Antes das cortinas se abrirem, Juarez Velozo, 37, já está em cena. Pintado de verde da cabeça aos pés e cercado por desconhecidos que pedem fotos e abraços, ele transforma a calçada do Teatro Renault, na zona central de São Paulo, em uma extensão do palco. Ele não é ator, não faz parte do elenco, mas esteve em 100 das mais de 300 apresentações de Wicked em 2025. Juarez, na verdade, é um fã, que encontrou um jeito pouco convencional de agradecer ao impacto do espetáculo: transformou-se em um personagem. Inspirado em Elphaba, a bruxa de pele verde da peça, criou sua própria versão. “Juarez” fica nos documentos. Ali, ele atende por “Elphabo”.
Sua paixão e devoção ajudam a entender o fenômeno Wicked. O espetáculo estreou em Nova York em 2003 e, desde então, emplacou uma sequência de feitos. São quase 23 anos ininterruptos em exibição, mais de 8 mil apresentações e um faturamento de US$ 1,7 bilhão, que o coloca como a segunda bilheteria mais lucrativa da Broadway.
No Brasil, o sucesso se repetiu. Em três temporadas (2016, 2023 e 2025), a história das bruxas de Oz levou cerca de 1 milhão espectadores aos teatros. Na última montagem, outro feito importante: dez meses em cartaz, sendo os últimos cinco sustentados pela bilheteria – algo raro para um setor que, via de regra, não fica de pé sem patrocínio, nem somente com venda de ingressos.
“Foi um fenômeno para as produções brasileiras”, avalia Carlos Cavalcanti, presidente do Instituto Artium de Cultura, que produziu as duas últimas montagens do musical e que estreia Shrek em 15 de abril.
No entanto, Wicked é parte de uma engrenagem maior. Por trás de cenários grandiosos, efeitos especiais (como um voo a mais de 25 metros de altura sobre a plateia) e músicas que encantam, está uma indústria.
São milhares de profissionais envolvidos, fomento estratégico, planejamento exaustivo e um aporte considerável: para abrir as cortinas, um musical pode custar mais de R$ 20 milhões. Mas ele também movimenta a economia. Um estudo da Fundação Getulio Vargas (FGV), encomendado pela Sociedade Brasileira de Teatro Musical (SBTM), aponta que, em 2023, o teatro musical gerou um impacto econômico total de R$ 1,1 bilhão.
Na prática, esse mercado funciona como aquelas caixas musicais de dar corda: o público vê a bailarina girar, ouve a melodia e se encanta pelo movimento contínuo, mas sem perceber o conjunto de peças que precisa funcionar em sincronia para que tudo não pare de rodar.