O peso das ações filantrópicas na pandemia: qual o papel das empresas?

Firmar a cultura do voluntariado no Brasil será um desafio nos próximos anos. É um papel que cabe também às empresas e seus funcionários

Não tem sido um ano fácil para ninguém. Diante do aumento do desemprego, que atingirá 14,6% da população ao final de 2021, segundo projeção da Confederação Nacional da Indústria (CNI), o Brasil tem buscado forças na filantropia em uma nova realidade de consciência coletiva de empresas e indivíduos. “O terceiro setor nunca foi tão importante”, afirma o coordenador de planejamento da Cruz Vermelha Brasileira (CVB), Erick Vieira.

Com mais de 6.000 voluntários atuantes e presente em 21 estados, a CVB é uma das instituições que trabalham para mitigar os efeitos da pandemia em comunidades carentes, populações ribeirinhas e povos indígenas. Vieira afirma que, com a ajuda que vem recebendo, a entidade consegue destinar parte dos recursos para a área da saúde, mas que o valor ainda não é suficiente para auxiliar todas as pessoas que dependem da entidade. “Neste momento, pela crise sanitária, há mais necessidade de EPIs e insumos hospitalares para os profissionais da saúde. Além disso, não podemos nos descuidar dos fatores secundários. Buscamos também realizar ações para a entrega de cestas básicas e cartão de alimentação a quem precisa”, afirma.

Doações de comida durante a pandemia em São Paulo: uma mobilização de empresas e comunidades

Doações de comida durante a pandemia em São Paulo: uma mobilização de empresas e comunidades (Jonne Roriz/Getty Images)

O auxílio dado de forma voluntária por empresas e pessoas por causa da crise sanitária evitou um número ainda maior de mortes em decorrência da doença. Os resultados apresentados pela Cruz Vermelha demonstram crescimento de 100% nas doações no ano passado em comparação a 2019. Foram doados 12 milhões de reais, e mais de 8 milhões em produtos como EPIs, álcool em gel e produtos de limpeza, o que possibilitou o aumento do número de pessoas assistidas, beneficiando mais de 7 milhões de brasileiros.

Mesmo com uma possível redução nas doações para este ano, de acordo com pesquisa do Instituto Datafolha publicada em dezembro, a solidariedade nunca esteve tão alta nos últimos tempos. Dados da Associação Brasileira de Captadores de Recursos (ABCR), órgão que monitora as doações para o combate à covid-19 no Brasil, mostram que nos 12 meses contados a partir de 31 de março de 2020 foram doados 6,7 bilhões de reais. As causas a que foram destinados são variadas; contudo, 74% dos recursos foram para a área da saúde, minimizando o desgaste do setor mais utilizado até o momento.

Para o Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora), organização não governamental criada em 1995 com a proposta de conservação do meio ambiente alinhada ao correto uso do solo e à proteção a indígenas, as doações tiveram um peso importante nos últimos anos. Com cada vez menos investimentos para o setor, a parceria com empresas privadas e a destinação de recursos das pessoas físicas tornaram-se mais necessárias. Em 2019, de acordo com o balanço publicado, o instituto conseguiu uma receita de 24 milhões de reais, entre financiadores e serviços prestados, e em 2020 a receita preliminar apontava 23 milhões de reais. 

Roberto Palmieri, gerente de projetos do Imaflora, diz que as parcerias acontecem de formas variadas e que, mesmo não contribuindo com doações em dinheiro, outras necessidades do instituto são levadas em consideração. “As doações financeiras são importantes, e há participação de outras formas também, como a prestação de serviços. Fizemos um plano de marketing completo totalmente gratuito com uma empresa parceira, e isso foi bom para a contenção de despesas e a divulgação de projetos”, afirma.

Iniciativa privada

Se de um lado existem entidades sem fins lucrativos engajadas em fazer o repasse de doa­ções e a distribuição de seus serviços para quem precisa, de outro há empresas que buscam amparar a sociedade com algum tipo de recurso. A iniciativa privada está cada vez mais preocupada em auxiliar com parcerias no terceiro setor. O desenvolvimento de programas sociais por parcela significativa das empresas é algo que tem tomado fôlego, mesmo com a pandemia.

Um dos exemplos é o Santander Brasil. A instituição financeira mobilizou seu quadro de funcionários em prol da Ação da Cidadania, organização fundada por Herbert de Souza, mesmo idealizador da campanha Brasil Sem Fome, com a doação de 100.000 cestas básicas. E, para engajar seus colaboradores e clientes, informou que doaria outras 100.000 unidades caso atingissem a mesma quantidade em doações espontâneas. A meta, além de incentivar a participação dos funcionários — que, por sinal, já possuem um envolvimento na filantropia em programas da empresa —, incentiva a participação de toda a rede de familiares e amigos, criando um ciclo de voluntariado que excede os limites da empresa.

