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Com R$ 1 bilhão em jogo, São Paulo vira palco da corrida brasileira pela Broadway

Apesar do público fiel, setor segue dependente de incentivos fiscais e da bilheteria

Por Guilherme Santiago

Publicado em 05/03/2026, às 08:00.

Última atualização em 05/03/2026, às 15:40.

A máquina dos musicais

Antes das cortinas se abrirem, Juarez Velozo, 37, já está em cena. Pintado de verde da cabeça aos pés e cercado por desconhecidos que pedem fotos e abraços, ele transforma a calçada do Teatro Renault, na zona central de São Paulo, em uma extensão do palco. Ele não é ator, não faz parte do elenco, mas esteve em 100 das mais de 300 apresentações de Wicked em 2025. Juarez, na verdade, é um fã, que encontrou um jeito pouco convencional de agradecer ao impacto do espetáculo: transformou-se em um personagem. Inspirado em Elphaba, a bruxa de pele verde da peça, criou sua própria versão. “Juarez” fica nos documentos. Ali, ele atende por “Elphabo”.

Sua paixão e devoção ajudam a entender o fenômeno Wicked. O espetáculo estreou em Nova York em 2003 e, desde então, emplacou uma sequência de feitos. São quase 23 anos ininterruptos em exibição, mais de 8 mil apresentações e um faturamento de US$ 1,7 bilhão, que o coloca como a segunda bilheteria mais lucrativa da Broadway.

No Brasil, o sucesso se repetiu. Em três temporadas (2016, 2023 e 2025), a história das bruxas de Oz levou cerca de 1 milhão espectadores aos teatros. Na última montagem, outro feito importante: dez meses em cartaz, sendo os últimos cinco sustentados pela bilheteria – algo raro para um setor que, via de regra, não fica de pé sem patrocínio, nem somente com venda de ingressos.

“Foi um fenômeno para as produções brasileiras”, avalia Carlos Cavalcanti, presidente do Instituto Artium de Cultura, que produziu as duas últimas montagens do musical e que estreia Shrek em 15 de abril.

No entanto, Wicked é parte de uma engrenagem maior. Por trás de cenários grandiosos, efeitos especiais (como um voo a mais de 25 metros de altura sobre a plateia) e músicas que encantam, está uma indústria. 

São milhares de profissionais envolvidos, fomento estratégico, planejamento exaustivo e um aporte considerável: para abrir as cortinas, um musical pode custar mais de R$ 20 milhões. Mas ele também movimenta a economia. Um estudo da Fundação Getulio Vargas (FGV), encomendado pela Sociedade Brasileira de Teatro Musical (SBTM), aponta que, em 2023, o teatro musical gerou um impacto econômico total de R$ 1,1 bilhão.

Na prática, esse mercado funciona como aquelas caixas musicais de dar corda: o público vê a bailarina girar, ouve a melodia e se encanta pelo movimento contínuo, mas sem perceber o conjunto de peças que precisa funcionar em sincronia para que tudo não pare de rodar.

Patrocínio

Uma engrenagem essencial de qualquer produto artístico é o financiamento. Sem ele, projetos não saem do papel. Cada setor da cultura desenvolveu, ao longo do tempo, seus próprios mecanismos de fomento. O cinema, por exemplo, conta com instrumentos específicos, como o Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), administrado pela Ancine, que financia parte significativa da produção nacional. No caso dos musicais, boa parte das produções depende da Lei de Incentivo à Cultura, popularmente conhecida como Lei Rouanet.

Sem ela, o mercado de musicais acabaria da noite para o dia”, diz Stephanie Mayorkis, CEO da EGG Entretenimento, produtora responsável pela recente estreia de Tina Turner – O Musical.

O caminho começa com a inscrição do projeto no Ministério da Cultura. Mas não se trata simplesmente de declarar a intenção de montar um espetáculo. Os produtores precisam apresentar um dossiê completo. Ali, entram o roteiro da peça, o cronograma de execução, a estimativa de público, o orçamento detalhado e uma série de outras informações que ajudam a dimensionar a viabilidade do projeto. Essa etapa, revela Stephanie, acontece ao menos um ano antes do espetáculo estrear.

Só depois da aprovação do governo é que os responsáveis ficam autorizados a buscar patrocínio no setor privado. A aprovação, no entanto, não significa que o governo vá transferir dinheiro diretamente ao produtor. Depois de obter autorização para captar recursos, o produtor ainda precisa ir em busca de patrocinadores interessados em associar sua marca à iniciativa cultural. O que a Lei permite é que essas companhias deduzam o valor investido do imposto.

Assim, em vez de repassar recursos diretamente do Orçamento ao setor artístico, o governo "abre mão" de uma parcela da arrecadação para estimular o financiamento privado da cultura. O dinheiro, explicam os especialistas, sai das empresas ou de pessoas físicas patrocinadoras e vai diretamente para o projeto aprovado. Ao produtor, cabe executar o plano apresentado e prestar contas detalhadas ao poder público sobre a aplicação de cada valor captado.

