Publicado em 01/10/2026, às 11:19.
Última atualização em 01/10/2026, às 11:32.
A rota dos dados
Em 7 de julho, enquanto Argentina e Egito disputavam as oitavas de final da Copa do Mundo, a primeira com 48 seleções, sediada por Estados Unidos, México e Canadá, um placar que quase ninguém acompanhou bateu recorde. O fluxo de dados de internet, da gestora de pontos de tráfego, DE-CIX, movimentou 29,5 terabits por segundo, o maior volume já registrado pela empresa alemã somando todas as suas operações no mundo.
No Brasil, a Copa empurrou o IX.br, sistema gerido pelo NIC.br, braço executivo do Comitê Gestor da Internet no Brasil, a um pico de 55 terabits por segundo. Só o ponto de São Paulo respondeu por 35,9 terabits, o que faz dele o maior do mundo em volume de tráfego, quase o dobro do recorde de Frankfurt, o maior da Europa.
Quem viu o jogo pelo streaming não percebeu nada disso, e nem deveria. Os pontos de troca de tráfego (Internet Exchanges, ou IX) são os lugares onde as redes de operadoras, provedores, plataformas de conteúdo e nuvens se encontram para trocar dados diretamente, sem intermediários e sem que um vídeo ou uma mensagem dê a volta ao mundo antes de chegar ao destino.
É um negócio que fatura pouco perto do que sustenta. Fundada em Frankfurt em 1995 e controlada pela eco, associação alemã da indústria de internet, a DE-CIX faturou 70,9 milhões de euros em 2025. No mesmo ano, suas plataformas trocaram 79 exabytes de dados, ou 79 bilhões de gigabytes, e um estudo divulgado pela empresa estima em cerca de 4 bilhões de euros por ano os efeitos econômicos do hub de Frankfurt na Alemanha.
Se o streaming de futebol produz picos, a inteligência artificial promete mudar o patamar — e a natureza — desse negócio. "A inovação que acontece na nuvem e na IA exige um desenvolvimento muito mais rápido também do lado da infraestrutura. Sem ela, os agentes e as aplicações de inferência não vão funcionar direito", diz Ivo Ivanov, CEO da DE-CIX, em entrevista à EXAME durante o Atlantic Convergence, evento que a empresa organiza em Lisboa e que reúne executivos de cabos submarinos, data centers e telecomunicações dos dois lados do Atlântico. O problema, para ele, é o descompasso de ritmo entre os dois mundos.
Ivo Ivanov, CEO da DE-CIX, durante apresentação sobre a infraestrutura global de dados e a expansão de cabos submarinos impulsionada pela inteligência artificial.
Muito uso, pouca nuvem
No Brasil, esse descompasso já tem número. Quando alguém no país pede uma resposta a um assistente de IA, a pergunta precisa chegar ao servidor onde o modelo roda — e, na maioria das vezes, ele está numa nuvem estrangeira.
Um estudo da Ookla, dona do Speedtest, mostrou neste ano que o Brasil vai bem na latência do 5G, mas aparece em último lugar entre 22 mercados na latência até os provedores de nuvem, o tempo que um dado leva para ir e voltar. A mediana ficou entre 150 e 164 milissegundos. A explicação, segundo o levantamento, está na concentração da infraestrutura em São Paulo e no número reduzido de conexões diretas entre redes, o chamado peering, acordo em que duas redes trocam tráfego entre si, muitas vezes sem cobrança.
Na prática, é a diferença entre um assistente de voz que responde na hora e outro que hesita, entre um agente de IA que fecha uma compra em segundos e outro que trava no meio. Para empresas que pagam por uso de nuvem e de modelos de IA, latência e rotas mal otimizadas também viram custo.
É justamente esse caminho que a DE-CIX quer encurtar. A empresa entrou no Brasil em 2025, com pontos de troca em São Paulo, distribuídos por data centers de Equinix, Elea e Ascenty, e no Rio de Janeiro, em instalações de Elea e Equinix. Um ano depois, segundo Ivanov, são perto de 100 redes conectadas ou com contrato assinado. É pouco perto das mais de 2.500 redes ligadas ao IX.br em São Paulo, mas o executivo diz não ver o sistema brasileiro como rival, e enxerga na maturidade dele uma vantagem.
"O mercado merece soluções complementares ao IX.br. Eles fizeram um ótimo trabalho ao longo de 20 anos, e isso ajuda muito, porque o mercado já é educado em conectividade e em peering. Não nos vemos como concorrentes, ainda que sejamos. É justamente o contrário: acho que juntos podemos aumentar ainda mais a atratividade do mercado", diz.
O complemento, na visão da DE-CIX, está menos na troca de tráfego em si e mais no que vem por cima dela. No Brasil, a empresa vende um pacote voltado a empresas, com conexão direta a várias nuvens, prática comum em companhias que contratam Amazon, Microsoft e Google ao mesmo tempo, e a aplicações corporativas. A operação local está ligada a Nova York por um corredor de dados norte-sul, segundo o relatório anual da companhia, e a hubs como Lisboa e Madri. E, segundo Ivanov, já está pronta para a IA.
Isso vale para as duas pontas da tecnologia. No treinamento de modelos, a fase em que o sistema aprende a partir de grandes volumes de dados, a DE-CIX permite que uma empresa junte placas de processamento gráfico (GPUs), os chips que fazem o trabalho pesado da IA, de data centers diferentes numa espécie de comunidade virtual. Se um data center tem 800 GPUs disponíveis e outro tem 1.000, um cliente que precisa de 1.800 pode usar os dois como se fossem um só. A conta importa porque, em IA, errar o tamanho custa caro. "Se você tem demais, paga dinheiro à toa. Se tem menos do que precisa, demora tanto que acaba pagando mais do que calculou", afirma.
