A bolha verde

O que existe de espuma e de concreto por trás da onda mundial de investimentos em tecnologias limpas

Há cerca de duas décadas, o oceanógrafo americano John Martin teve seu momento “eureca!”. Ele descobriu que poeira de ferro estimulava o crescimento dos plânctons, organismos aquáticos com alto poder de captar carbono na atmosfera. Naquela época, cidadãos comuns não tinham muita idéia do que representava o aquecimento global, mas Martin ganhou alguma notoriedade no meio acadêmico ao propor uma solução para o fenômeno, que hoje é tido como a maior ameaça ao planeta.

“Dê-me metade de um cargueiro de ferro e eu lhe darei uma era glacial”, afirmou na época. Desde então, pesquisadores debatem os impactos da promoção de uma espécie de fertilização do oceano para combater o aumento da temperatura do planeta. Apesar das intensas discussões, eles estão muito distantes de chegar a um veredicto.

À revelia do debate, o empreendedor americano Dan Whaley criou, há pouco mais de um ano, a Climos, empresa que tem por objetivo vender créditos de carbono gerados com a proliferação de plânctons. Mesmo sem autorização para espalhar poeira de ferro nos oceanos e sem uma metodologia que garanta a venda dos créditos mais tarde, Whaley já arrecadou, neste ano, 3,5 milhões de dólares de investidores de capital de risco para tirar o plano inusitado do papel.

Centenas de outras companhias iniciantes como a Climos estão recebendo dinheiro em troca da promessa de que podem gerar milhões com alguma solução mirabolante para a ameaça da mudança climática. O movimento ainda está longe do frenesi visto durante o auge da bolha da internet.

Em 1999, cerca de 40 empresas virtuais abriram o capital por mês (sendo que um quarto delas dobrou de valor no mesmo dia) – ante uma média de cinco empresas relacionadas de alguma maneira a tecnologias verdes que estrearam na bolsa em 2007. A onda, porém, é forte o suficiente para motivar executivos como o israelense Shai Agassi a jogar para o alto uma promissora carreira na alemã SAP e se aventurar no mercado automotivo.

Agassi fundou, no ano passado, a própria empresa, a Project Better Place, que pretende transformar na primeira distribuidora de energia para abastecer carros elétricos em todo o mundo. Ele amealhou cerca de 200 milhões de dólares para financiar o projeto – o maior investimento de venture capital em negócios verdes feito nos Estados Unidos no ano passado. Detalhe: ainda não existe uma frota mundial que justifique o investimento.


Para alguns especialistas, casos como esse dão sinais de certa exuberância irracional. “Há indícios de que pode existir uma bolha em formação”, disse a EXAME o americano Eric Janszen, criador do site iTulip.com e um dos primeiros a prever o estouro da bolha da internet, que aconteceu em março de 2000. “Há volumes crescentes de capital investido em tecnologias verdes, abundância de incentivos fiscais e nunca se falou tanto, e de maneira tão favorável, sobre o tema”, diz Janszen.

Segundo dados da consultoria britânica New Energy Finance, os investimentos em energias limpas no mundo somaram cerca de 150 bilhões de dólares em 2007 – 60% mais que no ano anterior. Também em 2007, 16 fundos de private equity foram criados no mundo para investir em empresas de energia renovável que têm capital aberto.

Em 2005, surgiu apenas um. A explosão no número de fundos de investimento ajuda a entender outro fato que chamou a atenção dos especialistas no ano passado: o da valorização exagerada das ações dessas empresas. O índice WilderHill New Energy Global Innovation (NEX), que monitora o desempenho de cerca de 80 companhias que atuam nos mercados de energias limpas e de carbono no mundo (entre elas as brasileiras Cosan e São Martinho, do setor sucroalcooleiro), registrou alta de 57,9% no ano passado.

Um desempenho muito superior ao do índice da bolsa americana Nasdaq, na qual estão listadas as principais empresas de tecnologia, e do S&P500, que reúne as 500 maiores companhias americanas. Eles cresceram 9,8% e 3,5%, respectivamente. Entre as vedetes, esteve o fabricante americano de painéis de energia solar First Solar, cujas ações se valorizaram quase 1 000% no ano passado. “Estamos falando de negócios que são, sim, concretos e promissores”, diz Michael Liebreich, presidente da New Energy Finance e um dos maiores especialistas do mundo em energias renováveis. “Só não acho que eles valham isso tudo.”

