Gen Z: Jovens compartilham o pós-festa com estética cinematográfica e transformam o desconforto em conteúdo, comportamento e debate sobre equilíbrio (MaximFesenko/Thinkstock)
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Publicado em 9 de julho de 2026 às 08h34.
A ressaca sempre foi sinônimo de arrependimento, dor de cabeça e um dia perdido. Para parte da Geração Z, porém, ela passou a representar outra coisa: uma lembrança visual de uma noite divertida. No TikTok e no Instagram, vídeos mostram jovens registrando o dia seguinte com cobertores, cafés gelados, caminhadas ao sol, roupas confortáveis e uma estética cuidadosamente produzida que transformou a ressaca em mais uma tendência das redes sociais.
A nova onda ficou conhecida informalmente como "hangover chic". Em vez de esconder os efeitos do álcool, criadores de conteúdo exibem olheiras, cansaço e falta de energia com um tom leve e bem-humorado. As publicações costumam destacar que a ressaca faz parte de uma noite memorável entre amigos, reforçando a ideia de equilíbrio entre diversão e rotina.
A tendência também pode ser vista como uma reação bem-humorada à cultura da otimização do corpo, marcada pelo interesse em biohacking, dietas restritivas e dispositivos de monitoramento de saúde, como o anel Oura. A mensagem transmitida é simples: uma noite de excessos faz parte da vida.
Para Mary Anne Porto, editora sênior da Punch, empresa de mídia especializada em bebidas, o fenômeno reflete um cansaço em relação ao discurso constante sobre bem-estar. "As pessoas estão cansadas de ouvir falar sobre a cultura do bem-estar", afirmou ao The Guardian. Ela pondera que a intenção não é glamourizar a sensação de passar mal, mas encarar a ressaca sem culpa. "Trata-se de reconhecer que é possível se divertir e manter equilíbrio", resumiu.
"Romantizando minha ressaca porque sou uma garota jovem e isso significa que me diverti muito", escreveu uma mulher na legenda de um vídeo em que aparece dançando enquanto escova os dentes, vestindo um moletom oversized e calça de moletom. "Tipo, isso é meio que uma coisa linda."
Jovem compartilha momento "romantizando a ressaca" em seu perfil no TikTok. (Reprodução / @juliaaristea)
Influenciadores populares ajudaram a impulsionar esse comportamento. A criadora de conteúdo Alix Earle, conhecida por compartilhar sua rotina universitária e festas, é frequentemente citada por usuários como referência desse estilo de conteúdo.
Já a criadora de conteúdo e instrutora de pilates Allana Blumberg, de 26 anos, publicou um vídeo no Instagram que transformava sua rotina de recuperação da ressaca em uma cena de filme: com velas acesas, um cappuccino recém-preparado e a leitura tranquila no Kindle sob a luz natural que entrava pela janela do apartamento. 
Allana Blumberg, influenciadora do ramo de pilates, fez um vídeo "romantizando" um episódio de ressaca
O fenômeno chama atenção porque a Geração Z costuma ser associada ao consumo mais moderado de álcool. Estudos e pesquisas de mercado mostram que muitos jovens bebem menos do que gerações anteriores, impulsionando o crescimento de bebidas sem álcool e hábitos ligados ao bem-estar.
Ao mesmo tempo, pesquisas recentes mostram que o consumo excessivo de álcool cresce entre parte dos jovens quando chegam ao início dos 20 anos. Um levantamento do University College London identificou aumento expressivo dos episódios de "binge drinking" (quando uma pessoa consome seis ou mais doses padrão de bebida alcoólica em uma única ocasião) nessa faixa etária, indicando que a relação da geração com a bebida é mais diversa do que o estereótipo sugere.
Outro fator apontado pelo The Guardian é o custo da vida. Com menos dinheiro disponível para sair com frequência, uma noite de festa acaba se tornando um evento mais raro para muitos jovens. Nesse contexto, a ressaca ganha um significado diferente: passa a representar a lembrança de uma experiência social valorizada.
Uma pesquisa da Better Money Habits de 2026 mostrou que 75% dos integrantes da Geração Z estão reduzindo a frequência de programas sociais que costumam envolver bebidas alcoólicas, como jantares e eventos, principalmente por questões financeiras. Nesse contexto, a ressaca passa a ganhar um novo significado: torna-se uma lembrança de uma ocasião especial, já que sair para festejar deixou de ser um hábito frequente para muitos jovens.
Apesar do sucesso da tendência, há limites claros nesse tipo de conteúdo. Os vídeos evitam mostrar consequências graves do consumo de álcool e preferem retratar sintomas leves, sempre com uma estética agradável e descontraída. A ideia é transformar o desconforto em uma narrativa compartilhável, sem exibir situações de risco.
Outro aspecto observado é o perfil de quem produz esse tipo de conteúdo. A maioria dos criadores tem menos de 30 anos, faixa etária em que a recuperação após uma noite de festa costuma ser mais rápida — e abre espaço para ser romantizada.