A crise bate nas favelas

ONG distribui alimentos e outros produtos e tenta compensar a ausência do Estado no lugar que mais sofre com a pandemia

Embaixo de um viaduto em Madureira, no Rio de Janeiro, toneladas de produtos, entre alimentos e material de higiene e limpeza, são armazenadas diariamente. O local abriga uma das sedes da Central Única das Favelas (Cufa), organização não governamental que atua em 412 municípios brasileiros. Os caminhões entram com a mercadoria, e um grupo de voluntários, todos moradores das comunidades, sai para fazer a distribuição. Até a semana passada, mais de 770 toneladas de produtos haviam sido distribuídas para 64.000 famílias da região.

A Cufa montou uma rede de centros de distribuição por todo o país para entregar as doações de cidadãos e empresas. Em São Paulo, foram 1.300 toneladas. Em outros estados, uma média de 200 toneladas. Ao todo, mais de 7.000 toneladas de produtos, que chegaram a 583.000 famílias, ou 1,5 milhão de pessoas. “É pouco”, diz Celso Athayde, fundador da Cufa. “Precisamos de muito mais.” A Cufa também criou um programa próprio de transferência de renda, o Mães da Favela. O projeto oferece uma bolsa de 120 reais, por dois meses, a 50.000 famílias.

Endereço de quase 14 milhões de pessoas no Brasil, as comunidades sofrem com a ausência de governo e com a falta de saneamento básico. Não há um levantamento sobre o número de moradores infectados com o coronavírus, mas é certo que as favelas são um dos territórios mais vulneráveis ao avanço da pandemia. Manter distanciamento social em moradias superpovoadas ou lavar as mãos frequentemente quando falta água para as necessidades básicas é utopia.

Do ponto de vista econômico, nenhuma área foi tão atingida pela covid-19 quanto as favelas. Mais da metade dos trabalhadores não tem carteira assinada e 72% não possuem sequer 1 real guardado. “No momento que são impedidos de trabalhar, ficam sem renda”, afirma Renato Meirelles, fundador do instituto de pesquisa Locomotiva, que realizou um abrangente estudo sobre favelas no Brasil.

Se falta Estado, sobra resiliência. “O morador de favela tem tudo que o RH das empresas quer: resiliência, iniciativa e criatividade”, diz Meirelles. As comunidades também têm um poder de consumo enorme: 119 bilhões de reais em 2019, valor superior ao de países como Bolívia e Paraguai. “Estamos nos virando”, diz Athayde, que, quando jovem, morou por seis anos embaixo do mesmo viaduto em Madureira. “Aqui não existe luxo. É favela.”

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