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Redes do Amanhã: entre a promessa renovável e os nós da infraestrutura

Fórum reuniu especialistas do setor elétrico para debater tarifas injustas, data centers, soberania digital e abertura do mercado livre

Por Nivaldo Souza

Publicado em 21/05/2026, às 10:30.

Última atualização em 22/05/2026, às 09:31.

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O Brasil detém uma das matrizes energéticas mais limpas do mundo, com 90% da geração proveniente de fontes renováveis, e processa 60% de sua demanda de dados fora de suas fronteiras. Com 204 data centers instalados e o 11° lugar no ranking global segundo a Brasscom (Associação das Empresas de Tecnologia), o país tem energia em abundância mas ainda não converteu esse trunfo em protagonismo digital. Foi para debater esse e outros gargalos que especialistas em tecnologia e energia se reuniram em 29 de abril, em Brasília, no fórum "Redes do Amanhã", organizado pela EXAME e pela PSR. A agenda abordou desde a redução de subsídios que pesam na conta do consumidor à abertura do mercado livre de energia e à atração de investimentos em data centers.

Um dos temas centrais, o Redata (Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter) chegou ao fórum enredado numa crise que nada tinha a ver com energia. Proposto pelo governo no final de 2025, o programa de incentivos fiscais à instalação de centros de processamento de dados foi encaminhado inicialmente por medida provisória e, após demora na apreciação pelo Congresso, via projeto de lei (PL 278/2026). Aprovado pela Câmara em fevereiro, desde então seguia parado no Senado. O motivo era político: o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), defendia a indicação do senador Rodrigo Pacheco (PSB-MG) para a vaga aberta no Supremo Tribunal Federal, enquanto o presidente Lula optou pelo advogado-geral da União Jorge Messias. A disputa em torno da cadeira atravessou o calendário legislativo e o Redata ficou no meio do caminho. Justamente no dia do fórum, 42 senadores rejeitaram Messias. O programa continuou à espera

A conta que pesa mais para quem menos pode pagar

Cerca de 25% dos brasileiros comprometem em torno de 10% de sua renda apenas para pagar a conta de luz, segundo a EPE (Empresa de Pesquisa Energética). A constatação sintetiza o que o setor passou a chamar de injustiça tarifária. No painel que abriu o evento, o diretor-geral da Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica), Sandoval Feitosa, mostrou que os subsídios cresceram 25% entre 2024 e 2025. Apenas na Conta de Desenvolvimento Energético (CDE), o impacto previsto para 2026 é de R$ 52,7 bilhões, representando entre 12% e 20% do valor final pago pelo consumidor. Somam-se a esse custo cerca de 23% em impostos.

Feitosa defendeu que a revisão tarifária é uma urgência social. "A tarifa é uma preocupação e continuará sendo. Precisamos reavaliá-la de forma organizada para que o consumidor tenha sua modicidade. Modicidade tarifária não é um luxo no país. Ela é necessária", afirmou. Advertiu ainda que "energia cara não é bom para a população, para o setor produtivo e não é bom também para os governos, apesar de, em algum momento, acharem que podem arrecadar mais".

A diretora técnica da PSR, Angela Gomes, argumentou que proteger o consumidor vulnerável e modernizar a rede são objetivos que se reforçam, não que se excluem. Ela defendeu revisão dos preços de referência na tarifa e investimentos em distribuição, apontando que a pressão sobre o sistema crescerá com novos data centers, eletrificação do transporte público e eventos climáticos cada vez mais frequentes. Para ela, a resposta passa por redes "resilientes, multifocais e digitalizadas".

O deputado Arnaldo Jardim (Cidadania-SP), presidente da Comissão de Transição Energética na Câmara, apontou incentivos mal calibrados à geração fotovoltaica como um dos vetores de distorção tarifária. É autor do PLP 100/2026, que propõe uma lei de responsabilidade tarifária para limitar subsídios — construída, segundo ele, "a partir da história recente do setor, do aprendizado, com participação de técnicos da Aneel". Defende uma rede elétrica integrada, inteligente e inclusiva, que batizou de rede IN.

O Secretário Nacional de Energia Elétrica do MME, João Daniel de Andrade, reconheceu os obstáculos políticos às reformas estruturais. A tentativa de retirar o ICMS da tarifa social esbarrou nos estados, e a revisão da CDE enfrentou resistência parlamentar durante a tramitação da MP 1300/2025, convertida na Lei 15.269/2025. Para Andrade, a saída exige uma mudança de lógica: "A gente precisa de políticas focadas no consumo. A gente quer que o setor seja equilibrado de forma que o consumo responda aos incentivos."

