Robôs, nanopartículas e tecnologia: o futuro das startups do agro

As startups que vão mudar, mais uma vez, o agronegócio brasileiro — e trazer novas soluções para tempos de escassez e mudanças climáticas
 (Exame/Leandro Fonseca)
(Exame/Leandro Fonseca)
Por Leandro Fonseca, Fabiane Stefano, Carla AranhaPublicado em 14/04/2022 05:44 | Última atualização em 20/04/2022 12:15Tempo de Leitura: 18 min de leitura

Do cinturão da citricultura brasileira, localizado no estado de São Paulo e no Triân­gulo Mineiro, saíram cerca de 264 milhões de caixas de laranja em 2021. Ainda que de diferentes portes e estágios de gestão, as fazendas sofrem sistematicamente de um problema prosaico: afinal, quantas laranjas existem em cada pé de laranja?

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Há produtores que simplesmente estimam a safra futura com base no desempenho do ano anterior. Outros apelam para um método de contagem manual de cada fruta do pomar — munidos de pincel e cal, os funcionários fazem uma marca em cada laranja contabilizada no pé. Em ambos os casos, raramente conseguem uma estimativa certeira. E, no final, muitos apenas descobrem o tamanho da safra após a colheita.

Foi esse problema que se impôs na rotina das fazendas de laranja que motivou a criação da startup de automação Adroit Robotics, de São Paulo. Formada por três engenheiros que se associaram a executivos do mercado financeiro, a empresa foi criada em 2016 para desenvolver um robô contador de laranjas. O protótipo não se adequou às condições das fazendas, mas o aparelho com sensores de alta precisão passou a ser acoplado aos tratores das propriedades, permitindo digitalizar cada árvore. “Mais do que contar laranjas, a tecnologia passou a coletar dados como a velocidade de crescimento, o índice de maturação, o volume de perdas, entre outros que influenciam a produtividade de cada talhão das fazendas”, diz Fabio Terracini, presidente da empresa. 

Hoje são 550 milhões de frutos em 23 milhões de pés monitorados pelos sensores da Adroit, e um projeto com mangas está sendo desenvolvido no Rio Grande do Norte. A empresa já recebeu 5 milhões de reais em investimentos (incluindo recursos da família Maeda, que já foi a maior produtora de algodão do Brasil) e prepara uma nova rodada de captação para escalar o negócio. Recentemente, recebeu uma importante chancela ao fechar parceria com a Bayer, que passou a oferecer os serviços da Adroit a produtores cadastrados em sua plataforma de relacionamento com clientes. A multinacional alemã agora quer levar a tecnologia desenvolvida pela agritech brasileira mundo afora.

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A história da agritech que surgiu para contar laranjas nos pomares brasileiros é uma das muitas iniciativas que vêm se multiplicando no agronegócio nacional. Um dos setores que mais crescem na economia do país é também o que está no epicentro de uma crise global gerada pela confluência da pandemia, da emergência climática e, agora, da guerra na Ucrânia, que em razão de sanções econômicas aplicadas à Rússia impactam o mercado de fertilizantes e mexem também nas cadeias de alimentos e de combustíveis.

O preço dos alimentos atingiu o maior valor em 100 anos no dia 8 de abril, segundo a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), ao divulgar a atualização da série de longo prazo do Índice de Preços de Alimentos. Ao longo do século 20, os preços dos alimentos foram caindo à medida que aumentava a oferta em razão da maior mecanização no campo, da maior produtividade agrícola, do aumento da área de cultivo e do aperfeiçoamento do comércio global. 

Mas, diante dos novos desafios geopolíticos, sanitários e climáticos, de que novas soluções o agro precisa? Muitas das respostas para esses problemas virão de empresas que sonham em mudar, de novo, o agronegócio, as chamadas agritechs. Há ambições de todos os tamanhos. Da dificuldade em levantar crédito à busca por ferramentas de gestão do negócio, da criação de tecnologias para combater pragas ao monitoramento ambiental e social da produção agrícola sob permanente escrutínio: tudo está na mira das agritechs brasileiras.