Myra Ruiz, atriz que deu vida a Elphaba nas três temporadas, em voo a mais de 25 metros de altura sobre a plateia

Marcas estão de olho

Os efeitos desse modelo também aparecem nos números. Segundo a FGV, foram investidos R$ 141 milhões na produção dos espetáculos do gênero. Mas o impacto não parou aí. Segundo o levantamento, cada R$ 1 investido nos musicais fez a economia local girar R$ 7,79. Em outras palavras: o dinheiro aplicado nas produções não ficou restrito ao palco. Ele se espalhou por hotéis, restaurantes, fornecedores, publicidade e uma série de outros setores ligados à cadeia do espetáculo.

Esse efeito multiplicador tem mudado a percepção das marcas patrocinadoras, que, agora, têm se mostrado mais dispostas a apoiar esse tipo de projeto. “Está havendo uma chegada de muitas marcas, novas empresas, entendendo a importância do gênero”, afirma o empresário Luiz Calainho, fundador da holding L21 Corp, que detém a Aventura Teatros, produtora responsável por Hair e Hip Hop Hamlet.

É o caso da Alelo, empresa de benefícios corporativos que patrocina Shrek e também a nova montagem de Wicked no Rio de Janeiro, que estreia em julho, ambos assinados pelo Instituto Artium de Cultura, em coprodução com o Atelier de Cultura.

Para Rogério Bahia, superintendente de marketing da empresa, o interesse em apoiar financeiramente o teatro musical está diretamente ligado ao tipo de retorno que esse formato oferece. "Em visibilidade e reputação, a marca passa a ser associada a experiências positivas e de alta qualidade, o que fortalece a lembrança e afinidade."

A Eurofarma também está entre as empresas que apostam nesse tipo de produção. A farmacêutica apoia a nova montagem de Wicked no Rio e já participou de produções como Tim Maia, e Beetlejuice.

Segundo Maria del Pilar Muñoz, vice-presidente de Sustentabilidade e Novos Negócios da companhia, o investimento em cultura está ligado a uma estratégia mais ampla da empresa. "A Eurofarma entende a cultura como uma importante alavanca social, que compõe, inclusive, a atuação ESG da empresa", explica. "Produções musicais, especialmente as de grande porte, geram empregos, movimentam a cadeia criativa e criam espaços de convivência e pertencimento", afirma a executiva.

Hair, da Aventura, ficou em cartaz no BTG Pactual Hall até o fim de 2025, com seis patrocinadores e apoiadores

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Quem faz a máquina rodar

Para além das marcas, quem faz o espetáculo acontecer também está atrás das coxias. Produtores ouvidos pela EXAME apontam que a expansão do teatro musical no Brasil não se explica apenas por investimento ou patrocínio, mas também pela formação, ao longo de décadas, de uma geração de profissionais brasileiros capacitados para operar produções nos moldes da Broadway e do West End.

“Há 25 anos, mesmo se quisesse montar um musical, não havia equipe técnica nem artistas suficientes”, afirma Stephanie.

O ponto de virada veio em 2001 com a montagem de Les Misérables no então Teatro Abril, hoje Teatro Renault. Foi a primeira produção de grande escala a chegar ao país com estrutura completa. O impacto foi artístico, mas, sobretudo, técnico: parte da equipe vinha do exterior, enquanto profissionais brasileiros aprendiam o método trabalhando lado a lado com estrangeiros. “Formamos milhares de diretores, atores, coreógrafos e músicos”, reforça Cavalcanti.

Duas décadas depois, o cenário é outro. Grandes produções mobilizam centenas de profissionais e sustentam uma cadeia própria. “Entre empregos diretos e indiretos, Espelho Mágico se conecta a 380 famílias”, afirma Calainho. O setor, antes dependente de experiência estrangeira, hoje opera com mão de obra essencialmente nacional.

A FGV estima que, em 2023, o teatro musical gerou mais de 13 mil postos de trabalho no país, sendo 9,8 mil diretos e 3,2 mil indiretos.

Paixão de fã

Há outro ingrediente importante para o teatro musical no Brasil: a paixão dos fãs, que compram ingresso, voltam na semana seguinte e depois de novo. Juarez, o Elphabo, com certeza é um desses casos.

“Somos nós quem fazemos essa roda girar. O sucesso também é causado pelo amor dos fãs”, diz ele, que não está sozinho nessa.

Do outro lado dessa mesma paixão está Marília Di Dio, criadora do Cena Musical ao lado da sócia, Michelle Camhaji. O projeto nasceu em 2012 como trabalho de faculdade, quando as duas perceberam que quase não havia registros audiovisuais de qualidade sobre o teatro musical brasileiro. “Som e vídeos eram muito ruins”, lembra.

Com equipamento profissional e insistência, começaram a gravar trechos de espetáculos e a publicar online. O crescimento acompanhou a expansão das redes sociais. Hoje, o canal soma mais de 50 milhões de visualizações, além dos mais de 100 mil seguidores no Instagram.