“Essa cultura que criamos engaja os colaboradores. Existe gente que passa a fazer parte de conselho municipal depois de participar de ações da companhia”, diz Karine Bueno, superintendente de sustentabilidade. O banco ainda tem outras iniciativas, como o Parceiro do Idoso, que trabalha com o incentivo fiscal direcionando recursos do imposto de renda para Fundos dos Direitos do Idoso, e também o Amigo de Valor, que investe na garantia dos direitos da criança e do adolescente. Todas as ações de 2020 impactaram mais de 306.000 pessoas em 63.000 participações sociais.

Morador de rua em Moscou: a pandemia acentuou a desigualdade social e a pobreza

Morador de rua em Moscou: a pandemia acentuou a desigualdade social e a pobreza (Sergei Fadeichev/Getty Images)

Mesmo que no Brasil a cultura da doação não seja tão consolidada, há esforços para alavancar o debate dentro e fora das empresas. Nesse sentido, a doação de tempo gera forte impacto para o desenvolvimento tanto para quem recebe quanto para quem executa. Oferecer a oportunidade de participação do quadro de funcionários é uma forma de conscientização, além de demonstrar os va­lores em que a empresa acredita.

A fabricante de alimentos Mondelez, por exemplo, desenvolve e estimula seus colaboradores, fornecedores e consumidores a atuar nas iniciativas da companhia. “São várias as atividades realizadas anualmente com crianças e adolescentes de instituições parceiras, sempre no horário de trabalho, além de promovermos eventos de serviço à comunidade dentro da companhia. Temos também oficinas com o voluntariado que apoiam em­preen­­de­doras­ no projeto de geração de renda e na comercialização dos produtos”, diz Maria Claudia Souza, diretora de assuntos corporativos e governamentais. 

A executiva reforça a importância da participação em projetos sociais em qualquer escala. O evento global Purpose Day, promovido pela empresa com o objetivo de mudar a mentalidade dos funcionários em prol das causas sociais e humanas, contou com a participação de 80.000 colaboradores no mundo todo. Nessa ação, que ocorreu em outubro de 2020, foram economizados 54 milhões de litros de água, número suficiente para o abastecimento por um mês de uma cidade com até 10.000 habitantes. “Houve um forte engajamento do time brasileiro e seus 8.000 participantes. Eles ficaram sem utilizar o carro por um dia, fizeram a separação e destinação adequada dos resíduos pós-consumo, doaram roupas, alimentos, brinquedos e livros”, diz Souza. No fim, a equipe brasileira venceu a gincana.

E o futuro?

O cenário é preocupante no pós-pandemia. Falência de empresas, desemprego em alta e o moral comprometido compõem uma situação comparada a um quadro de guerra. Entre as principais angústias relatadas por entidades de apoio assistenciais está a redução das doações financeiras e de produtos.

O desafio das instituições que dependem de doações, nos próximos anos, será manter a arrecadação elevada. As propostas de parceria entre as empresas e o terceiro setor tiveram de ser reinventadas e avaliadas minuciosamente. Fatores como logística, informatização, captação e capacitação de voluntariados são dificuldades que ficaram ainda mais em evidência nesta crise sanitária e devem continuar por algum tempo. Como a vacinação ainda está longe de atingir uma grande parcela da população devido a seu ritmo lento, as medidas de auxílio são pensadas para durar, pelo menos, até o final de 2022. 

Voluntários na Alemanha: nos países ricos, a lei incentiva as doações

Voluntários na Alemanha: nos países ricos, a lei incentiva as doações (Omer Messinger/Getty Images)

Atualmente o Brasil ocupa a 74a posição entre os 136 países que mais fazem doações, no ranking World Giving Index. O índice é divulgado pela Charities Aid Foundation (CAF), organização internacional que apoia e capitaliza recursos para mais de 88.000 instituições de caridade no mundo todo. O primeiro lugar é dos Estados Unidos, em seguida estão Mianmar e Nova Zelândia.

É fácil entender as razões dessa posição do Brasil. Os países que estão mais bem posicionados nesse índice possuem incentivos fiscais mais amplos e abrangentes. Por exemplo, a lei americana estabelece que ações filantrópicas podem gerar abatimentos no im­posto de renda de até 50%, enquanto aqui no Brasil o máximo permitido é 6%. Outro ponto importante que desmotiva a prática é o imposto sobre doações, cobrado em poucos países, entre eles o Brasil.

Mesmo com o país posicionado na parte inferior do ranking, os brasileiros pelo menos têm a intenção de se envolver em ações coletivas, mas só o fazem quando são impactados por campanhas. O Instituto Datafolha aponta em uma pesquisa realizada em 2020 que 92% dos brasileiros querem ser mais solidários, e geralmente são em ações pontuais. Portanto, vale ressaltar que há vontade por parte das pessoas e, nessa direção, empresas privadas, setor público e ONGs devem buscar maneiras de chegar a elas. Se o problema do método for resolvido, será possível alcançar níveis mais altos e fazer a ponte entre quem quer doar e quem precisa receber.

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