"Quem está penando para pagar a conta de energia são os mais pobres, os mais vulneráveis"Sandoval Feitosa, diretor-geral da Aneel

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"Os sinais de preços estão trocados. As fontes não têm uma equalização de preços equilibrada" Arnaldo Jardim, deputado federal (Cidadania-SP)

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"Temos redes de transmissão interligando o país inteiro, a distribuição que chega a 99% da população e as energias renováveis, que têm presença de 90%, e são as mais competitivas. Podemos expandir e manter essa renovabilidade."Angela Gomes, diretora técnica da PSR

Data centers: a nova fronteira da transmissão

A expansão dos data centers deve gerar uma demanda adicional de 25 gigawatts até 2035, segundo a EPE. É energia suficiente para abastecer um estado de porte médio e que precisará de rotas de transmissão que ainda não existem. E este foi o centro do debate no segundo painel da programação. Moderadora da conversa, Angela Gomes, da PSR, ponderou que o Brasil tem condições de absorver essa demanda sem abrir mão do caráter renovável da matriz.

O Superintendente de Transmissão de Energia da EPE, Thiago Dourado Martins, apresentou os estudos conduzidos para mapear onde o sistema pode absorver essa nova carga. Os grandes data centers exigem conexão direta às redes de transmissão, algo inédito no modelo brasileiro, onde a maioria dos centros instalados operam diretamente ligados à rede de distribuição.

Os levantamentos identificaram 9 GW de potencial em São Paulo, estado mais preparado em infraestrutura para receber esses investimentos, além de 5 GW no Sul e 4 GW no Nordeste. Para Amanda Fernandes, Head da área de Redes da PSR, a trajetória de crescimento é expressiva: os data centers respondem hoje por 2% da carga total de energia no Brasil, mas devem chegar a 10% nos próximos anos.

Carlos Adolfo Pereira, Coordenador do Comitê de Transmissão da ABDI (Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base), pontuou que a nova demanda exigirá uma segunda camada de infraestrutura sobre o que já está sendo construído — e que os próximos 30 anos serão definidos pela capacidade de investir em tecnologia. "Vamos ter de construir uma nova distribuição, além dessa que está aí", disse.

A perspectiva de demanda já move investimentos concretos na cadeia de suprimentos. A Hitachi Energy constrói uma segunda fábrica de transformadores em Pindamonhangaba (SP), com R$ 1.4 bilhão investidos para ampliar em 120% uma capacidade produtiva que já é a maior do grupo no mundo em volume de entrega e faturamento, segundo Glauco Freitas, presidente da empresa no Brasil.

"Os data centers são um grande vetor para a expansão de grandes cargas no sistema e também entram em operação em intervalos de tempo curtos. Em resposta a isso, a EPE vem fazendo estudos de perspectiva de transmissão para realizar sua integração"Thiago Dourado Martins, Superintendente de Transmissão de Energia da EPE

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"O Brasil hoje é um canteiro de obras de transmissão"Carlos Adolfo Pereira, Coordenador do Comitê de Transmissão da ABDI

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"O volume de compras que esse pessoal tem para fazer é gigantesco, algo nunca antes visto"Glauco Freitas, presidente da Hitachi Energy no Brasil e Head of South LATAM

Soberania digital e o impasse do Redata

Mesmo com a vantagem renovável, o Brasil cobra até 50% de imposto na importação dos equipamentos necessários para ampliar sua base de data centers. O Redata foi desenhado para alterar essa lógica, mas o impasse político deixou o setor sem o instrumento central para competir com outros destinos de investimento.

Para Pedro Fonseca e Silva, da Odata, a lógica tributária atual é autoderrotante: instalar um data center no Brasil custa 26% mais do que nos EUA e 35% mais do que no Chile. "Para o investidor acaba ficando fácil tomar uma decisão [de não vir]", disse.

Fábio Nugnezi, da Hitachi Energy, acredita que o Redata é um posicionamento estratégico na economia digital, não apenas uma questão de alíquota. Ressaltou que empresas do setor investem pesado em P&D e que tecnologias desenvolvidas em outros países podem ser replicadas aqui — desde que o Brasil esteja no mapa do planejamento global.

Thiago Ivanoski Teixeira, diretor de Estudos Econômico-Energéticos e Ambientais da EPE, avaliou que o sistema elétrico brasileiro está preparado para receber essa demanda. A base renovável da matriz também transforma o país em alternativa competitiva para empresas globais com metas de sustentabilidade: um estudo da ABDC (Associação Brasileira de Data Center) aponta que o Brasil reduz a pegada de carbono em pelo menos sete vezes a cada megawatt consumido por data center, em comparação com o mesmo consumo nos EUA.

