Tupac Shakur: caso permaneceu sem uma acusação por décadas até que declarações públicas de Duane Davis ajudaram a reabrir a investigação (Bob Berg/Getty Images)
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Publicado em 11 de agosto de 2026 às 12h17.
Um dos crimes mais famosos da história do hip-hop finalmente chegou aos tribunais. Quase três décadas depois dos disparos que mataram Tupac Shakur, começou em Las Vegas o processo contra Duane "Keffe D" Davis, acusado de organizar o ataque que tirou a vida do rapper aos 25 anos.
A seleção do júri começou nesta segunda-feira, 10, em Las Vegas, nos Estados Unidos. Davis, atualmente com 63 anos, se declarou inocente da acusação de assassinato com uso de arma de fogo e envolvimento com atividade de gangue. O julgamento deve durar cerca de cinco semanas.
Davis é apontado pela promotoria como o responsável por organizar o ataque. Segundo os investigadores, ele teria conseguido a arma utilizada no crime e participado da decisão de retaliar Tupac após uma briga horas antes do assassinato.
O atentado contra Tupac aconteceu em 7 de setembro de 1996, em Las Vegas, em meio à rivalidade entre duas das principais gravadoras de rap dos Estados Unidos. De um lado estava a Death Row Records, fundada por Marion "Suge" Knight. Do outro, a Bad Boy Records, criada na Costa Leste por Sean "P. Diddy" Combs.
Segundo a acusação, a Death Row Records contava com a proteção da Mob Piru, gangue de Los Angeles da qual Suge Knight era membro. A Bad Boy Records, por sua vez, teria contratado a South Side Compton Crips, organização rival liderada por Duane Davis, acusado de envolvimento na morte de Tupac.
Naquela noite, Tupac havia assistido à luta de boxe entre Mike Tyson e Bruce Seldon, no MGM Grand, ao lado de Knight. Depois do evento, o rapper e integrantes de seu grupo se envolveram em uma briga com Orlando Anderson, integrante da South Side Compton Crips e sobrinho de Duane Davis. Imagens de segurança registraram a agressão dentro do hotel.
Horas depois, Tupac e Knight estavam em um BMW quando um Cadillac branco se aproximou. Um dos ocupantes abriu fogo contra o veículo. Tupac foi atingido por quatro disparos, enquanto Knight também ficou ferido. O rapper foi levado ao hospital, mas morreu seis dias depois, em 13 de setembro de 1996, aos 25 anos.
A rivalidade entre as gravadoras ganhou outro capítulo trágico seis meses depois. Christopher "The Notorious B.I.G." Wallace, um dos principais nomes da Bad Boy Records, foi assassinado em Los Angeles, em 9 de março de 1997. As duas mortes passaram a ser associadas ao conflito entre grupos ligados às cenas de rap da Costa Oeste e da Costa Leste.
Pouco depois do assassinato, a investigação passou a considerar Orlando Anderson como o principal suspeito de ter efetuado os disparos.
A hipótese ganhou força porque Anderson havia sido espancado por Tupac e pessoas de seu círculo poucas horas antes. Para os investigadores, o ataque poderia ter sido uma retaliação pela briga no MGM Grand.
Anderson nunca foi acusado formalmente pela morte de Tupac. Em 1998, dois anos depois do assassinato do rapper, ele morreu em um tiroteio relacionado a uma disputa entre gangues na Califórnia.
Com a morte de Anderson e de outros envolvidos apontados pela investigação, o caso permaneceu sem um acusado durante décadas.
A investigação ganhou novo impulso quando Duane Davis passou a falar publicamente sobre o assassinato. Davis escreveu o livro "Compton Street Legend", publicado em 2019, no qual descreveu sua participação nos acontecimentos daquela noite. Ele afirmou que estava dentro do Cadillac usado no ataque e que havia fornecido a arma utilizada pelos ocupantes do veículo.
Embora Davis não tenha admitido ser o responsável pelos disparos, a promotoria sustenta que ele participou da organização do crime e pode responder pelo assassinato mesmo sem ter sido o autor dos tiros. A legislação de Nevada permite responsabilizar um participante pelo homicídio cometido durante uma ação conjunta.
As próprias declarações de Davis se tornaram parte central da acusação. Em 2026, seus advogados tentaram impedir que entrevistas antigas e o livro fossem apresentados no julgamento. Um juiz autorizou a utilização de uma entrevista policial de 2008 como evidência.
O caso teve uma reviravolta em julho de 2023, quando a polícia de Las Vegas realizou uma operação relacionada à investigação. Dois meses depois, em setembro, Davis foi preso e acusado formalmente pelo assassinato.
Ele é o único sobrevivente entre os quatro homens que, segundo os investigadores, estavam no Cadillac branco naquela noite. Os outros três, incluindo Orlando Anderson, morreram antes de qualquer acusação pelo crime.
Desde então, o julgamento passou por adiamentos até chegar à data atual. A seleção do júri marca o início de uma etapa aguardada há décadas por familiares de Tupac e por fãs do rapper.
A acusação terá como objetivo demonstrar que Davis participou da organização do ataque e forneceu a arma utilizada contra Tupac. A defesa tenta questionar principalmente a credibilidade das declarações que o próprio réu fez ao longo dos anos.
Entre as possíveis testemunhas está Suge Knight, que dirigia o carro em que Tupac estava no momento dos disparos. Knight sobreviveu ao ataque e atualmente cumpre pena por outro crime. A presença dele como testemunha ainda depende das decisões tomadas durante o julgamento.
Nascido Tupac Amaru Shakur, em 1971, o artista começou a ganhar destaque no início dos anos 1990 e rapidamente se tornou um dos nomes mais influentes do hip-hop. Seu primeiro álbum solo, "2Pacalypse Now", foi lançado em 1991 e chamou atenção pelas letras sobre violência, racismo, desigualdade social e a realidade das comunidades negras nos Estados Unidos.
Nos anos seguintes, Tupac ampliou seu alcance com trabalhos como "Strictly 4 My N.I.G.G.A.Z...", de 1993, e "Me Against the World", de 1995. Este último chegou ao topo da Billboard 200 e se tornou o primeiro álbum de um rapper a alcançar a liderança da parada enquanto o artista estava preso.
Em 1996, Tupac lançou "All Eyez on Me", seu quarto álbum de estúdio e um dos trabalhos mais importantes de sua carreira. O disco duplo trouxe sucessos como "California Love", "How Do U Want It" e "I Ain't Mad at Cha" e consolidou sua posição entre os principais artistas do gênero.
A carreira de Tupac também se estendeu ao cinema. Ele atuou em filmes como "Juice", "Poetic Justice" e "Above the Rim", construindo uma trajetória que ultrapassava a música.