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Soja, boi e árvore: a tecnologia brasileira para um agro sustentável

Desenvolvida pela Embrapa, integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF) pode proporcionar maior produtividade, renda e resiliência climática

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Soja, boi e árvore: a tecnologia brasileira para um agro sustentável

Desenvolvida pela Embrapa, integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF) pode proporcionar maior produtividade, renda e resiliência climática

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Por Mariana Grilli

Publicado em 22/03/2023, às 11:03.

Última atualização em 09/08/2023, às 16:31.

O que é ILPF?

Imagine que no mesmo hectare é possível planejar um calendário rotativo em que o boi se alimenta do pasto e se refresca na sombra do eucalipto. Quando animal segue para o abate, onde havia pasto é feito o plantio de grãos, como soja e milho. Enquanto isso, o eucalipto continua crescendo em seu ciclo de sete anos até a colheita. Também é a floresta que faz a captura do dióxido de carbono e do metano, permitindo que a atividade agropecuária seja mais sustentável. No fim dos ciclos, são três atividades rentáveis dentro da mesma área produtiva.

A relevância da ILPF para a agropecuária levou à criação, em 2013, da Política Nacional de Integração Lavoura-Pecuária-Floresta, inclusive pelo fato de a tecnologia compor o Plano Setorial de Mitigação e de Adaptação às Mudanças Climáticas para a Consolidação de uma Economia de Baixa Emissão de Carbono na Agricultura (Plano ABC e ABC+).

Na avaliação de Isabel Ferreira, diretora-executiva da Rede ILPF, garantir a segurança alimentar pela ótica preservacionista é uma das prioridades do sistema produtivo. “A gente tem visto que é o momento da ILPF, com aumento de produtividade, sem avanço exploratório da terra e isso está começando a adentrar o discurso público”, diz em entrevista à EXAME.

Made with Flourish

Na safra 2020/2021, dados mais atuais da Rede ILPF, a área consorciada correspondia a 17,4 milhões de hectares, sendo 83% em sistemas ILP (agricultura e pecuária). É um avanço se comparado a dez anos atrás, mas pouco perto dos 80 milhões de hectares de área degradada que há no País. Ainda assim, da safra 2015/2016 até 2020/2021, houve um aumento de 52% de áreas com ILPF no Brasil.

Quais são os benefícios da ILPF?

Durante visitas a campo para construir um diálogo com agricultores e pecuaristas, Isabel Ferreira afirma que a primeira questão a ser levantada por eles é sobre o benefício financeiro.  Para isso, o argumento é que diversificar ganhos econômicos diante de um cenário de oscilação de preços é uma estratégia para diminuir os riscos de uma empresa rural.

Pela ótica ambiental e agronômica, há mais resiliência de todos os componentes, como a fixação de carbono no solo e a redução de gastos com insumos. Além disso, as árvores são interpretadas como uma poupança, já que o ciclo produtivo é mais longo. “Todo mundo está preocupado com a questão social e ambiental. Temos que mostrar na ponta do lápis que a ILPF é rentável”, diz Isabel.

Paulo Herrmann, consultor do agronegócio e ex-presidente da John Deere, afirma que o sistema integrado contribui diretamente para o conforto térmico do gado. Isso se traduz em benefício para o animal e também para o frigorífico que terá uma carne de melhor qualidade.

"Tem um trabalho da Embrapa que mostra uma diferença de temperatura entre 4°C a 5°C se comparado um animal criado a campo aberto comparado àquele de celeiro em ILPF. O gado que fica na sombra apresenta mais bem-estar, melhor capacidade de alimentação e menos estresse", afirma Herrmann.

Árvores à esquerda e plantio de milho à direita

Área de ILPF com árvores à esquerda e plantio de milho à direita. Crédito: Breno Lobato/Embrapa

Quais os desafios da ILPF?