O MDIC (Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços) estima em R$ 1 trilhão os investimentos em data centers no país ao longo de uma década. O consumo do setor pode triplicar até 2031, quando o volume acumulado deve alcançar US$ 92 bilhões, segundo a Brasscom. O Brasil já tem 1,3 GW de energia com contratos firmados, o suficiente para abastecer uma cidade com três milhões de habitantes. No Congresso, o relator do marco regulatório da inteligência artificial, deputado Aguinaldo Ribeiro (PP-PB), negocia a inclusão do Redata no texto sobre IA (PL 2338/2023).

"Não faz sentido cobrar 50% de imposto de importação e perder investimentos. Nós queremos cobrar 2% ou 4% de imposto sobre investimentos que vão chegar a centenas de bilhões de dólares, ou nós queremos cobrar 50% sobre nada?"Pedro Fonseca e Silva, gerente de expansão da Odata e vice-líder de infraestrutura digital da Brasscom
"Data centers surgem no meio do nada. Não dá para comprar equipamentos em 18 meses. O planejamento do setor precisa ser muito bom, equiparado ao dos demais"Fábio Nugnezi, vice-presidente de marketing e vendas da Hitachi Energy no Brasil
"Temos como suprir a demanda por energia, temos competitividade do ponto de vista prático. É óbvio que tem uma série de elementos e sinais econômicos que precisam melhorar no Brasil. Mas do ponto de vista que a gente pensa o setor de data center no país e o sistema elétrico brasileiro, o match é total"Thiago Ivanoski Teixeira, diretor de Estudos Econômico-Energéticos e Ambientais da EPE

Mercado livre: do consumidor ao cliente

A lei 15.269/2025 garantiu ao consumidor residencial o direito de escolher de qual distribuidora comprar energia a partir de 2028. A abertura para industriais e comerciais de baixa tensão começa antes, em novembro de 2027. Entre a lei e a prática, há um espaço que o governo precisa preencher com regulamentação clara, e o calendário já corre.

O secretário-executivo adjunto do Ministério de Minas e Energia, Fernando Colli Munhoz, antecipou que o decreto em preparação — resultado de consulta pública com mais de 400 contribuições do setor privado — tem prazo apertado. "A lei fixa que a partir de novembro do ano que vem o mercado já pode ser aberto para os consumidores de baixa tensão industrial e comercial, e um ano depois para o residencial. A gente ainda precisa publicar um decreto e, depois, há uma série de regulações que a ANEEL precisa fazer", explicou.

O decreto também prevê um produto de referência padronizado que toda empresa será obrigada a ofertar e um fornecedor temporário para casos de falência da empresa contratada.

Angela Gomes, da PSR, alertou que apenas 5% dos medidores instalados no país são do tipo smart meter, o que compromete a capacidade de gerar sinais de preço em tempo real — condição básica para o mercado livre funcionar de fato. "A gente não consegue trazer sinal de preço para 95% dos consumidores ainda", disse.

Wilson Ferreira Jr., CEO da Matrix Energia, avaliou que o consumidor brasileiro já tem repertório para lidar com a liberalização, a partir de experiências como a do setor de telecomunicações. "O consumidor brasileiro hoje tem a opção de escolha. Ele está acostumado a escolher", disse. Para ele, porém, a abertura só se sustenta se mudar a lógica de relacionamento entre empresa e usuário.

"É importante não esquecer do consumidor mais vulnerável para trazer inovação e eficiência, trazendo uma tarifa e um serviço adequados às suas necessidades. Isso é fundamental tanto para a sustentabilidade dele quanto do setor como um todo para que a fatura de energia possa caber no seu bolso" Angela Gomes, diretora técnica da PSR
"O plano de comunicação é essencial para mitigar riscos e para explicar ao consumidor o que é o mercado livre de energia, o que são os benefícios que ele tem ao escolher entre suprimentos regulados e ir para um suprimento livre. E explicar os riscos também que ele corre ao inovar. Um bom plano de comunicação é um bom fator mitigador de risco"Fernando Colli Munhoz, secretário-executivo adjunto do MME
"Estamos na era da eficiência. A competição gera eficiência. A figura que estamos criando é a do cliente, não a do consumidor. O consumidor vem até a gente. O cliente você tem que buscar, e precisa apresentar alguma coisa diferente"Wilson Ferreira Jr., CEO da Matrix Energia

Sobre o evento

O "Redes do Amanhã" é um fórum do setor elétrico brasileiro dedicado a reunir os diferentes elos da cadeia, do governo à indústria, para debater soluções concretas e antecipar as transformações do setor. A primeira edição foi realizada em 29 de abril de 2025, em Brasília (DF), com organização da EXAME e da PSR e patrocínio de Hitachi Energy e Matrix Energia.

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Créditos

Nivaldo Souza

Nivaldo Souza

Jornalista

Jornalista de economia e política radicado em Brasília

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