Consequentemente, essas star­t­u­ps também entraram na mira dos investidores. No Brasil, entre 2017 e 2021, os aportes em agritechs alcançaram uma cifra de cerca de 264 milhões de dólares, segundo o Distrito, um dos maiores hubs de inovação no país. O recorde em volume investido veio no ano passado: 126 milhões de dólares, o dobro de 2020. Para 2022, as expectativas são ainda melhores. “O agro está em alta, em grande parte, por causa da necessidade crescente de garantir a segurança alimentar mundial, primeiro com a covid-19 e agora com a guerra na Ucrânia”, diz Gustavo Araujo, CEO do Distrito. 

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Se por aqui as startups do campo começam a ganhar tração, no efervescente mercado americano elas já são uma força poderosa. Em 2021, os investimentos em agritechs chegaram a 5 bilhões de dólares nos Estados Unidos, um recorde. Foram 440 novas empresas do setor que receberam aportes, segundo a Crunchbase, plataforma americana de dados sobre startups. Só no primeiro trimestre deste ano, outro 1 bilhão de dólares irrigou as agritechs por lá.

Empresas como a Pivot Bio, voltada para a produção de microrganismos capazes de capturar nitrogênio do solo e turbinar o processo de fertilização, e a Plenty, fazenda vertical que recebeu 400 milhões de dólares no início do ano de fundos como o JS Capital e o SoftBank, têm ocupado os holofotes. Ambas trabalham em nichos em ascensão.

Com a escassez de fertilizantes no mercado, soluções para substituir as importações do insumo estão em alta. Da mesma forma, a demanda cada vez maior por orgânicos, mercado que movimenta mais de 110 bilhões de dólares no mundo, tem impulsionado startups do setor. Fornecedora de alimentos orgânicos para grandes redes de varejo, como o Walmart, a Plenty tem despontado como uma das estrelas do mercado internacional de agritechs — a empresa já captou 960 milhões de dólares em recursos nos Estados Unidos.

Raphael Covre, CEO da Casa do Adubo: rede capixaba que fatura 2,5 bilhões de reais por ano utiliza tecnologia da TerraMagna para monitorar a safra dos clientes (Gabriel Lordello/Casa do Adubo/Divulgação)

O interesse por essas startups vem crescendo também porque as exigências sobre os grandes atores do mercado agro mudaram — no Brasil e no exterior. Fazendeiros que ambicionam deixar a posição de meros produtores de commodities não podem ignorar as demandas ambientais e sociais no campo. O mesmo vale para quem distribui, financia ou revende os produtos do agronegócio.

“As agritechs de pecuária, por exemplo, buscam soluções de manejo, de controle zootécnico e uma série de parâmetros capazes de elevar a produtividade com o menor impacto possível”, diz José Tomé, CEO do AgTech­ Garage, hub de inovação no agronegócio. Por essas razões, as startups que oferecem soluções com a pegada ESG são cada vez mais solicitadas. A Promip, de Limeira, no interior de São Paulo, por exemplo, lançou uma “vespa inseticida” capaz de eliminar espécies que se multiplicam em armazéns de grãos.

Já a Tarvos, localizada na vizinha Campinas, criou armadilhas inteligentes para facilitar que insumos químicos e biológicos sejam aplicados onde e quando necessário (veja quadro abaixo). “Muitos produtores tentam ser precavidos e aplicam defensivos demais no campo por temerem a incidência das pragas. Só que gastam sem necessidade e acabam agredindo o meio ambiente”, diz Andrei Grespan, um dos fundadores da Tarvos. Há startups que, inclusive, ensinam agricultores a cuidar melhor do meio ambiente, como a Produzindo Certo, de Goiânia.

A empresa ajuda no diagnóstico e na adequação de propriedades para que atendam aos mais altos padrões ambientais e sociais. Em geral, ela é contratada por grandes companhias e associações setorais para monitorar e certificar as cadeias de fornecimento. “Encontramos pequenos produtores que nunca receberam orientação técnica correta para tornar a propriedade mais sustentável. Ao contrário do que muita gente pensa, não há resistência dos produtores em aprender e fazer melhor”, conta Aline Locks, fundadora da Produzindo Certo.

Com 6,5 milhões de propriedades rurais no país, o agronegócio brasileiro tem fazendas que operam no estado da arte tecnológico e outras completamente desconectadas do seu tempo. “No Brasil, menos de 30% do campo tem sinal de internet, falta crédito e os produtores rurais ainda lutam para aprimorar o sistema de gestão. Há espaço para inovação de ponta, mas as startups que mais crescem são aquelas voltadas para gestão, redução de custos no campo e oferta de crédito”, diz Francisco Jardim, sócio-fundador da SP Ventures, gestora de venture capital especializada no agronegócio.

