarem para dentro de suas­ casas. E aí as políticas urbanísticas ficam limitadas. É algo vital contra o qual as melhores cidades do Brasil precisam continuar lutando, porque, em alguns sentidos, de fato não é possível ser uma cidade completa se uma parcela da população não se sente parte do espaço urbano.   

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