O dinheiro de verdade, porém, está na outra ponta: a inferência, o momento em que o modelo já treinado é usado no dia a dia, a cada pergunta ou tarefa. Para isso, a empresa criou o que chama de roteamento de inferência multiagente, que permite a bancos, indústrias e varejistas conectar diretamente seus agentes de IA — programas capazes de executar tarefas de forma autônoma — a diferentes provedores, com a mesma lógica que hoje usam para distribuir cargas entre várias nuvens. A plataforma de IA da DE-CIX foi lançada no ano passado com mais de 50 redes de provedores de GPU e de inferência conectadas.
Dados em casa, rotas de reserva
Trazer a IA para perto do usuário não é só uma questão de velocidade. Para Ivanov, é também uma questão política, e o Brasil tem as peças para tirar proveito dela. "O Brasil é um país bem servido para a IA, mas isso precisa acontecer. Tem recursos de energia para sustentar o treinamento e tem gente, tamanho e uma economia que vai usar a inferência. Isso deveria ser um plano mestre para o país", afirma. A capacidade de data centers no país deve dobrar em 2026, mas a maior parte da IA consumida aqui ainda roda lá fora.
"É também uma questão de soberania. Os dados devem ficar no Brasil: os seus dados de saúde, os meus. Se você não tem capacidade de GPU, onde vai treinar? Nos Estados Unidos ou, pior ainda, na China? Queremos isso? Não", diz Ivanov.
Manter os dados em casa resolve metade do problema. A outra metade é protegê-los, e as ameaças cresceram. Segundo Ivanov, a Europa vive uma guerra híbrida — a combinação de sabotagem, ciberataques e desinformação sem declaração formal de guerra —, com ataques a infraestruturas críticas como ferrovias e redes elétricas, e a infraestrutura digital está na mira. "Temos de mitigar, temos de estar preparados. A redundância se torna mais importante", afirma.
Redundância, no vocabulário do setor, significa ter mais de um caminho para o mesmo dado. E aí a geografia ajuda. Ivanov vê na Península Ibérica um modelo de hub distribuído raro no mundo: Lisboa funciona como porta de entrada para as rotas transatlânticas, a América Latina, o Brasil em especial, e a África Ocidental; Madri concentra data centers e negócios; e Barcelona cresce como alternativa a Marselha, um dos principais pontos de chegada de cabos submarinos da Europa.
Interligadas, as três cidades funcionam como um único ecossistema, a poucos milissegundos umas das outras. É por Portugal que chega à Europa o EllaLink, primeiro cabo de alta capacidade a ligar diretamente Fortaleza a Sines, sem passar pelos Estados Unidos.
Mais rotas também são uma necessidade de capacidade, não só de segurança. Segundo a TeleGeography, consultoria americana especializada em telecomunicações, a capacidade internacional usada por grandes plataformas de conteúdo e nuvem mais que triplicou entre 2021 e 2025, e o investimento em novos cabos submarinos voltou a níveis que não se viam desde a virada do milênio. Já há quem alerte para o esgotamento da capacidade dos cabos.
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Do fundo do mar à órbita
Se os cabos estão perto do limite e podem ser cortados, a próxima rota alternativa, para Ivanov, fica acima das nuvens. A DE-CIX já apresentou um conceito de ponto de troca de tráfego no espaço, e a Starlink, rede de satélites da SpaceX, de Elon Musk, se conectou à plataforma da empresa em 2025.
"Meu sonho é construir o primeiro ecossistema de interconexão em órbita. Se um cabo submarino for cortado na Terra, você pode refazer o link por lá", diz. Ele cita projetos, com parceiros, de pequenos módulos de data center em órbita capazes de hospedar cache, cópias de conteúdos muito acessados, e inferência de IA, poupando uma etapa da viagem dos dados e atendendo regiões difíceis de alcançar por terra.
A órbita é o extremo de um movimento que Ivanov espera ver acelerar nos próximos cinco anos: a infraestrutura sair dos grandes centros e se espalhar. Com a IA física, robôs e máquinas que agem no mundo real, ganham peso data centers menores, perto do usuário, na chamada borda da rede. Nesse redesenho, ele prevê que algumas empresas vão desaparecer, substituídas por automação e novos modelos de negócio, e que outras vão mudar de natureza.
"Indústrias tradicionais vão mudar completamente de comportamento e se tornar as próximas operadoras de rede: bancos, montadoras, empresas de logística, varejo. Se você trata o carro como escritório ou como casa, por algumas horas, como muita gente faz, qual é a diferença para uma sala de estar?", afirma.
Diante dos temores em torno da IA, ele prefere a cautela ao alarme. "Toda inovação da história humana foi discutida com riscos, como fazemos agora com a IA. Não devemos ter medo. Devemos cuidar dela com responsabilidade", diz. A julgar pelos recordes da Copa, a parte dessa responsabilidade que cabe à infraestrutura já passa, todos os dias, por baixo dos nossos pés — e circula o mundo pelo oceano.
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Créditos
André Lopes
Editor de Inteligência Artificial e Tecnologia
Com quase uma década dedicada à editoria de Tecnologia, também cobriu Ciências na VEJA. Na EXAME desde 2021, colaborou na coluna Visão Global, nas edições especiais Melhores e Maiores e CEO. Atualmente, coordena a iniciativa de IA da EXAME.