A startup de crédito TerraMagna é justamente uma das que crescem em passo acelerado. Com uma carteira de crédito de cerca de 700 milhões de reais, a empresa fundada em 2017 por dois engenheiros formados pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), em São José dos Campos, no interior de São Paulo, já levantou 40 milhões de dólares no início deste ano.

A rodada de investimentos foi liderada por fundos como o SoftBank, em uma de suas primeiras operações no setor agrícola no Brasil, e o Shift Capital. A aposta é que a TerraMagna esteja no caminho de se tornar um dos primeiros unicórnios agro do país, como são chamadas as startups que valem pelo menos 1 bilhão de dólares. “A agricultura é um grande mercado no Brasil, mas os agricultores ainda carecem de financiamento para comprar sementes, fertilizantes e pesticidas”, disse Felipe Fujiwara, líder de investimentos do SoftBank Latin America Fund, braço latino-americano do fundo, por ocasião da realização do investimento. 

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Responsável por um quarto do PIB nacional, o agronegócio movimenta hoje 2,3 trilhões de reais, segundo o Ministério da Agricultura. O financiamento público do agro, com taxas de juro especiais para pequenos e médios produtores rurais, somou cerca de 250 bilhões de reais em 2021. Só que a demanda por crédito rural beira os 600 bilhões de ­reais.

“Só o mercado de fertilizantes e sementes movimenta mais de 160 bilhões de reais por ano no país”, diz Bernardo Fabiani, CEO da TerraMagna que fundou a companhia com o colega de ITA Rodrigo Marques. “Mas, não raro, as instituições financeiras pensam duas vezes antes de conceder crédito aos produtores rurais pelos riscos que o negócio implica e pela falta de um conhecimento mais aprofundado desse mercado, que envolve de riscos climáticos a mudanças no cenário global”, afirma.

A fintech criou um modelo de negócios baseado na interpretação de dados de satélite, capaz de fornecer análises sobre a evolução da produção rural, e outras informações, como o fluxo de vendas do produtor e a mensuração de riscos ambientais de forma a diminuir a probabilidade de atrasos e inadimplência. “A TerraMagna criou uma tecnologia realmente inovadora”, diz Fujiwara, do SoftBank.

A nova injeção de recursos na startup deve ser utilizada para a diversificação da oferta de crédito aos produtores rurais. Hoje, a empresa tem parcerias com distribuidoras de insumos e redes de revendedores do agro, responsáveis pela movimentação de boa parte do crédito rural privado oferecido no país. “Elas já têm relacionamento com o produtor rural, que por sua vez já está acostumado a tomar empréstimos dessas instituições”, diz Fabiani. Hoje, a fintech atende a mais de 100 empresas do segmento.

Uma delas é justamente a Casa do Adubo, empresa fundada em 1937 no Espírito Santo. A distribuidora atua no varejo com 40 lojas em 11 estados, mas boa parte de seu faturamento de cerca de 2,5 bilhões de reais vem do atendimento direto a produtores no campo. Inicialmente, a Casa do Adubo passou a utilizar os serviços da startup para auxiliar sua força de venda no acompanhamento da safra, composta de 400 técnicos em todo o país.

“Antes, cada vendedor tinha de visitar o mesmo cliente quatro vezes do plantio à colheita. Isso caiu pela metade”, diz Raphael Covre, presidente da empresa e representante da quarta geração da família que fundou a companhia. Esse acompanhamento é fundamental para sustentar o modelo de negócios da empresa: o pagamento de fertilizantes e defensivos para a Casa do Adubo ocorre apenas quando a produção agrícola é entregue nos armazéns das tradings­ de grãos. A parceria foi ampliada quando a ­TerraMagna passou a fornecer crédito adicional para clientes da Casa do Adubo.

Assim como fintechs como Nubank e ­Stone se tornaram as queridinhas do mercado financeiro e de tecnologia, as agritechs têm atraído a atenção de investidores. Nascida dentro do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, o prestigiado MIT, nos Estados Unidos, a Traive é uma plataforma que conecta quem toma crédito a quem o fornece, criada pelo casal Fabricio e Aline Pezente.