Embora a adoção esteja em crescimento, o país ainda possui um grande potencial de aumento do uso da tecnologia, sobretudo em áreas de pastagens degradadas. Segundo estudo do Laboratório de Processamento de Imagens e Geoprocessamento (Lapig), em 2021, havia 69 milhões de hectares pastagens com degradação moderada ou severa no país. Para dar uso devido a esta terra, três gargalos precisam ser superados: Financiamento, capacitação e a barreira cultural.

Implantar o sistema é uma mudança de paradigma na fazenda, pois geralmente um novo componente produtivo é incluído.  Com isso, calendários de safra e formas de financiamento diferem entre as atividades. O ponto levantado por Isabel Ferreira é que o próprio sistema de financiamento precisa estar mais atualizado sobre mecanismos que viabilizem a tríplice produção.

“Tem que existir algum tipo de financiamento que o proprietário se sinta beneficiado por estar incentivando a sustentabilidade. Não dá para colocar todo o ônus só para o produtor”, comenta Isabel Ferreira.

A falta de capacitação não apenas do produtor rural, mas de agrônomos e extensionistas dificulta a compreensão e adoção da integração. A diretora-executiva da Rede ILPF aponta que este é um gargalo a nível nacional, pois “o conhecimento não está sedimentado em camadas”.

Por exemplo, ela cita a aptidão da ILPF em áreas do Espírito Santo e Bahia que conflita com a ausência do conhecimento técnico em campo. Como proposta de solução, Isabel indica a implantação de Unidades de Referência Técnica (URTs) da Embrapa para disseminar conhecimentos com enfoques regionais.

Ainda há a questão da barreira cultural, muito forte no campo, quando o assunto é inserir o componente florestal na produção. Enquanto alguns produtores não enxergam a rentabilidade da árvore no sistema, outros acreditam que apenas o eucalipto cabe na integração.

“A ILPF precisa ser avaliada de região para região, não há uma receita de bolo. Há lugares que o eucalipto é viável e tem logística, mas em outros locais é possível entrar com espécies nativas, por isso a importância do conhecimento técnico”, afirma Isabel.

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Exportação da tecnologia

Em um cenário de preocupação sobre a segurança alimentar e mais transparência das cadeias produtivas, a ILPF tem sido vista como mecanismo que pode agradar gregos e troianos. Da decisão da União Europeia de condicionar as importações ao desmatamento zero à ampliação da produção de grãos, fibras e alimento em países da África.

“Nosso cenário é o melhor possível: Mudança de governo, atenção internacional com a questão climática e o ILPF trazendo certificações para oportunidades de negócio”, resume Isabel Ferreira ao contar que a tecnologia deve ser introduzida em áreas produtivas da Colômbia e de Portugal.

Enquanto isso, uma missão da Embrapa ao Senegal busca contribuir para a construção de uma barreira de contenção do deserto do Saara, cruzando a região norte do continente africano, de leste a oeste. A ideia da chamada ‘grande muralha verde africana’ é ter uma faixa com cerca de 8 mil quilômetros de extensão e de 15 quilômetros de espessura com árvores.

Laurimar Vendrusculo, chefe-geral da Embrapa Agrossilvipastoril, esteve no Senegal e aponta que tecnologias como a ILPF podem ser validadas no país africano. “A Embrapa Agrossilvipastoril, pela sua expertise em sistemas integrados, terá atuação importante metodologicamente, bem como poderá auxiliar com as questões de agroecologia e restauração de ecossistemas em conjunto com outros centros de pesquisa”, afirma.

Agricultores de Senagal em potencial área para implantação da ILPF

Agricultores de Senagal em potencial área para implantação da ILPF. Crédito: Laurimar Vendrusculo/Embrapa

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Créditos

Mariana Grilli

Mariana Grilli

Repórter de Agro

Graduada em Jornalismo com especialização em Agronegócios pela FGV. Trabalhou como repórter na Rádio Jovem Pan e na Revista Globo Rural. É vencedora do 2° Prêmio GTPS de Jornalismo e do Prêmio Rede ILPF de Jornalismo.

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