Desde 2012, são mais de mil vídeos publicados, formando um acervo que praticamente documenta a história recente do gênero no país. Para Marília, o papel do Cena Musical vai além da audiência. “Conseguimos tirar de dentro do teatro e levar para a casa das pessoas”, conta.

Juarez Velozo, o “Elphabo”, assistiu a Wicked 100 vezes em todos os setores do teatro

Ameaças

Se o teatro musical vive hoje um momento de consolidação, os produtores são unânimes ao afirmar que o jogo não está ganho. Para eles, a dependência extrema de leis de incentivo e os limites de bilheteira ainda são ameaças.

Stephanie, da EGG Entretenimento, explica que, em um país com renda média limitada e turismo cultural ainda incipiente, a bilheteria sozinha dificilmente sustenta produções de grande escala por longos períodos. Em média, um espetáculo consegue se manter em cartaz de quatro a cinco meses em São Paulo e de três a quatro no Rio de Janeiro.

É bem diferente do que ocorre em Nova Iorque ou Londres. O fluxo constante de turistas dispostos a assistir a musicais ajuda a manter espetáculos em cartaz por décadas. O Fantasma da Ópera, por exemplo, permaneceu 35 anos na Broadway, encerrando sua temporada em 2023. Já Chicago é, atualmente, o musical há mais tempo em exibição: estreou em 1996 e segue em cartaz.

Há ainda um desafio de escala. O modelo brasileiro, segundo Stephanie, é pulverizado: muitas produções, temporadas curtas e alto risco financeiro. Por isso, segundo ela, as comparações com a Broadway não fazem sentido. Lá, os produtores apostam no setor porque a expectativa de retorno ao longo de anos é mais certeira. Exemplo disso é Wicked, que é considerado um fenômeno por ficar nove meses no Teatro Renault, enquanto sua versão nova-iorquina está há mais de 22 anos estampando cartazes em Manhattan.

Cavalcanti aponta também para um risco regulatório. A limitação de captação via Lei Rouanet a R$ 10 milhões pode, na visão dele, comprometer a viabilidade de grandes montagens internacionais, que exigem orçamentos mais robustos. O teto reduzido dificulta a atração de títulos de grande porte e impacta toda a cadeia envolvida na produção. “Isto é um isolacionismo”, afirma.

Próximos atos

Ainda assim, o setor não fala em retração. “Sob o ponto de vista artístico e de produção, eu diria que a gente já está no topo da pirâmide”, diz Calainho. 

Para os produtores, o teatro musical brasileiro já provou sua maturidade técnica e econômica, mas precisa de estabilidade para crescer. Stephanie vê espaço para consolidação de um polo estruturado de produção, quase uma “Hollywood” dos musicais, com calendário contínuo, formação permanente de talentos e capacidade de manter títulos por mais tempo em cartaz.

Calainho projeta um movimento ainda mais ambicioso: levar produções brasileiras para outros mercados. De acordo com ele, a Aventura deve abrir um escritório em Londres e desenhar a chegada de produções nacionais a outros países. “Eu não tenho nenhuma dúvida de que vamos levar Hip Hop Hamlet para a Off-Broadway. Elis - A Musical seguramente pode estar em cartaz no West End”, revela.

Depois de duas décadas formando profissionais e consolidando público, o setor começa a olhar para fora. “A curva de ascensão e crescimento do gênero só vai crescer”, projeta Calainho.

“Seremos muito maiores daqui a 20 anos.”

Serviço

Tina Turner – O Musical

Quando: de 26 de fevereiro a 12 de julho

Onde: Teatro Santander - Av. Presidente Juscelino Kubitschek, 2041, Itaim Bibi, São Paulo (SP)

Horários: quarta a sexta, às 20h; sábado, às 16h e às 20h; domingo, às 15h e às 19h

Ingressos: de R$ 25 a R$ 450

Espelho Mágico – 60 Anos da TV Globo

Quando: de 20 de março a 12 de abril de 2026

Onde: BTG Pactual Hall - Rua Bento Branco de Andrade Filho, 722, São Paulo

Horários: sexta e sábado, às 20h; sábado, às 16h; domingo, às 15h e às 19h

Ingressos: de R$ 25 a R$ 350

Shrek – O Musical

Quando: a partir de 15 de abril de 2026

Onde: Teatro Renault - Av. Brigadeiro Luís Antônio, 411, Bela Vista, São Paulo

Horários: quinta e sexta, às 20h; sábado, às 15h e às 19h30; domingo, às 14h e às 18h30

Ingressos: de R$ 50 a R$ 450

Wicked (Rio de Janeiro)

Quando: a partir de 15 de julho

Onde: Cidade das Artes - Av. das Américas, 5300, Barra da Tijuca, Rio de Janeiro

Horários: quarta a sexta, às 20h; sábado, às 15h e às 19h30; domingo, às 14h e às 18h30

Ingressos: de R$ 50 a R$ 450

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Guilherme Santiago

Guilherme Santiago

Redator

Formado em Jornalismo pela ESPM, com passagem pelo Estadão na cobertura de saúde, bem-estar e educação. Na EXAME, escreve desde 2023 sobre carreira, negócios e tecnologia.

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