No Brasil, ele fez carreira no mercado financeiro; e ela, em multinacionais do agro. Foi na temporada de estudos no MIT que juntaram os conhecimentos para criar a startup. Ao contrário do tradicional modelo de marketplace, a tecnologia da Traive utiliza inteligência artificial para criar rotas com o menor risco entre as duas pontas do negócio.

Com foco no campo brasileiro, a Traive é oficialmente uma empresa americana, o que a ajuda a captar no exterior — no total, já foram mais de 20 milhões de dólares para desenvolver a plataforma tecnológica — e facilita seus planos de expansão para fora do Brasil. “A ideia é que produtores rurais e distribuidores encontrem os melhores parceiros, de qualquer lugar do mundo, para financiar suas operações”, diz Fabricio, que toca as operações da empresa em Boston. 

Fabrício e Aline Pezente, da Traive: na temporada de estudos no MIT, nos EUA, o casal desenvolveu a fintech do agro que mira a redução de riscos de crédito (Elizabeth Hauck/Divulgação)

Olhar para o maior mercado agrícola do mundo tem sido também a ambição de outra candidata a unicórnio do agro brasileiro, a Solinftec, especializada em tecnologias para monitoramento de safra. A empresa criou o Solix, robô que consegue, por meio de sensores, captar e analisar imagens do solo e de plantas. Com isso, é possível avaliar a necessidade de aplicação de adubo e defensivos em cada talhão, reduzindo custos com fertilizantes e agrotóxicos.

“A economia em relação a defensivos pode chegar a 60%”, diz o engenheiro Britaldo Hernandez, CEO da Solinftec. Até setembro deste ano, o ­Solix vai ganhar novas habilidades: a máquina receberá um sistema com raio laser, desenvolvido em conjunto com pesquisadores da Universidade de Pequim, na China, capaz de eliminar pragas sem prejudicar a planta. “Os estudos demandaram anos, já que era preciso encontrar a frequência certa do raio laser para matar os microrganismos que atacam a lavoura e preservar todo o resto”, diz Hernandez, que é cubano e chegou ao Brasil no final dos anos 1990 para conhecer pesquisas em cana-de-açúcar.

Lavoura de milho em Mato Grosso: novas tecnologias para defensivos agrícolas evitam o desperdício de insumos e preservam o meio ambiente (Cristiano Mariz/Exame)

Criada em 2007, a empresa já captou quase 90 milhões de dólares em quatro rodadas de investimento. No último trimestre do ano, deverá ser realizada uma nova etapa de atração de recursos, sobretudo nos Estados Unidos. “Nossas tecnologias monitoram hoje 90% da área plantada de cana-de-açúcar no país e diversas outras culturas”, diz Hernandez. Entre os principais clientes da empresa com sede em Araçatuba, no interior de São Paulo, estão a Tereos, considerada uma das maiores produtoras mundiais de açúcar, e a Raízen, uma das principais empresas de energia do país.

No ano passado, firmou uma parceria com a ­Planet, uma das maiores operadoras mundiais de satélites de uso comercial, com o objetivo de municiar os clientes com dados da lavoura em tempo real. Hoje, a empresa emprega mais de 650 pessoas e mantém dois escritórios internacionais, um na Colômbia e outro nos Estados Unidos. “Queremos conquistar o mercado internacional”, diz Hernandez. 

Outra frente que cresce a passos largos é a de soluções que envolvem fertilizantes e corretivos de solo. Vencedora de um prêmio mundial de inovação no ano passado, o Global Tech Innovator 2021, realizado pela consultoria KPMG, a agritech Krilltech, fundada em 2020, trabalha em um nicho que alcançou evidência com a guerra na Ucrânia. A Rússia, sob sanções desde o início do conflito, responde por 23% das importações de fertilizantes realizadas pelo Brasil. Nesse cenário de escassez, a tecnologia criada pela ­Krilltech oferece alternativas para a dependência externa.

