Alimentos de IA: no TikTok, frutas e vegetais ganham rosto e vozes (TikTok/Reprodução)
Redação Exame
Publicado em 26 de janeiro de 2026 às 11h48.
Eles têm olhos, boca e personalidade. Às vezes são simpáticos, outras vezes berram insultos e palavrões. E quase sempre são vegetais — tomates, bananas, batatas ou cascas de frutas — animados por inteligência artificial (mas também pode ser utensílios de casa ou até mesmo órgãos do corpo humano). É esse é o fenômeno que tomou o TikTok nos últimos tempos: os “vegetais falantes via IA” que têm como objetivo, entre outras coisas, ensinar os humanos.
O que começou como uma experiência visual esquisita virou um gênero próprio de conteúdo viral, combinando IA generativa, edição simples e humor absurdo. No Brasil, a tendência ganhou uma identidade ainda mais intensa, muitas vezes mais agressiva, mais rápida e mais envolvente, e já mobiliza milhões de visualizações, criadores emergentes e críticas de especialistas.
@dicarapidaia Quando a comida ganha voz pra te ensinar coisas que você não sabia! 😳 #animation #ia #viralvideos #foodtips #dicas
O modelo original da tendência surgiu nos Estados Unidos e Coreia do Sul, com a ideia simples: usar IA para criar imagens de frutas e vegetais com rostos humanos e fazer esses personagens "comerem a si mesmos" ou comentarem sua própria existência. Um tomate se alimentando de extrato de tomate. Um pistache mordendo sua casca. Um kiwi experimentando outro kiwi.
A viralização foi rápida: um único vídeo com frutas se consumindo bateu 35 milhões de visualizações em uma semana. No total, vídeos com essa temática já somam mais de 82 milhões de views no TikTok.
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A ascensão do conteúdo só foi possível graças a ferramentas de IA acessíveis e gratuitas. A maioria dos criadores usa:
Grok AI, Meta AI, Viggle AI ou Google Veo 3 para gerar imagens animadas;
ChatGPT, com prompts do tipo "crie um tomate com cara de bravo explicando como ser armazenado", para detalhar as instruções;
Aplicativos como CapCut ou Clipchamp para editar e sincronizar voz e movimentos labiais.
Os vídeos, geralmente de 15 a 60 segundos, são publicados em sequência e exigem pouco ou nenhum custo — o que democratizou o acesso e acelerou a multiplicação do conteúdo.
Especialistas em psicologia digital apontam múltiplas razões para o sucesso. Primeiro, há o fator estranhamento: a ideia de alimentos conscientes falando sobre si mesmos gera um desconforto curioso que mantém o espectador assistindo.
Em segundo lugar, os vídeos despertam o que se chama de “parasocialidade estranha” — quando as pessoas criam vínculo emocional com personagens que sabem não serem reais. Comentários como “O feijão não merecia isso” ou “Salvem o arroz!” são frequentes nas postagens, mostrando o envolvimento emocional de quem assiste.
O formato também se inspira no mukbang (vídeos de pessoas comendo), mas com um toque de humor sombrio ou terror corporal, onde a comida come a si mesma.
No Brasil, a tendência explodiu em janeiro de 2026 — e com um estilo muito próprio. Criadores viralizaram com vídeos de alimentos falantes que ensinam e brigam ao mesmo tempo. Um abacaxi, por exemplo, grita para o espectador: "Ei, sua jumenta! Me ferve por 10 minutos e viro chá que ajuda na digestão!"
@curiosidadesticktock O chá de abacaxi é uma delícia gente🤌🏽☺️ #curiosidades #frutasfalantes #ia
Essa estética — agressiva, sarcástica e cômica — tem sido chamada de "sincerona", e se tornou marca registrada da versão brasileira da tendência.
Apesar de usarem ferramentas parecidas às dos criadores internacionais, os brasileiros priorizam ferramentas que suportam português do Brasil nas vozes e textos. A Grok AI, por exemplo, é citada por muitos justamente por gerar vídeos com sotaque nativo e sem marca d’água.
Tutoriais em português no YouTube também ajudaram a ampliar o alcance da técnica. Vídeos como “Como fazer frutas falantes com IA no seu celular” se tornaram virais por si só — e criaram um novo ciclo de conteúdo de tutoriais que ensinam a fazer conteúdo viral também viram virais.
Para especialistas, os vídeos têm efeito pedagógico, ainda que nem sempre passem informações corretas.
A casca de banana que briga com você no TikTok, por exemplo, pode não estar 100% certa sobre compostagem, mas as pessoas ouvem o que ela diz.
A pedagogia emocional desses vídeos funciona melhor do que campanhas tradicionais. Mas levanta preocupações: nenhum vídeo cita fontes, especialistas ou dados confiáveis. Um erro replicado por milhões pode impactar hábitos alimentares, higiene e conservação de alimentos.
Como todo fenômeno viral, há sinais de que a tendência pode já ter passado de seu pico. Vídeos feitos por criadores novos, em janeiro de 2026, têm engajamento bem menor que os virais originais de 2025.
Críticos classificam o conteúdo como “AI slop” — conteúdo gerado por IA, rápido, repetitivo e com pouco investimento criativo, feito para alimentar algoritmos. Alguns usuários já comentam: “É o fim dos criadores de verdade.”
Mesmo assim, os vídeos continuam circulando e crescendo. E parecem funcionar.