Além do efeito manada, que fez com que alguns investidores afoitos subestimassem a complexidade do novo negócio, várias empresas tiveram de rever as próprias previsões de receita por freqüentes mudanças nas regras que regem o mercado de carbono. É o caso da inglesa EcoSecurities, que tem entre seus sócios o brasileiro Pedro Moura Costa.

Listadas na bolsa de Londres, as ações da EcoSecurities chegaram a ser negociadas por mais de 400 libras esterlinas em julho de 2007. De lá pra cá, perderam quase 80% de seu valor. O desencanto dos investidores deu-se em novembro, quando a empresa diminuiu em cerca de 20% a expectativa de créditos de carbono que será capaz de oferecer ao mercado internacional até 2012.


A EcoSecurities culpou o Conselho do MDL da ONU pela situação, uma vez que ele estaria atrasando a aprovação dos projetos e a emissão oficial dos créditos. No ano passado, 9% das propostas apresentadas ao conselho foram recusadas – o dobro de 2006.Como no início de qualquer bolha, ninguém sabe por enquanto qual modelo de negócios vai vingar – e é no mercado de carbono que estão as melhores evidências de que a neófita economia verde está passando por uma depuração.

Nos últimos anos, criou-se uma espécie de euforia em relação às fortunas que poderiam ser criadas com a venda de créditos de carbono, o que gerou um certo efeito manada. No Brasil, boa parte desse efeito foi provocada pela Agcert, empresa irlandesa que prometeu mundos e fundos a dezenas de suinocultores a partir de 2004.

No papel, a proposta parecia ótima: a Agcert montaria nas granjas brasileiras uma estrutura para extrair o metano, gás com alto potencial de aquecimento global, para, em seguida, transformá-lo em gás carbônico. Os suinocultores (que não arcariam com nenhum custo) ainda ganhariam uma fatia da receita gerada com a venda de créditos por meio do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL), peça-chave do Protocolo de Kyoto. O plano não funcionou.

Ao instalar nas granjas uma tecnologia de qualidade duvidosa e encarregar os próprios suinocultores da manutenção, a Agcert não gerou os créditos e não pôde cumprir os contratos de venda com clientes em todo o mundo (não há estimativa do valor contratado). Hoje, à beira da falência, a empresa negocia com a americana AES, uma de suas principais acionistas, um plano de socorro.

A despeito dos (poucos) exemplos de fracasso, especialistas acreditam que a onda de investimentos verdes ainda está longe de sua crista. Em 2007, a venda total de créditos movimentou cerca de 64 bilhões de dólares – o dobro do valor registrado no ano anterior. (Se os Estados Unidos aderirem ao Protocolo de Kyoto, existe a estimativa de que o mercado de carbono mundial possa ganhar outros 150 bilhões de dólares.)

Com a recente entrada de bancos tradicionais, o mercado tende a crescer rapidamente. “Esse jogo deve se sofisticar e se transformar numa seara para gente grande”, afirmou a EXAME o indiano Chandra Shekhar, ex-executivo do Banco Mundial, onde ajudou a montar um dos primeiros fundos de carbono do mundo.

Shekhar foi contratado há pouco mais de três meses pelo banco americano JPMorgan para organizar o primeiro negócio de carbono do banco. “Ainda há muitas dúvidas em relação às regras desse mercado no futuro, mas uma certeza o impulsiona: haverá cada vez mais limites para as emissões”, diz ele.

Por enquanto o rastro da onda de investimentos verdes deixou mais saldos positivos do que baixas. O americano Janszen chega ao ponto de dizer que uma bolha verde poderia ser a solução para a recessão dos Estados Unidos. “Seria ótimo que todos os nossos investimentos fossem direcionados para construir um novo modelo de eficiência energética para o país”, diz ele.

“Ainda que houvessem alguns desvios e excessos ao longo do caminho, ao final teremos construído uma infra-estrutura que nos permitirá ficar menos dependentes dos combustíveis fósseis, que se transformaram num pesadelo para a humanidade.” Desta vez, ao contrário do que aconteceu na bolha da internet, não há tantas companhias listadas em bolsa e o mercado dá sinais de sensatez.

(Depois de ostentar um desempenho astronômico no ano passado, o NEX, índice das empresas verdes, teve queda de 17,8% no primeiro trimestre deste ano – ressaca maior que a registrada pela Nasdaq e pelo S&P500, que caíram 14,1% e 9,9% no mesmo período, respectivamente.) Como qualquer onda, a bolha verde deixará vítimas pelo caminho, mas também um legado de crescimento e inovação.

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