A startup criou nanoesferas de carbono, de 5 milímetros, capazes de levar em sua superfície uma série de aminoácidos e outros compostos que turbinam a nutrição da planta. “Essas partículas também aceleram a fotossíntese e ajudam a reduzir o estresse hídrico em épocas de falta de chuvas”, diz Diego ­Stone, fundador e CEO da empresa. “Com isso, há menor necessidade de usar fertilizantes convencionais.” O produto é pulverizado nas plantas. Hoje, a tecnologia da Krilltech é utilizada em mais de 60.000 hectares de 30 culturas diferentes no Brasil, entre elas milho, soja, cacau e frutas.

Neste ano, o faturamento deve ser de 10 milhões de reais, cinco vezes mais do que em 2021. A startup, que abriu uma fábrica no ano passado no polo industrial de Camaçari, na Bahia, também se prepara para participar de uma rodada de investimento em maio. “Estamos sendo procurados por investidores de olho no potencial e na inovação do negócio”, diz Stone. 

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Unidos aos gigantes 

Diante da multiplicação das agritechs, não há grande empresa do agronegócio brasileiro que não esteja buscando investir ou estabelecer parcerias com essas startups. As multinacionais Yara, de fertilizantes, e Basf e Syngenta, de produtos químicos e sementes, têm alocado recursos que somam mais de 300 milhões de reais nos fundos estruturados da gestora SP Ventures, especializada no segmento agro.

“Neste ano, devemos ter uma explosão de novos negócios, com a maturidade crescente do setor”, afirma Francisco Jardim, da gestora. Já a Bayer acompanha o desenvolvimento de 25 startups brasileiras com diferentes tipos de aplicações no campo. Algumas fornecem serviços para clientes da multinacional, como a Adroit, citada no início desta reportagem. Outras se relacionam diretamente com os negócios da companhia. “Sem a inovação aberta, em que grandes empresas e startups se juntam para resolver problemas, não há como avançar para enfrentar os desafios do agro”, diz Dirceu Ferreira Junior, líder de inovação aberta para a América Latina da Bayer.

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Outro exemplo de que esse modelo tem prosperado veio com a Sol, especializada na estruturação de projetos para a instalação de antenas de internet no campo, que nasceu de conversas entre a John Deere, uma das maiores fabricantes de tratores do mundo, e a Claro. A startup foi fundada em 2020 pelo empresário José Ricardo Rezek, um dos maiores revendedores da John Deere, que chamou o engenheiro Rodrigo Oliveira, com 20 anos de atuação na área de transformação digital de empresas como a Ericsson, para capitanear o negócio.

“Existe uma demanda enorme por conectividade no campo que acreditamos poder suprir”, diz Oliveira. Em parceria com a Claro, a startup mapeia os locais do país com maior demanda por sinal de internet no meio rural e estuda a legislação de cada município para a instalação de antenas, que geralmente envolve um processo burocrático de liberação de licenças.

Depois disso, oferece aos produtores rurais as melhores tecnologias para necessidades específicas, que podem incluir desde ­softwares de gestão até sistemas de automação de maquinários. Neste ano, a agritech deve instalar 100 torres de sinal de internet — no ano passado, foram 30. A receita vem de mensalidades pagas pelos produtores rurais pelo serviço. 

Para a John Deere, com uma ampla base de revendas e clientes em todo o país, trata-se de um negócio e tanto. As máquinas mais avançadas da empresa funcionam com sinal 4G, que permite a transmissão de dados entre os equipamentos e o escritório central da fazenda. Com isso, é possível acompanhar em tempo real as etapas fundamentais do cultivo, como a distribuição de sementes e defensivos. “Faz parte de nossa missão levar o 4G para o campo”, afirma Rodrigo Bonato, diretor de marketing da John Deere.

A SLC Agrícola, uma das maiores produtoras de grãos do país, também criou um braço de investimento em ­agritechs em 2021, o SLC Ventures. O primeiro aporte, de 12 milhões de ­reais, realizado em conjunto com a SP Ventures e outros investidores, foi feito no ano passado em uma startup de softwares de gestão de fazendas, a Aegro. “O retorno principal para a SLC é a inovação por si só”, diz Frederico Logemann, líder da área na empresa fundada por seu avô. “Temos a oportunidade de ser ouvintes nos conselhos das startups investidas e acompanhar de perto a evolução de novas tecnologias, o que deverá ser um diferencial para as companhias do agro no longo prazo.”

Afinal, todo mundo quer estar perto de startups que nasceram com ambições de transformar a agricultura brasileira e, de quebra, se tornarem empresas bilionárias.