A volta do risco Brasil

Crescimento menor, juros em alta, bolsa em queda, inflação que ameaça — como ganhar dinheiro em 2011?

"Os investidores haviam esquecido o óbvio nos últimos dois anos: há problemas econômicos e políticos em países emergentes, como o Brasil, e é arriscado colocar dinheiro nesses mercados. Isso está vindo à tona agora.” A frase do economista holandês Antoine van Agtmael, que criou o termo “países emergentes” nos anos 80 e hoje é dono de uma gestora de recursos nos Estados Unidos, ilustra a mudança de humor em relação ao Brasil neste ano. Pela primeira vez desde que o banco Lehman Brothers quebrou, em setembro de 2008, e detonou a fase mais aguda da crise mundial, há um cheiro de pessimismo no ar em relação ao país. Os grandes riscos vêm não apenas do mercado externo, como ocorreu em 2009 e 2010, mas também da economia local. As perspectivas de crescimento estão menores, a inflação pressiona e há a percepção de que o novo governo terá um trabalho especialmente pesado para colocar as coisas no lugar. “É preciso pagar a conta dos excessos dos últimos meses, quando os gastos públicos aumentaram e o combate à inflação foi menos intenso do que deveria. A dúvida é como isso será feito”, diz Ilan Goldfajn, economista-chefe do Itaú Unibanco. De acordo com dezenas de especialistas ouvidos por EXAME, serão necessários alguns meses para ficar claro se o Banco Central será incisivo no combate à alta dos preços.

Ainda que a inflação atual, que está em 6% no acumulado de 12 meses, não seja alarmante, a dúvida sobre o compromisso do BC de cumprir a meta oficial de 4,5% preocupa. É provável que haja novos aumentos de juros ao longo do ano — a questão é se eles serão suficientes. “O risco é que empresas e consumidores passem a esperar uma inflação cada vez maior no futuro e que comece a haver algum desejo de indexação. Isso gera incerteza e um fenômeno inflacionário muito mais difícil de ser debelado”, diz Gustavo Franco, sócio da gestora Rio Bravo e ex-presidente do BC. Com a piora das expectativas, boa parte dos investidores decidiu que era hora de ser mais conservadora, e isso abalou a bolsa. Estrangeiros e brasileiros tiraram quase 1,5 bilhão de reais dos pregões desde janeiro, e o Índice Bovespa caiu 4%. Larry Fink, fundador da BlackRock, maior gestora de recursos do mundo, disse a EXAME que, se “houver algum tipo de tropeço, com o novo governo, por exemplo, a queda (das ações brasileiras) pode ser grande”. Não se trata de vaticínio, mas da expressão de um temor. E isso conta muito no mercado financeiro.

Um movimento semelhante tem ocorrido nos principais países emergentes. A inflação está em alta na China e na Índia e as bolsas desses países perderam 14 bilhões de dólares neste ano. Estima-se que boa parte desses recursos tenha migrado para os papéis de empresas americanas e europeias, no embalo de dados mais positivos sobre a economia dos Estados Unidos e da Alemanha. Isso quer dizer que os emergentes perderam o brilho? Esses mercados foram superestimados em 2009 e 2010? A resposta da maioria dos executivos de mercado é não. “Houve alguns excessos, ações que dobraram de preço, e isso está sendo corrigido. Mas os emergentes devem continuar crescendo mais que a média mundial, o que cria oportunidades de investimento”, diz Pedro Martins, estrategista da corretora do Bank of America Merrill Lynch. Uma pesquisa global do banco Credit Suisse feita com 600 fundos de hedge mostra que eles devem investir cerca de 150 bilhões de dólares até o fim do ano — e os mercados emergentes são os preferidos. Se parte desses recursos chegar à Bovespa, haverá uma nova alta nas ações. A conclusão dos especialistas é que, embora o panorama para a bolsa brasileira seja mais complicado no curto prazo, a tendência para o segundo semestre é de valorização. “Há bons motivos para crer numa valorização da bolsa, mesmo num ano de volatilidade”, diz Denise Moura, responsável pela gestora do Bradesco. “O lucro das empresas vai continuar subindo, junto com a economia.”


O cenário internacional, é bem verdade, continua repleto de incertezas e problemas de difícil solução. Há grande preocupação com o futuro da economia japonesa depois de o país ter sido arrasado por um terremoto e um tsunami e estar sob a ameaça de uma crise nuclear. Restam poucas dúvidas de que os próximos meses serão de recessão — muitas empresas já pararam de produzir no país, outras vão reduzir suas atividades, e a arrecadação do governo deve cair. Mas há diversos analistas que acreditam que, no médio prazo, o esforço de reconstrução poderá estimular a economia. “O Japão é um país rico que pode se financiar a custos relativamente baixos no mercado externo”, disse, logo após a tragédia, Mohamed El-Erian, presidente da gestora Pimco, que administra 1 trilhão de dólares. “Num cenário positivo de recuperação, esse choque terrível pode fazer o país superar duas décadas de crescimento decepcionante.” É uma previsão bem otimista — e, mesmo que ela se confirme, ninguém sabe quando o Japão terá condições de começar a se reerguer. Até lá, os impactos sobre a economia mundial são incertos.

Também é cedo para saber se os conflitos no Oriente Médio provocarão um novo choque do petróleo, a exemplo do que ocorreu na década de 70, o que atrasaria a recuperação da economia mundial. Ainda que isso não ocorra, a manutenção do petróleo acima de 100 dólares por mais alguns meses pode piorar o quadro inflacionário no Brasil e prejudicar empresas que dependem de combustíveis, como as aéreas. Na Europa, o que preocupa é a rolagem das dívidas de Irlanda, Grécia, Portugal e Espanha. Num artigo no jornal Financial Times, o colunista Martin Wolf escreve que os ajustes fiscais que precisam ser feitos por esses países são um “desafio gigantesco” e que alguns não conseguirão pagar tudo o que devem. Se está mais difícil ganhar dinheiro na bolsa, há mais oportunidades no mercado de renda fixa, com fundos e títulos que protegem o patrimônio da inflação e acompanham a tendência de alta dos juros, ou nos fundos imobiliários, que se destacam como alternativa de alto retorno. O leque de opções é enorme, como se verá nas 34 páginas a seguir.

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